Qual o impacto ambiental dos edifícios espelhados

Fachadas vedadas e refletoras de luz são criticadas por seus efeitos no entorno e até proibidas em algumas cidades

 

No livro “Dentro do Nevoeiro”, publicado pela Ubu Editora em 2018, um dos signos contemporâneos usados pelo arquiteto e crítico Guilherme Wisnik para tratar do estado de opacidade do mundo de hoje são os edifícios de fachadas translúcidas, que substituíram a transparência presente na arquitetura moderna.

Em geral totalmente vedados, os edifícios espelhados podem entrar nessa categoria. Controversos entre urbanistas, esses prédios se tornaram a estética padrão das sedes comerciais e corporativas em grandes cidades do Brasil e do exterior.

Como aparecem em discussões recentes

Um dos principais pontos atacados por especialistas é o impacto ambiental gerado por eles.

Por conta dos efeitos no entorno, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, falou em proibir a construção desse tipo de edifício na cidade. O plano foi anunciado durante uma entrevista à imprensa em abril de 2019, sobre a implementação do “NYC’s Green New Deal”, plano de ação municipal para reduzir a emissão de poluentes, entre outras medidas voltadas para a sustentabilidade.

Em Santos, no litoral de São Paulo, uma lei que entrou em vigor em dezembro de 2017 já baniu a utilização de vidros refletivos, espelhados e similares nas fachadas dos edifícios da cidade.

Criada em julho de 2019, uma página de memes no Facebook brinca com as críticas aos edifícios espelhados. “Eu luto contra o prédio espelhado” contava com 17 mil curtidas em 21 de agosto de 2019.

Quais os problemas apontados

Em sua pesquisa de doutorado, realizada no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP e concluída em 2018, Rosilene Regolão Brugnera descobriu que edifícios totalmente envidraçados chegam a consumir cerca de 25% a mais de energia em relação àqueles com fachadas tradicionais – parede em alvenaria e esquadria com vidro.

Nesse caso específico, o motivo não está relacionado ao uso do espelho, mas sim à vedação do imóvel. Por não utilizar ventilação natural, esses prédios dependem de um sistema constante de condicionamento artificial.

Especialmente em países do hemisfério sul, os prédios espelhados contribuem para a formação das ilhas de calor. Nesse caso o espelho tem papel importante.

Em entrevista à Haus, plataforma especializada em arquitetura do jornal curitibano Gazeta do Povo, o professor da Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Unisinos, André Souza Silva, disse que eles causam “desconforto considerável aos pedestres por aumentar a temperatura no nível das calçadas”.

O professor também afirma que esse tipo de edifício causa desorientação espacial, relacionada à duplicidade de perspectiva, poluição visual em razão do excesso de informações que reproduz, além de impactos ambientais com relação à colisão de aves.

A importação desse modelo arquitetônico americano, vedado e envidraçado, para São Paulo e outras cidades brasileiras também é questionada porque arquitetos brasileiros já tinham desenvolvido modelos com soluções de resfriamento pensadas e adequadas para o contexto climático do país.

“A arquitetura brasileira sempre mostrou como resolver essa questão, adotando soluções tradicionais, de sombreamento da fachada”, disse Alvaro Puntoni, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em 2013.

Primeiro edifício alto com fachada inteira de vidro no mundo (não espelhado), o Edifício Gustavo Capanema, inaugurado em 1946 no Rio de Janeiro, é considerado um marco do modernismo brasileiro e adotou o uso dos “brise soleil” (para-sol) e da ventilação cruzada, na qual o vento atravessa a edificação sem ser barrado por paredes.

O que dizem os defensores do espelho

Para outros arquitetos, a fachada espelhada é viável do ponto de vista ambiental mesmo com o clima brasileiro. Eles afirmam que atualmente é possível usar vidros que deixam passar luz, mas não calor, permitindo reduzir o consumo de luz elétrica e ar-condicionado.

Além disso, o efeito nocivo dos reflexos pode ser minimizado ou dissipado se forem realizados estudos que considerem o entorno e levem em conta fatores como a altura da edificação e a orientação solar.

Em uma cidade poluída como São Paulo, em que as fachadas logo ficam sujas e precisam ser lavadas, outra vantagem citada é a facilidade na manutenção e limpeza da fachada espelhada.

Para Milene Abla Scala, dona do escritório Vivá Arquitetura e vice-presidente da Asbea (Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura), o barulho e a fuligem justificam a vedação das janelas e, de outro lado, levam a descartar o uso da ventilação cruzada.

Por fim, os edifícios espelhados ainda carregam um apelo estético frequentemente associado a uma ideia de modernidade e poderio econômico.

O vidro na arquitetura

A ênfase no uso do vidro surgiu com a arquitetura moderna, principalmente a partir do século 20. Nas décadas de 1950 e 1960, espigões de vidro se espalharam por cidades como Nova York e Chicago e se tornaram símbolo da arquitetura corporativa.

Entre o vidro do modernismo e o vidro espelhado de hoje, os prédios envidraçados de São Paulo atravessaram uma fase de vidros fumês e verdes. “A partir dos anos 1970, os empreendedores [em SP] passaram a não se importar com proteção nas fachadas e havia problemas de insolação e uso de ar-condicionado a todo vapor”, disse o arquiteto Fernando Serapião à Folha de S.Paulo.

 

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