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Como Macron e Putin costuram a diplomacia sem os EUA

Enquanto americanos e russos se distanciam e rompem acordos da Guerra Fria, a França aposta num caminho alternativo

     

    O presidente francês, Emmanuel Macron, recebeu nesta segunda-feira (19) o presidente russo, Vladimir Putin, na cidade de Brégançon, na costa mediterrânea da França.

    O encontro entre ambos ocorreu cinco dias antes do início da cúpula do G7, que começa no sábado (24) na cidade francesa de Biarritz, 800 km a oeste dali, e para o qual Putin não está convidado.

    Essa aproximação paralela entre a França e a Rússia também coincide com o momento em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenta isolar Vladimir Putin, caracterizando-o como uma ameaça global.

    Menos de um mês antes do encontro de segunda-feira entre Macron e Putin, russos e americanos romperam o principal acordo sobre mísseis de médio alcance, estabelecido em 1987, no auge da Guerra Fria (1945-1991).

    Enquanto o líder francês e o líder russo caminhavam juntos em Brégançon, mostrando união, o governo americano anunciava publicamente que havia retomado com sucesso os testes com mísseis de médio alcance, no litoral do estado da Califórnia.

    A disparidade de meios e métodos para lidar com o governo russo ficou ainda mais evidente na declaração final do encontro de Brégançon, quando, em vez de marcar as diferenças com Putin, Macron preferiu se referir à “grande potência que é a Rússia”, um país “plenamente europeu”.

    “Estou convencido de que o porvir da Rússia é plenamente europeu. Nós acreditamos nessa Europa que vai de Lisboa a Vladivostok”

    Emmanuel Macron

    Presidente da França, em declaração após encontro com o presidente russo Vladimir Putin, em 19 de agosto, em Brégançon

    A questão incontornável da Ucrânia

    O G7 é formado por França, EUA, Reino Unido, Japão, Alemanha, Itália, Canadá e União Europeia, enquanto bloco. A Rússia participaria do encontro, caso não tivesse sido excluída em 2014.

    A exclusão ocorreu depois que a Rússia anexou à força a região da Crimeia. Na ocasião, Putin moveu tropas na direção dessa península ucraniana e apoiou forças separatistas da região, assim como impulsionou a realização de um referendo popular no qual a maioria dos eleitores decidiu separar a região da Ucrânia e integrar-se à Rússia.

    Tanto o movimento de tropas quanto o referendo foram considerados ilegais pelas Nações Unidas. Mas a Rússia não apenas não recuou como, em seguida, passou a apoiar forças separatistas na região conhecida como Donbass, no leste da Ucrânia.

    Esses episódios pairam como pontos incontornáveis nas relações dos russos com o restante das potências. O que Macron propôs agora é a formação de um pequeno grupo de países para discutir o tema. Na proposta dele, líderes da França, Rússia, Alemanha e Ucrânia devem se reunir “nas próximas semanas” para buscar uma “verdadeira mudança” no impasse, que já se estende há cinco anos.    

    Macron fala ainda na construção de uma “nova arquitetura securitária para a Europa”, num momento histórico, que ele considera ser de “recomposição da ordem internacional”.

    Agendas conflitantes

    Nem toda ambição e boa vontade do líder francês são capazes de vencer, só com declarações e planos futuros, os pontos conflitantes das agendas russa e francesa.

    Na declaração que ambos deram à imprensa ao final do encontro de segunda-feira (19), ficaram evidentes alguns desses pontos de discordância. No plano internacional, a Síria é o principal deles.

    A Rússia apoia a permanência no poder do líder sírio, Bashar al-Assad, enquanto a França faz parte da coalizão que prefere vê-lo deposto. Putin fincou pé na decisão de seguir combatendo os “terroristas” na Síria, enquanto Macron repetiu o discurso de “proteger a população civil”.

    O presidente francês também criticou a repressão do governo russo a manifestantes que vêm saindo às ruas pedindo democracia e eleições livres. Nesse ponto, Putin devolveu com um provocação, ao dizer que ele age dentro da lei, apenas para impedir que a Rússia viva problema semelhante ao que a França vive com os “coletes amarelos”.

    Os coletes amarelos são um grupo heterogêneo de manifestantes que saem às ruas da França para protestar contra Macron desde novembro de 2018. No início, os manifestantes se opunham ao aumento no preço da gasolina. Aos poucos, a pauta passou a incorporar até a queda do presidente.

    A persistência desses atritos na pauta de russos e franceses mostra, entretanto, que há disposição para tratar abertamente e em público mesmo as divergências. Além disso, os dois presidentes já marcaram um novo encontro, para o dia 9 de maio de 2020, na Rússia.

    A ideia é comemorar a vitória sobre o nazismo na Segunda Guerra Mundial, o que coincide com a estratégia de Macron de realçar os laços entre russos e franceses que antecedem a Guerra Fria.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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