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O que diz o relatório secreto sobre o pior cenário pós-Brexit

Documento vazado faz um retrato dos efeitos imediatos enfrentados pelo Reino Unido caso não haja acordo com a União Europeia

     

    Um relatório secreto vazado no domingo (18) revela que o Reino Unido pode sofrer com falta de remédios, alimentos e bens de consumo caso o país se desligue abruptamente e sem acordo nenhum da União Europeia no dia 31 de outubro.

    O documento secreto, produzido pelo próprio governo britânico, chama-se Operação Yellowhammer. O nome, escolhido aleatoriamente pelos autores, refere-se a um pequeno pássaro nativo da Eurásia, semelhante ao canário ou ao pardal, conhecido em português como escrevedeira amarela.

    A Operação Yellowhammer traça o que os estrategistas costumam chamar de “pior cenário possível” para um determinado acontecimento. Neste caso, o acontecimento em questão é o Brexit - sigla formada pela junção das palavras inglesas “British” (britânica) e “exit” (saída).

    Esse desligamento do bloco formado por 28 países europeus, do qual o Reino Unido faz parte há 46 anos, pode ocorrer de forma negociada e gradual ou de forma abrupta e sem acordos. O cenário que o documento apresenta diz respeito a uma saída sem acordo nenhum, uma espécie de separação litigiosa entre os dois lados.

    Várias tentativas de saída negociada já fracassaram no Parlamento Britânico. Dois primeiros-ministros deixaram o cargo nos últimos três anos dizendo-se inaptos para a tarefa de conduzir o Brexit. O premiê atual, Boris Johnson, assumiu em 24 de julho de 2019 prometendo concluir a ruptura com acordo ou sem acordo, o que aumenta o interesse por um relatório como esse, que traça o “pior cenário possível”.

    Foram os próprios britânicos que decidiram pelo Brexit, em referendo realizado no dia 24 de junho de 2016. À época, 52% dos eleitores disseram querer sair da União Europeia, enquanto 48% quiseram ficar. Uma vez que o país comunicou a decisão de deixar o bloco, passou a correr o prazo de desligamento previsto no Tratado de Lisboa. Esse prazo se esgota em 31 de outubro.

    Pelo Brexit

     

    Cenário difícil

    Uma das informações contidas no relatório é a de que entre 50% e 85% dos caminhões que trafegam hoje no Reino Unido não passariam pelas normas de controle alfandegário da França, por exemplo.

    O tempo de espera para que esses caminhões passem pela fronteira com a França poderia variar de um dia e meio a dois dias e meio.

    Distúrbios como esse aconteceriam porque o Reino Unido passaria a ser tratado como um “terceiro país” - termo usado para os países que não fazem parte do mercado comum. Como tal, os britânicos não gozariam mais do acesso desimpedido a que a frota dos países do bloco têm direito.

    O relatório prevê ainda longas esperas nos serviços migratórios e embaraços para o trânsito de medicamentos que circulam pelo túnel sob o Canal da Mancha.

    Em relação aos alimentos, pode haver indisponibilidade na oferta de produtos frescos, além de químicos e outras matérias-primas usadas na produção de alimentos processados.

    Não haverá fome ou falta de alimentos em geral, mas pode haver aumento nos preços, o que afetaria o consumo dos mais pobres.

    Por fim, o documento menciona o risco de protestos de rua e choques entre grupos favoráveis e contrários ao Brexit, em manifestações que exijam o emprego da polícia.

    A reação do governo britânico

    O primeiro jornal a publicar o relatório foi o Sunday Times. À publicação, o governo britânico disse não comentar reportagens produzidas a partir de vazamentos.

    Mas a posição mudou ao longo do domingo (18), depois que o ministro responsável pela transição pós-Brexit, Michael Gove, foi ao Twitter para confirmar que o documento existe. Ele adicionou, no entanto, que o material trata de um cenário hipotético agravado, para o qual o governo já tomou providências no sentido de mitigar.

    Em seguida, o ministro da Energia, Kwasi Kwarteng, acusou setores da sociedade envolvidos no vazamento de estarem investindo num “projeto medo” para tentar reverter o Brexit.

    O premiê Johnson ainda acredita que pode conseguir benefícios de um desligamento gradual com os líderes europeus, mas presidentes como o francês Emmanuel Macron e a chanceler alemã Angela Merkel são taxativos em dizer que o período das negociações já passou.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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