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O obscuro músico que influenciou Alceu Valença e Fagner

Objeto de desejo de colecionadores, álbum de 1981 do paraibano Fernando Falcão está sendo relançado. O artista se junta a outros brasileiros esquecidos no país e apreciados pelo público estrangeiro

     

    Em 1981, o paraibano Fernando Falcão lançou o álbum “Memória das Águas”. Experimental e inovador, tanto na composição como na manipulação de sons, o álbum se tornou objeto de culto por parte de colecionadores do lado mais obscuro da música brasileira.

    Agora o disco está sendo relançado em vinil e em plataformas digitais pelo selo brasileiro Selva Discos. Além desse disco, chega também “Barracas Barrocas”, que saiu em 1987 pelo selo Carmo, de Egberto Gismonti.

    Percussionista, Falcão conjugou samba, baião, jazz, afrobeat e música concreta de forma coesa. Com a ajuda do sogro, o artista francês François-Xavier Lalanne, criou o balauê, uma espécie de berimbau horizontal, que aparece em faixas de seu trabalho.

    Falcão foi mais que um músico de apoio para os artistas nordestinos. Seu gosto pelos regionalismos musicais e seu trabalho lírico acabou por inspirar os colegas

    Envolvido com o movimento estudantil na era do AI-5, Falcão foi morar em Paris em 1969. Ficou 15 anos na capital francesa, sempre em contato com músicos e artistas brasileiros. Tocou no álbum “Saudade de Pernambuco”, gravado por Alceu Valença em Paris em 79. E participou da banda que Fagner montou para três shows na cidade.

    Falcão foi mais que um músico de apoio para os artistas nordestinos. Seu gosto pelos regionalismos musicais e seu trabalho lírico (além de músico, era poeta) acabou por inspirar os colegas. Alceu Valença, cujo som na década de 1970 era mais calcado no rock, partiu para uma nova direção na década seguinte, conseguindo vários sucessos de alcance nacional. Já Fagner teria sido influenciado pelo lado mais lírico de Falcão.

    Falcão não lançou mais discos até sua morte, em 2002. No ano seguinte, o póstumo “Engenho dos Meninos” chegou ao mercado.

    Brasileiros redescobertos

    O álbum se junta a lançamentos recentes de sons brasileiros esquecidos, principalmente por parte de selos europeus que atendem a um forte interesse por música fora do radar.

    A gravadora holandesa Music From Memory colocou na praça recentemente a segunda parte da coletânea “Outro Tempo”. O lançamento reúne artistas brasileiros da década de 80 que ficaram no underground, como May East, Akira S, Fausto Fawcett e Voluntários da Pátria.

    Foto: Reprodução
    memoria das aguas
    Capa do álbum 'Memória das Águas', de Fernando Falcão, de 1981
     

    Já o selo alemão Analog Africa soltou em abril de 2019 uma compilação só com artistas paraenses, “Jambú E Os Míticos Sons Da Amazônia 1974-1986”. São faixas de estilos como carimbó e siriá, por artistas como Pinduca, Vieira e seu Conjunto e Mestre Cupijó.

    Em 2018, a etiqueta inglesa Soundway colocou no mercado “Onda de Amor”, coleção preparada pelo DJ brasileiro Millos Kaiser com músicas brasileiras em que o sintetizador se destaca, gravadas entre 1984 e 1994.

    O selo Selva Discos é encabeçado pelo DJ e produtor brasileiro Augusto Olivani, organizador e DJ da festa Selvagem. A manufatura e distribuição dos discos tem foco na Europa e é realizada por uma empresa alemã, a Kompakt.

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