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Como Doria põe em prática a criação de seu novo PSDB

Partido tem incorporado quadros do bolsonarismo, ao mesmo tempo em que o governador de São Paulo trabalha para se diferenciar do presidente e se viabilizar como candidato ao Planalto em 2022

     

     

    Sob o comando da corrente do governador paulista, João Doria, o PSDB tem trabalhado para atrair quadros do bolsonarismo. A guinada política está associada às pretensões presidenciais de Doria e causa insatisfação nas alas tucanas mais antigas.

     

    Na sexta-feira (16), o governador recebeu o deputado Alexandre Frota no partido. O ex-ator foi eleito pelo estado de São Paulo em 2018 com um discurso antiesquerdista na onda de extrema direita. Onda essa da qual Doria também fez parte, associando explicitamente seu nome ao de Bolsonaro na campanha eleitoral.

     

    No ato de filiação de Frota, Doria fez questão de frisar que a chegada do parlamentar aos quadros tucanos não significa que a sigla fará oposição a Bolsonaro, apesar de não estar alinhada automaticamente ao governo federal.

     

    Frota acabou expulso do PSL após críticas públicas ao presidente da República, do mesmo partido. No ato de filiação ao diretório tucano, foi questionado sobre declarações públicas sobre o PSDB, a quem já chamou de “sujo”. Respondeu ter mudado de opinião.

     

    A resistência dentro do PSDB

    Na segunda-feira (19), o ex-presidente do diretório estadual do PSDB Pedro Tobias e o ex-presidente nacional do partido José Aníbal protocolaram a impugnação da filiação do deputado. Tobias e Aníbal argumentam que Frota possui um vasto histórico de hostilidades à sigla.

     

    A filiação do deputado também foi criticada pelo sociólogo Fernando Guimarães, coordenador no partido da Frente Esquerda pra Valer, que classificou o comportamento de Frota como reacionário e oposto às doutrinas históricas do PSDB.

    Até o início da tarde de terça-feira (20), fundadores do partido como Fernando Henrique Cardoso, que foi presidente da República entre 1995 e 2002, e o senador José Serra (SP) não haviam se pronunciado sobre a chegada de Frota.

    Outros movimentos de Doria

    Além do parlamentar, o PSDB de Doria também faz acenos para figuras que foram protagonistas da campanha de Bolsonaro, entre eles o ex-ministro Gustavo Bebianno e a deputada e líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP).

    O governador paulista também filiou e ajudou a colocar na presidência do diretório do partido no Rio de Janeiro o empresário Paulo Marinho, suplente do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), primogênito do presidente da República e aliado na campanha de 2018.

     

    Os novos rumos e identidade

    Doria apoiou a chegada à liderança nacional do partido do ex-deputado federal Bruno Araújo (PE), marcando uma guinada da sigla para o que define como “centro”, mas que na prática joga o partido ainda mais para a direita.

     

    O discurso do “novo PSDB” une defesa de uma economia liberal, de uma política de confronto na segurança pública, de conservadorismo nos costumes e de uma constante recorrência ao antiesquerdismo e antipetismo.

    Em entrevista ao portal UOL, no dia 13 de agosto, Araújo afirmou que o governo Bolsonaro terá nas questões econômicas “um importante aliado” e nas situações que geram preocupação de civilidade “um enfrentamento de oposição como poucos”.

     

    A civilidade citada pelo presidente nacional tucano se refere a declarações do presidente da República como chamar governadores nordestinos de “paraíbas” e fedender a ditadura militar e torturadores do período. São nesses aspectos, além de algumas discordâncias administrativas pontuais, que o PSDB de Doria tenta, por ora, se diferenciar do bolsonarismo.

    Diretório paulista do PSDB altera marca do partido, incluindo uma hashtag laranja e a palavra novo
     

     

    O novo PSDB também teve sua identidade visual renovada. No diretório de São Paulo, presidido por Marco Vinholi, aliado de Doria, a marca do partido ganhou a palavra “novo” e uma hashtag laranja. A cor da hashtag é a mesma do partido Novo, do empresário João Amoêdo, sigla que também se aproxima do bolsonarismo.

     

    A assessoria do partido disse que não está previsto o uso da nova marca nacionalmente, mas ela pode ter a adesão nos estados. Sob a liderança de Marinho, o Rio de Janeiro também passou a usar a marca, além de diretórios de municípios paulistas do PSDB.

     

    Como o governador tenta se diferenciar

    Doria e Bolsonaro compartilharam o mesmo eleitor em São Paulo na eleição de 2018, assim como o mesmo discurso antipetista e, em materiais de campanha, o mesmo nome: a partir do chamado voto “Bolsodoria”, propagado pelo tucano.

    Em 2022, caso Doria concretize seu projeto de disputar a Presidência da República e Bolsonaro tente a reeleição, eles se tornarão adversários abertos, correndo num campo de um eleitorado mais conservador e alinhado à direita.

    A partir do início de 2019, Doria apoiou a reforma da Previdência do governo Bolsonaro. O governador, porém, vem tentando se diferenciar do presidente em alguns pontos.

    No dia 29 de julho, classificou como infeliz a fala de Bolsonaro sobre o pai do presidente da OAB, Felipe Santos Cruz, em que o presidente disse saber o que havia acontecido com Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira, desaparecido desde 1974, e que ele havia sido morto por guerrilheiros de esquerda. De acordo com o atestado de óbito, a morte de Fernando foi causada pelo Estado. Doria é filho de um deputado exilado pela ditadura militar.

    Além do desagravo, Doria se contrapôs a Bolsonaro ao receber o ministro de Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, em São Paulo, no dia 30 de julho, e manifestar apoio ao Acordo de Paris. Um dia antes, o chanceler teve uma audiência com o presidente cancelada por problemas na agenda. Pouco tempo depois do horário previsto para o encontro, Bolsonaro apareceu em uma transmissão nas redes sociais cortando o cabelo.

    No caso da disputa pela sede do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, Doria e o presidente entraram em um embate direto. No dia 24 de junho, Bolsonaro afirmou que era praticamente certo que a competição vá para o Rio a partir de 2021, no que Doria reagiu com ironia, comparando a gestão do Museu Nacional, que foi atingido por um incêndio em setembro de 2018, à do Museu Ipiranga, que tem R$200 milhões na conta, segundo ele. No dia seguinte, após uma reunião com o diretor-executivo da F1, Doria desmentiu o presidente e disse que ainda não há definição sobre o futuro da maior prova do automobilismo no país.

     

    A questão do discurso antipetista

    PSDB e PT protagonizaram as disputas presidenciais por 20 anos, de 1994 a 2014. Na mais recente corrida ao Planalto, em 2018, Bolsonaro, com um discurso mais radical à direita, tomou o espaço dos tucanos, como ator antipetista.

    As denúncias de corrupção atingiam tanto o PSDB quanto o PT e minavam a política tradicional. É nesse contexto que Doria surge. Primeiro vencendo o então prefeito Fernando Haddad (PT) ainda no primeiro turno as eleições municipais em São Paulo, em 2016.

    Doria então passou a trabalhar para se tornar conhecido nacionalmente a fim de disputar, já em 2018, o Palácio do Planalto. Mas seus planos foram frustrados por Geraldo Alckmin, que presidia o PSDB e desejava disputar o cargo.

    Com isso, Doria deixou a prefeitura para disputar o governo do estado e passou a usar a mesma retórica da campanha anterior, com discurso em que tentava se descolar da política tradicional. Se descolou, inclusive, do candidato presidencial de seu próprio partido.

    Após o primeiro turno, em uma reunião com dirigentes do partido em Brasília, Alckmin, que ficou apenas em quarto lugar na corrida ao Planalto, insinuou que Doria era um traidor.

    Quadros tradicionais do partido que se manifestaram contra a eleição de Doria. O ex-presidente do PSDB Alberto Goldman e o então secretário do partido, Saulo de Castro, além de outros 15 filiados foram expulsos da sigla por infidelidade partidária.

    No segundo turno, Doria declarou publicamente seu apoio a Bolsonaro, na disputa direta contra Fernando Haddad, do PT, pela Presidência. Passou a falar publicamente no voto “Bolsodoria”, algo que era ainda velado no primeiro turno.

    Em São Paulo, o tucano foi eleito com 51,75% dos votos válidos contra 48,25% de Márcio França (PSB), na disputa mais acirrada para um governo estadual no país em 2018. Em seu primeiro discurso após a vitória, defendeu a mudança na correlação de forças no PSDB, prometendo que o partido teria lado.

    No dia 25 de maio de 2019, dias antes da definição do novo diretório nacional da sigla, o governador fez um discurso para filiados em São Paulo no qual defendeu a saída daqueles que não concordavam com os novos rumos do partido e de tucanos acusados de irregularidades, entre os quais o deputado Aécio Neves (MG). Aécio permanece no PSDB. Sua expulsão ainda está em debate

     

     

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