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A relação entre trabalho e violência doméstica, segundo este estudo

Pesquisa do Ipea analisa a influência que trabalhar fora pode ter em índices de agressão contra a mulher

 

Um novo estudo realizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), divulgado em agosto de 2019, examina os efeitos da participação feminina no mercado de trabalho sobre a violência doméstica e familiar contra as mulheres, cometida por cônjuges e ex-cônjuges.

A relação empírica entre os dados foi feita a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio de 2009, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que aponta que cerca de 1,3 milhão de mulheres são agredidas no Brasil por ano.

A pesquisa do Ipea mostra que o índice de violência contra as mulheres que integram a população economicamente ativa (52,2%) é quase duas vezes maior do que a taxa de violência doméstica entre aquelas que não estão no mercado de trabalho, de 24,9%.

O estudo também concluiu que mulheres que trabalham fora e coabitam com o parceiro têm menor probabilidade de sofrer violência do que as que estão empregadas e separadas do agressor.

O material foi assinado pelos economistas Daniel Cerqueira, do Ipea, e Rodrigo Moura, da FGV (Fundação Getulio Vargas), e pela socióloga especializada em gênero Wânia Pasinato.

Ao Nexo, Pasinato disse que os resultados complexificam a ideia de que empoderar economicamente as mulheres é suficiente para que elas saiam de uma situação de violência. A dependência econômica é vista como um fator central para que mulheres permaneçam em uma relação conjugal violenta.

O estudo revela que “em alguns casos, o empoderamento econômico pode contribuir para o efeito contrário, fazendo com que elas sofram mais violência”, disse Pasinato. Ela faz a ressalva de que a violência sofrida deve ser atribuída não ao fato de a mulher trabalhar fora, mas à cadeia de poder e dominação com a qual ela está rompendo ao fazê-lo.

As teorias por trás dos resultados

Uma abordagem econômica das descobertas da pesquisa permite deduzir que o aumento da participação feminina na renda familiar amplia o poder de negociação da mulher no casamento e, consequentemente, reduz o nível de violência doméstica. As teorias atentam para a decisão dos indivíduos quanto a um “tradeoff” (escolha de uma coisa em detrimento de outra) entre consumo e violência.

Quando a mulher passa a contribuir para que o casal tenha maior renda, o homem “aceita” perpetrar um nível menor de violência para garantir que não haja dissolução do casamento e consequente redução do poder de consumo.

Do ponto de vista econômico, isso explica o achado do estudo do Ipea de que mulheres que trabalham fora e moram com o cônjuge sofrem menos violência.

Pasinato ressalta, no entanto, que essa ampliação do poder de barganha não necessariamente significa que a mulher tenha adquirido mais respeito ou autonomia. Muitas vezes, esse processo ocorre com uma reposição dos papéis tradicionais de gênero na relação, em que o homem pode inclusive administrar o salário da parceira.

Do ponto de vista das teorias feministas, que dão ênfase à construção histórica dos papéis sociais baseados nas noções de gênero e patriarcado, a participação feminina no mercado de trabalho gera fricções na relação conjugal.

Isso pode levar à violência psicológica e física, uma vez que o comportamento da mulher que trabalha fora entra em conflito com as expectativas de gênero do parceiro.

Ao adquirir independência financeira, há também uma parcela que se separa do cônjuge e se torna vítima de violência porque o ex-parceiro não aceitou a o término da relação.

Pasinato explica que essa mulher fica mais exposta à violência por afrontar o poder masculino e patriarcal. “A mulher que sai para trabalhar fora, conquista autonomia financeira e ainda se separa afronta demais o modelo tradicional de relação entre homens e mulheres em um casamento. Ela quebra toda a cadeia de autoridade que esse homem teria sobre ela dentro da lógica do patriarcado e dos papéis tradicionais de gênero”, afirmou.

Estratégias de enfrentamento

O estudo enfatiza a necessidade de o combate à violência doméstica ser feito por meio de políticas públicas de diferentes áreas, tratando a questão sob várias perspectivas.

“Não é só investir em qualificar mulheres para que elas estejam no mercado de trabalho ou para estimulá-las a empreender individualmente. Não é isso que vai ajudar a acabar com a violência”, disse Pasinato.

Segundo a pesquisadora, esse tipo de ação é importante, mas deve ser combinada a políticas de apoio psicossocial e da área da saúde, para que as mulheres tenham condições, inclusive de saúde mental, para trabalhar.

A socióloga também cita o investimento em educação para garantir relações mais igualitárias entre homens e mulheres nas gerações futuras, o que contribui para erradicar a violência contra as mulheres.

Por fim, ela diz que a atenção às mulheres em situação de violência não deve ficar restrita à Justiça e às políticas da área de segurança pública, já que a criminalização da violência  também é uma resposta insuficiente para eliminar a violência baseada no gênero. 

 

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