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O que mudou no tamanho dos títulos de livros

Cientista de dados analisou obras em inglês lançadas entre 2011 e 2019 e achou sinais de que os nomes estão se tornando mais específicos

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Os títulos de livros em inglês estão ficando mais longos, segundo uma análise do cientista de dados canadense Michael Tauberg com livros populares lançados nos EUA nos últimos anos.

Em um artigo na publicação sobre ciência de dados Towards Data Science, Tauberg mostrou a tendência de títulos maiores em livros de ficção. Para isso, ele usou dados da lista de mais vendidos do New York Times desde 2011, combinando as vendas de livros impressos e e-books.

Tauberg notou que o número de palavras presentes nos nomes dos livros de ficção vem aumentando desde 2016. Naquele ano, a média de palavras em um título era de 2,5, número que subiu para 3,5 em 2018. Até junho de 2019, a média do ano era de 3. A média de caracteres nos títulos também aumentou, subindo de 12 para 14, sem contar os espaços, entre 2016 e 2019.

O cientista de dados também percebeu que, no geral, os títulos mais longos de livros de ficção que chegam à lista dos mais vendidos fazem parte de franquias já estabelecidas. É o caso de “A rainha do castelo de ar” (saga “Millennium”, escrito por Stieg Larsson), “Um marido de faz de conta” (saga “Miss Bridgerton”, escrito por Julia Quinn) e “The next person you meet in heaven” (saga “Pessoas que encontramos no céu”, escrito por Mitch Albom).

Segundo a revista americana Publishing Weekly, franquias de livros já eram comuns no setor de literatura infantojuvenil, com casos como “Harry Potter” e “Percy Jackson”. A publicação aponta que, desde 2010, o mercado americano passou a publicar mais séries dentro da literatura adulta, com a saga “Millennium” sendo o ponto de partida para a tendência.

Tauberg levanta a hipótese de que os títulos mais longos presentes nesses livros são uma forma de referenciar os romances anteriores. Por isso, eles se tornariam menos concisos. Segundo o cientista de dados, os livros com títulos longos que não faziam parte de franquias eram, no geral, de autores famosos como o britânico Neil Gaiman, que lançou “O oceano no fim do caminho” em 2013. A maior facilidade para atingir o público permitiria ao autor ser mais criativo na hora de nomear a obra.

A especificidade na não ficção

Tauberg também analisou as vendas de livros de não ficção. Em 2011, os títulos desses livros tinham em média 3,3 palavras. Em 2014, o número subiu para 4,3, caindo para 3,4 em janeiro de 2016. Entre 2016 e 2019, a média se manteve, sem grandes variações. Ele não incluiu os subtítulos na conta.

Comuns no gênero, os subtítulos dos livros de não ficção, por sua vez, estão cada vez mais específicos. Na semana de 20 de agosto de 2019, o quinto livro de não ficção mais vendido na lista do New York Times é “The pioneers: the heroic story of the settlers who brought the american ideal west”, de David McCullough, um subtítulo com 13 palavras (“Os pioneiros: A história heróica dos colonizadores que levaram o ideal americano para o oeste”, em tradução livre).

O Washington Post entrevistou Todd Stocke, vice-presidente da editora Sourcebooks, sobre o fenômeno. Segundo o executivo, os títulos dos livros estão cada vez maiores por conta do SEO.

O SEO, sigla de Search Engine Optimization, ou otimização de sistemas de busca, é um conjunto de técnicas e estratégias que visa a melhor posicionar um site ou produto nos sistemas de busca digitais. Aqueles títulos que têm mais relevância e são mais específicos terão mais chances de serem recomendados nas primeiras posições em serviços como o Google e a caixa de buscas da Amazon.

Segundo Stocke, os editores estão “embalando todas as palavras-chaves e termos de busca no subtítulo, porque, em teoria, isso vai fazer o livro aparecer nos sistemas de busca mais facilmente”.

O Washington Post também entrevistou W. Kamau Bell, autor de “The awkward thoughts of W. Kamau Bell: A tale of a 6’4, African American, Heterosexual, Cisgender, Left-Leaning, Asthmatic, Black and Proud Blerd, Mama’s Boy, Dad, and Stand-Up Comedian”.

Em tradução livre, o título significa: “Os estranhos pensamentos de W. Kamau Bell: a história de um afro-americano heterossexual, cisgênero, esquerdista, asmático, negro, nerd orgulhoso, filhinho da mamãe, pai e comediante stand-up de 1,93m”.

Segundo ele, o subtítulo de 23 palavras foi uma estratégia para que os leitores soubessem exatamente do que o livro se tratava. “Mais do que isso, eu queria que as pessoas soubessem que talvez não fosse o livro ideal para elas. Fiz isso muito bem, já que não foi um best-seller”, disse.

A editora americana TCK Publishing lançou um guia para que seus autores criem títulos alinhados com as técnicas de SEO. Dentre as dicas estão a criação de subtítulos que especifiquem detalhes do assunto do livro e a análise de tendências de buscas, usando ferramentas como o Google Keyword Planner.

Os títulos longos na história

Os títulos e subtítulos longos já foram comuns em outros momentos da história.

Lançando em 1719 no Reino Unido, “Robinson Crusoé”, clássico escrito por Daniel Defoe, originalmente foi publicado com o título “The life and strange surprising adventures of Robinson Crusoe of York, mariner: Who lived eight and twenty years, all alone in an uninhabited Island on the coast of America, near the mouth of the great river of Oroonoque; having been cast on shore by shipwreck, wherein all the men perished but himself. With an account how he was at last as strangely deliver'd by Pyrates”.

Em tradução livre, o título é “A vida e as estranhas e surpreendentes aventuras de Robinson Crusoé, de York, marinheiro: viveu vinte e oito anos, sozinho em uma ilha deserta na costa da América, perto da boca do grande rio de Oroonoque, tendo sido jogado lá por um naufrágio, onde todos os homens morreram, menos ele. Com um relato de como ele finalmente foi resgatado por piratas”.

No Brasil de 1977, foi publicado um livro com 13 títulos diferentes: “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, também pode ser chamado de “A culpa é minha”, “Ela que se ajeite”, “O direito ao grito”, “Quanto ao futuro”, “Lamento de um blue”, “Ela não sabe gritar”, “Uma sensação de perda”, “Assovio no vento escuro”, “Eu não posso fazer nada”, “Registro dos fatos antecedentes”, “História lacrimogênica de cordel” ou “Saída discreta pela porta dos fundos”. O conjunto de nomes consta na folha de rosto das edições publicadas.

Em entrevista à TV Cultura no ano de 1977, Lispector afirmou que os 13 títulos da obra são uma forma de ajudar o leitor a desvendar a história que será narrada.

Outro título longo na literatura brasileira é de autoria de Ariano Suassuna, que publicou, em 1971, o “Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta”, seu segundo romance.

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