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Fogo na Amazônia: a pressão interna e externa sobre Bolsonaro

Ações e declarações do presidente sobre conservação da floresta causam forte repercussão internacional e em diferentes setores da sociedade brasileira

     

    O aumento do desmatamento e de queimadas que atingem principalmente a floresta amazônica colocaram o Brasil no foco do noticiário internacional e provocaram questionamentos sobre as políticas conduzidas pelo Ministério do Meio Ambiente do governo de Jair Bolsonaro.

     

    Após uma sequência de focos de incêndios florestais escurecer o céu de cidades brasileiras, dentre elas São Paulo, o presidente da República insinuou na quarta-feira (21), sem apresentar provas, que organizações não governamentais podem ter provocado as queimadas no país para atingir a gestão federal, uma vez que deixaram de receber recursos do executivo.

     

    “Pode estar havendo, não estou afirmando, ação criminosa desses  ongueiros para exatamente chamar a atenção contra a minha pessoa, contra o governo do Brasil”

    Jair Bolsonaro

    presidente da República

     

    A afirmação do presidente foi dada na quarta-feira (21), dia em que a hashtag #PrayForAmazonas (“Reze pela amazônia”, em inglês) se tornou o assunto mais comentado mundialmente no Twitter.

     

    Bolsonaro também atribuiu a responsabilidade pelo avanço do desmate à conivência de governadores da chamada Amazônia Legal, formada pelo estados do Pará, Amazonas, Amapá, Acre, Rondônia e Roraima e áreas do Maranhão, Tocantins e Mato Grosso. De acordo com o presidente, alguns mandatários “não estão movendo uma palha” para resolver a questão.

    O governador do Amapá, Waldez Goes (PDT), rebateu as declarações do presidente e disse que transferir responsabilidades não vai acabar com as queimadas.

    No mesmo dia, uma imagem de satélite divulgada pela Nasa que mostra a fumaça de incêndios encobrindo a região amazônica fez com que o tema voltasse a aparecer como assunto mais comentado no Twitter. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), usou a rede social para anunciar a criação de uma comissão externa para acompanhar o problema das queimadas e outra para propor soluções junto ao governo.

    Já na quinta-feira (22), o presidente brasileiro chegou a admitir que fazendeiros podem ser os causadores do fogo na floresta, mas voltou a ligar as ONGs às queimadas. Já o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirmou que as queimadas são uma "mentira europeia" para criar dificuldades comerciais ao Brasil.

    Estão previstos protestos na sexta-feira (23) e no final de semana em pelo menos 40 cidades brasileiras, além de capitais da Europa.

     

    A repercussão internacional

    Autoridades se manifestaram sobre a situação na Amazônia na quinta-feira (22). O secretário-geral da ONU, António Guterres, se disse profundamente preocupado com os incêndios. “Não podemos permitir mais danos para a principal fonte de oxigênio e biodiversidade. A Amazônia deve ser protegida”, afirmou.

    O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que vai levar o assunto à reunião do G7, que acontece no sábado (24). “Nossa casa está queimando. Literalmente. A floresta amazônica - os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta - está em chamas. É uma crise internacional”, disse no Twitter. O presidente brasileiro respondeu, também na rede social, e disse que Macron tenta "instrumentalizar" uma questão interna do Brasil evocando uma "mentalidade colonialista descabida no século 21".

    O presidente brasileiro acusou ainda o colega francês de usar uma foto falsa na postagem. A imagem de floresta queimando usada por Macron no Twitter é de um fotógrafo que morreu em 2003. Dias antes, ao tentar criticar a Noruega, que suspendeu repasses para o Fundo Amazônia, Bolsonaro usou um vídeo de matança de baleia, só que na Dinamarca.

    O aumento das queimadas durante a semana e a reação de Bolsonaro foram manchetes na imprensa mundial. Na França, o Le Monde classificou o fato como um verdadeiro desastre e produziu um vídeo com dados sobre o desmatamento na região sob o título “Jair Bolsonaro é uma ameaça para a Amazônia?”.

    O espanhol El País destacou que as queimadas ocorrem em ritmo recorde desde que começaram as medições do Inpe, em 2013. O americano The Washington Post disse que os incêndios podem acelerar o aquecimento global.

    No Reino Unido, o The Guardian abordou a acusação feita por Bolsonaro de que ambientalistas eram os responsáveis pelo incêndio. A revista Der Spiegel, na Alemanha, destacou que o presidente não tinha provas sobre a acusação.

     

    Uma reportagem do The New York Times também destacou os dados do Inpe sobre queimadas no país. O professor da USP e membro do Laboratório de Física Atmosférica, Henrique Barbosa, afirmou ao jornal que não há nada no horizonte que indique que nos próximos anos do governo Bolsonaro vai proteger o meio-ambiente.

     

    O texto foi compartilhado no Twitter na quinta-feira (22) pelo prefeito de Londres, Sadiq Khan. Ele chamou as queimadas de um ato de “vandalismo ambiental chocante com consequências globais” e defendeu que o governo britânico demonstre seu comprometimento com a questão climática convocando o Brasil a parar os incêndios.

    O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, acusou Bolsonaro de mentir ao compartilhar uma sequência de mensagens feita pelo assessor da Presidência, Filipe Martins, em que defende a capacidade do país de proteger a amazônia. Ele destaca que o desmatamento na Amazônia aumentou 67% em seu governo.

     

    O impacto para o agronegócio

     

    A reação global preocupa setores do agronegócio com a possibilidade de sanções econômicas e diplomáticas. Na Alemanha, a revista Der Spiegel e o jornal semanal de Hamburgo Die Zeit defenderam a retirada da Europa de produtos que não foram produzidos em condições ambientais justas.

     

    A questão ambiental também pode comprometer o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, assinado no final de junho após 20 anos de negociação. Há cláusulas de proteção climática e florestal no acordo, e o governo francês já declarou que não fará negócios com o bloco caso o Brasil deixe o Acordo de Paris.

     

    O presidente da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio), Marcello Brito, em entrevista ao jornal Valor Econômico na quinta-feira (22), afirmou que é questão de tempo para que ocorra um boicote aos produtos brasileiros, e que custará caro reconquistar a confiança de alguns mercados internacionais caso isso ocorra.

     

    No mesmo dia, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, defendeu o governo e disse que não foi a gestão de Jair Bolsonaro que “devastou a Amazônia ou incentivou o desmatamento”. A ministra disse que o setor do agronegócio está dividido sobre a retórica ambiental e que será preciso conversar sobre o assunto dentro do governo.

     

    A visão dos eleitores de Bolsonaro

     

    Além do impacto para a economia, uma pesquisa divulgada pelo Ibope, em parceria com a plataforma de campanhas Avaaz, mostrou que a ampla maioria da população, incluso eleitores que votaram em Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2018, defende a preservação da Amazônia

     

    O levantamento ouviu mil pessoas por telefone entre 14 e 16 de agosto. Para 96% dos entrevistados, o presidente deve aumentar medidas para fiscalização e impedir o desmatamento ilegal na amazônia. O número é igual para eleitores e não eleitores do presidente.

     

    O percentual dos que concordam, total ou parcialmente, que o desmatamento ilegal da Amazônia é preocupante foi de 93%. Para 88% a Amazônia é motivo de orgulho nacional, índice que é de 90% entre os eleitores de Bolsonaro.

     

    O exame na OCDE

     

    A reação internacional pode comprometer o exame da candidatura do Brasil para a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que reúne 36 países que têm elevado PIB per capita e índices de desenvolvimento humano.

     

    A avaliação será feita pelo Comitê de Política de Meio Ambiente da OCDE no final de setembro, e vai avaliar se o Brasil adere a 37 recomendações da entidade. A adesão é defendida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e foi um dos temas discutidos no encontro de Jair Bolsonaro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em março.

     

    As reações contra Ricardo Salles

     

    A repercussão sobre o cenário na Amazônia também atingiu o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Na quinta-feira (22), o senador e presidente da Comissão de Meio Ambiente, Fabiano Contarato (Rede-ES), afirmou que pedirá ao Supremo Tribunal Federal o impeachment de Salles por crime de responsabilidade nas decisões tomadas à frente do cargo.

     

    Também contra o ministro, 19 entidades ambientalistas apresentaram nesta terça-feira (20) uma representação à Procuradoria-Geral da República para que o ministério de Salles seja investigado por omissões na proteção à Amazônia.

     

    Salles, que é um dos fundadores do Movimento Endireita Brasil e já trabalhou como diretor jurídico da Sociedade Rural Brasileira, tem travado embates com ONGs ao longo de sua gestão. Em entrevista à BBC Brasil, no dia 15 de agosto, o ministro criticou unidades de conservação e terras indígenas na Amazônia.

     

    Salles defendeu o uso de “soluções capitalistas”, entre as quais estaria a liberdade de uso do dinheiro doado ao Brasil pelo Fundo Amazônia para o desenvolvimento da cadeia produtiva na região.

     

    A reação das ONGs

     

    Organizações ambientais reagiram às declarações de Bolsonaro. O coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil, Marcio Astrine, afirmou ao portal UOL nesta quarta-feira (21), que a fala do presidente acusando as ONGs de promoverem queimadas é uma tentativa de esconder as consequências da política antiambiental que está adotando.

     

    A WWF Brasil também lamentou a declaração e afirmou que os recursos suprimidos pelo governo eram doações do Fundo Amazônia para subsidiar ações de combate ao desmatamento e a incêndios. “O alegado corte em repasse de recursos causou a redução na capacidade do Estado de combater o desmatamento e os incêndios."

     

    Em entrevista ao G1, o presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), Carlos Bocuhy, classificou a declaração de Bolsonaro como irresponsável e leviana.

     

    Dados e embates

     

    Fundo Amazônia 

    Na primeira quinzena de agosto, Noruega e Alemanha, que juntos fornecem cerca de 99% dos recursos utilizados pelo fundo para coibir o desmatamento anunciaram o congelamento de recursos. Os valores seriam utilizados em iniciativas como monitoramento, gestão de florestas públicas e recuperação de áreas desmatadas.

     

    R$ 3,4 bilhões

    foi a quantia que o Fundo Amazônia captou desde 2008

     

    R$ 133 milhões

    foi o bloqueio anunciado pela Noruega

     

    R$ 155 milhões

    foi o bloqueio anunciado pela Alemanha

     

    Jair Bolsonaro reagiu aos bloqueios com ataques aos dois países. No dia 11 de agosto, sugeriu que a Alemanha tinha interesse em se apoderar da Amazônia. Sobre a Noruega, no dia 18 de agosto ele postou um vídeo da caça de baleias numa ilha dinamarquesa para criticar o país.

    Demissão no INPE

    Após duas semanas de tensão diante da desqualificação feita pelo presidente Jair Bolsonaro sobre os dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Ricardo Magnus Galvão foi exonerado da direção do órgão em 7 de agosto.

    A crise foi motivada pelo presidente dizer que a divulgação de dados que mostravam o aumento de 88% na taxa de desmatamento da Amazônia em junho, frente o mesmo mês de 2018, eram ruins para a imagem do país. Ele insinuou que Galvão poderia estar “a serviço de alguma ONG”. No dia seguinte, o então presidente do Inpe rebateu a declaração, que qualificou como "pusilânime e covarde". O constrangimento causado pela réplica foi o motivo da exoneração.

     

    Aumento das queimadas

    De acordo com dados do Inpe, até o dia 18 de agosto de 2019, os focos de incêndio florestal no país aumentaram 70% em comparação com o mesmo período de 2018. No total, o país contabilizou 66,9 mil pontos de queimada no período. A Amazônia tem o maior número de casos, 51,9%. O cerrado fica em segundo, com 30,7% dos incêndios. Entre os estados, o Mato Grosso lidera com 13.109 focos de queimada neste ano até agora. Depois vem o Pará, com 7.975.

    As queimadas têm como origem, principalmente, ações humanas que visam abrir espaço na floresta. Os objetivos mais comuns são o desmatamento e a limpeza de área para pasto, a fim de criar rebanhos bovinos.

    Os dados sobre desmatamento

    O sistema Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real) do Inpe mostrou que o desmatamento na Amazônia em julho cresceu 278% em comparação ao mesmo mês em 2018. O dado preliminar serve como alerta para o Ibama fazer as fiscalizações nos locais e indica tendências de desmate na região. As estatísticas de desmatamento são consolidadas pelo instituto ao final do ano.

     

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