Ir direto ao conteúdo

Como esta HQ trata de obesidade e gordofobia

Quadrinho ‘Duplo eu’ aborda transtorno alimentar, autoimagem e aceitação por uma mulher obesa

 

Lançado no Brasil em julho de 2019, o quadrinho “Duplo eu” trata da luta contra a obesidade. Ao mesmo tempo, lida com a gordofobia, o ideal imposto de ser magro a qualquer preço e seu custo psicológico.

Escrito pela roteirista e jornalista Navie e ilustrado pela artista Audrey Lainé, ambas francesas, o livro foi publicado pela editora Nemo. A história, autobiográfica, é contada em primeira pessoa por Navie.

O excesso de peso e as questões psicológicas, como a compulsão alimentar, se materializam na narrativa na presença de um outro eu carregado pela personagem, que é desenhado com um traço vermelho, como uma sombra com vida própria.

 

Ao Nexo a ilustradora Audrey Lainé afirmou que a escolha de contar a história nesse formato se deve ao fato de que, como meio visual, a história em quadrinhos permite amplificar, deformar os corpos e ir em direção à abstração.

Segundo ela, isso faz com que os traços sugiram sensações e acentuem emoções, e com que as metáforas visuais sejam mais fortes e diretas do que se descritas textualmente. Ao mesmo tempo, a HQ prop��e uma abordagem lúdica de um assunto grave.

 

O livro aborda os problemas de autoimagem, os distúrbios alimentares, a relação de uma mulher gorda com o sexo e o desejo, o processo de perder peso e o que resta depois dele.

Foto: Divulgação
Trecho da HQ 'Duplo eu'
 

O excesso de peso e a saúde

Em uma passagem de “Duplo eu”, Navie recebe o diagnóstico de obesidade mórbida de um médico, que recomenda que ela perca peso. Outros aspectos de sua saúde, porém, estão normais: coração, pressão, glicemia.

É uma situação com a qual quem está acima do peso pode se identificar. Ao Nexo o psiquiatra Marcel Higa Kaio, coordenador do Programa de Atendimento aos Transtornos Alimentares da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) explicou que a associação direta entre apresentar excesso de peso e estar doente pode ser equivocada.

“Existem situações isoladas de pessoas acima do peso que não apresentam quaisquer outras alterações clínicas que caracterizem uma doença, ou seja, não há necessidade de tratamento”, diz Kaio. “Se o indivíduo está acima do peso e apresenta hipertensão arterial, diabetes, dores articulares, problemas cardíacos, evidentemente estamos falando de uma série de consequências que o sobrepeso e a obesidade podem causar. São doenças que acometem mais frequentemente quem está acima do peso desejado”.

Para Navie, o papel do médico deveria ser o de se certificar da saúde do paciente e alertar sobre riscos relacionados ao seu estilo de vida, do consumo de álcool à falta de exercícios. “Mas alguns médicos possuem crenças pessoais – gordofóbicas – que influenciam seu discurso. Na França, temos entidades que denunciam essas práticas e ajudam pessoas obesas a buscarem tratamento sem ter medo”, disse a autora ao Nexo. O grande perigo, diz Navie, é que essas pessoas deixem de ir ao médico depois serem atendidas por um profissional gordofóbico.

O que é hiperfagia e quais são seus sintomas

O ganho de peso de Navie foi impulsionado pela hiperfagia, ingestão excessiva de alimentos em um curto período de tempo que, ao contrário de um distúrbio alimentar como a bulimia, não é seguida por uma ação de controle de peso.

No quadrinho, a autora descreve a prática como um vício, muitas vezes associado à compensação de diferentes estados emocionais. Em entrevista ao Nexo, ela chama atenção para o fato de não haver campanhas ou outros instrumentos de conscientização sobre a hiperfagia.

“Muitas pessoas obesas não têm a impressão de sofrer de um distúrbio alimentar. Comer demais porque nossas emoções estão nos devastando é uma prova de que não estamos lidando bem com elas e precisamos de ajuda”, disse Navie. 

Foto: Divulgação
Trecho da HQ 'Duplo eu'
 

Segundo o psiquiatra Marcel Higa Kaio, a hiperfagia não caracteriza, por si só, uma doença. É uma forma de descrever um sintoma, um comportamento. Isolada, pode não ser um problema. “Pode-se comer muito em uma festa com familiares ou em uma churrascada com amigos, por exemplo”, explicou o médico.

Ele afirma que a questão é a hiperfagia recorrente. “Esta sim pode ser caracterizada como ‘transtorno de compulsão alimentar’, condição patológica caracterizada pela perda de controle durante o ato de se alimentar, que causa sofrimento emocional e consequências físicas e sociais para quem sofre da doença, sendo, portanto, necessário tratamento médico com uso de medicações, psicoterapia e apoio nutricional”, diz.

Kaio afirma que, como sintoma, a hiperfagia pode surgir em quadros de:

  • ansiedade (que causa angústia e faz comer a mais)
  • depressão (a tristeza patológica pode gerar um comer desenfreado, principalmente nas mulheres)
  • transtornos alimentares (a hiperfagia recorrente acontece na bulimia nervosa e no transtorno de compulsão alimentar)
  • uso de medicações psiquiátricas (alguns remédios – não todos – podem causar importante aumento de apetite e provocar episódios de hiperfagia)

As consequências da gordofobia

A HQ de Navie e Lainé também passa pelo sofrimento causado pelo olhar julgador dos outros, sejam amigos, familiares ou desconhecidos, sobre o corpo de uma pessoa gorda.

“A gordofobia mata. Esse tipo de comportamento isola as pessoas, as estigmatiza, as impede de trabalhar e de se desenvolver. Ela mata ao empurrar adolescentes para um total mal-estar”, diz Navie. “Se não houvesse um padrão de beleza, como seria minha percepção sobre minha aparência física? Por sorte, eu estava cercada de pessoas amadas. Mas sofri muito com o comportamento de estranhos”.

O psiquiatra Marcel Higa Kaio também descreve a relação de pacientes obesos com seu próprio corpo e sua autoimagem como, em geral, ambivalente e turbulenta.

“A insatisfação tende a prevalecer justamente porque a sociedade atual é dura em recriminar o corpo obeso, associando-o ao descuido, à doença, ao insucesso, a ser menos atraente, atitude esta que gera no paciente uma autoimagem bastante distorcida e depreciativa – ou seja, o próprio paciente se recrimina”, diz Kaio.

Nos movimentos recentes que buscam valorizar a aceitação do corpo “plus size”, pessoas gordas e obesas têm se manifestado contra um padrão único e excludente de beleza. Para o psiquiatra, a promoção da positividade corporal pode ter impacto sobre a incidência de transtornos alimentares na população. 

“Não há dúvida que estimular uma maior aceitação do próprio corpo, não glamourizar o corpo hipermagro, ter visão crítica sobre a busca insana de um shape ‘ideal’ ajuda muito na melhora da autoestima e na redução da obsessão com padrões de beleza irreais. Por consequência, cria impacto favorável na menor chance de se deflagrar novos casos de transtornos alimentares”, disse o médico. Ele ressalta, porém, que esses transtornos não são causados por um único fator, exclusivamente social, por exemplo, mas por um conjunto de causas, também hereditárias e psicológicas.

A expectativa de Navie é que o livro ajude quem se vê nesse contexto. “Espero que esse livro ajude aqueles que se reconhecerem nele, que lhes dê esperança e o sentimento de que não são os únicos que vivem com isso. Também espero que ajude as pessoas ao redor deles a entendê-los”, disse Navie ao Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: