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Por que estrangeiros estão tirando dinheiro da bolsa no Brasil

Mesmo com a bolsa em alta, retirada de capital estrangeiro é a maior desde 2008. O ‘Nexo’ conversou com especialistas para entender o que está por trás do movimento

     

    Investidores estrangeiros estão retirando capital da bolsa de valores no Brasil. Segundo dados da B3, até o dia 15 de agosto, R$ 19,2 bilhões já haviam saído da bolsa em 2019.

    O valor representa a maior retirada desde 2008, ano da eclosão de uma profunda crise financeira mundial, quando a fuga foi de R$ 24,6 bilhões no total do ano.

    Segundo dados publicados pela revista Exame, a saída foi de R$ 4,7 bilhões somente na primeira semana de agosto de 2019. Com base nesses números, o Nexo calculou que, entre os dias 1º e 15 de agosto, a fuga foi de cerca de R$ 8,7 bilhões. O fluxo negativo já dura cinco meses, tendo iniciado em abril de 2019.

    Os números em questão computam apenas as atividades no mercado secundário, ou seja, não consideram a participação estrangeira em IPOs e follow-ons. IPOs são os processos em que empresas vendem ações ao público pela primeira vez, enquanto follow-ons são novas vendas de ações por uma empresa já com capital aberto.

    Ou seja, o saldo divulgado pela B3 é calculado com as ações que já estavam no mercado, que são aquelas que podiam ser negociadas por estrangeiros em compra ou venda.

    Segundo especialistas, o movimento sugere que o resto do ano será de volatilidade na bolsa e que investidores internacionais estão em busca de ativos mais seguros diante das incertezas na economia global.

    SALDO DE MOVIMENTAÇÕES ESTRANGEIRAS

     

     

    Já o saldo de investimento estrangeiro em ofertas públicas (IPOs e follow-ons) no ano é positivo, com R$ 23,6 bilhões até 15 de agosto. O número é puxado pela safra de follow-ons observada nos meses de junho e julho.

     

    SALDO ESTRANGEIRO EM OFERTAS PÚBLICAS

     

     

    O movimento também não quer dizer necessariamente que a bolsa esteja em baixa. O Ibovespa, o principal índice da bolsa brasileira, vem em trajetória de expansão, tendo atingido a marca dos 100 mil pontos pela primeira vez na história em março de 2019.

     

    EVOLUÇÃO DA BOLSA

     

     

    Enquanto os capitais estrangeiros estão em retirada no ano, os saldos de fundos locais e de pessoas físicas estão positivos.

     

    O Nexo conversou com dois especialistas sobre os motivos por trás desse movimento de retirada de capitais e os possíveis impactos na economia brasileira.

     

    • Marco Antonio Tulli Siqueira, chefe da mesa de operações da corretora Coinvalores
    • Carlos Lopes, economista do Banco Votorantim

     

    A que se deve a fuga de capitais estrangeiros da bolsa em 2019?

     

    Marco Antonio Tulli Siqueira Estamos falando de quase R$ 20 bilhões. Só que não está computada nesse fluxo a entrada de capital dos estrangeiros nos IPOs e nos follow-ons, onde temos um acumulado positivo no ano de R$ 23 bilhões. É fato que tem essa saída, mas eu não considero justo não computar a entrada desse capital de IPOs e follow-ons. Para mim, no saldo dessa operação, eles entraram com R$ 4,4 bilhões – aproximadamente US$ 1 bilhão. Na verdade, o saldo seria positivo, e não os R$ 19 bilhões que vêm do tratamento só com uma vertente do negócio.

     

    Carlos Lopes O que está acontecendo é reflexo não só interno, mas principalmente global. Essa saída de capitais está acontecendo também em outros mercados emergentes. Isso acontece por uma combinação de coisas. Acho que a principal são as tensões comerciais da China com os EUA, onde a tensão geopolítica mais aparece.

     

    Há a tensão geopolítica e o impacto disso sobre o crescimento global; vemos as principais economias perdendo força rapidamente e com medo crescente de recessão no mundo. E também há problemas em alguns países emergentes.Tudo isso contribui para um ambiente de incerteza bastante grande. Nesse ambiente de incerteza, acontece essa fuga de capitais dos ativos mais arriscados para os ativos mais seguros. Nesse caso, os ativos dos países emergentes são mais arriscados. Você tem, portanto, essa saída de capital dos mercados emergentes, indo para ativos mais seguros, como o dólar e os títulos americanos.

     

    A outra componente que nos afetou durante boa parte do ano é a componente local. A dúvida se a reforma da Previdência seria aprovada ou não fez com que, ao longo do começo de 2019, houvesse instabilidade no fluxo de capitais. Mas, na medida em que a reforma da Previdência já foi praticamente aprovada na Câmara e sua aprovação no Senado já é tomada como dada, ela já não exerce mais a mesma pressão sobre o fluxo de capitais. Se você for olhar para o que está acontecendo nas últimas semanas, que é uma intensificação dessas saídas de capital, não acho que essa piora seja alavancada por fatores domésticos, dado que a nossa principal fonte de incerteza, que era a Previdência, ficou para trás. Acho que o que está acontecendo nas últimas semanas se deve muito mais a fatores globais do que domésticos.

     

    Que impacto a saída de capitais pode ter para a economia brasileira?

    Marco Antonio Tulli Siqueira Sobre a saída, eu concordo que é vultoso, é preocupante. Falando pontualmente da saída de estrangeiros da bolsa, o impacto não é visto com bons olhos. A gente sabe que tem fluxos de contrabalança, com gente entrando no mercado primário, infraestrutura, investimentos diretos, que são diferentes da bolsa. Mas não tem como negar que o movimento é ruim para o mercado e não mostra horizonte – mostra preocupação, na verdade. No frigir dos ovos, ficamos bastante decepcionados com essa saída.

     

    Por outro lado, se alguém saiu, é porque alguém comprou. E esse alguém que comprou, não temos dúvida que é o local.

     

    Talvez os estrangeiros estejam perdendo o interesse pelos emergentes. Pode ser que estejam se retirando em batida, poderiam estar desistindo das empresas brasileiras, não acreditando em bons retornos. Ou até acreditando em uma insegurança, seja ela econômica, política ou, a pior de todas, a jurídica.

     

    Carlos Lopes A princípio ela tem um impacto principalmente via o que chamamos de “condições financeiras”: queda da bolsa, alta do dólar e aumento da insegurança, que faz com que o crédito fique mais restritivo. Isso acaba impactando na confiança da economia, fazendo com que as empresas decidam postergar planos de investimento, ou os consumidores decidam postergar as decisões de compra. Então, a saída de capitais atua principalmente por esses dois canais: o das condições financeiras e depois como um reflexo da confiança tanto dos empresários como dos consumidores.

     

    Quais as perspectivas para o restante de 2019? O que poderia mudar o cenário atual?

     

    Marco Antonio Tulli Siqueira Acho que para 2019, o capital estrangeiro tende a estancar sua saída. Ele vai olhar, acompanhar e, no final do ano, vai fazer uma nova análise para tomar novas posições com o Brasil: ou continuar a sair, ou ter uma retomada, conforme o andar da economia – no macro, no micro, no político e no Judiciário. Acho que vai haver um acompanhamento muito de perto nesse segundo semestre.

     

    O que poderia melhorar é uma solução muito mais acelerada da parte do governo em terminar a reforma previdenciária, que ele já começou, e seguir imediatamente com uma reforma tributária – um ajuste de caixa efetivo na nossa economia, sem perder controle da inflação, mantendo a paridade da nossa moeda. Esse tipo de ajuste na nossa economia, com o Judiciário dando um reforço para nossas leis, garantindo os contratos, pode mostrar que o país melhora. Essa é a parte boa.

     

    A parte ruim é esse mal-entendido entre o presidente e o Congresso. Acho que o Congresso e o governo têm que se entender, se inteirar, e ter uma política mais calma, mais amena. Com mais tranquilidade do presidente para não piorar a situação, não perder credibilidade e nem investimento.

     

    Carlos Lopes Acho que o principal fator por trás desse movimento é o ambiente internacional. Portanto, o que vai acontecer vai ser extremamente dependente do cenário internacional. Por um lado, a guerra comercial vai ser um fator constante no restante do ano, vai continuar gerando bastante volatilidade. Mas não necessariamente a gente vai para um cenário de deterioração, em que você ou escala demais a guerra comercial ou o mundo entra em recessão. A gente ainda não trabalha com esse cenário.

     

    A gente trabalha com um cenário mais moderado, em que persiste uma certa volatilidade (porque a guerra comercial não vai acabar), mas, em compensação, as principais economias vão atuar para tentar estabilizar as suas respectivas economias. A China começa com estímulo fiscal, a Europa parece que já está entrando com estímulos fiscais (aumentando os gastos públicos) e os EUA têm o Banco Central cortando juros. Está cada um atuando na sua economia para tentar conter essa desaceleração, e acreditamos que ela terá um relativo sucesso.

     

    O reflexo disso para a bolsa é que a gente deve continuar tendo um ano de volatilidade. Como a gente já deixou a reforma da Previdência para trás e está avançando na agenda econômica, a perspectiva é que a gente tenha uma tendência de alta nos ativos locais, em especial na bolsa. Mas, vale ressaltar, com bastante volatilidade por conta dessa turbulência externa.

     

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