Como a política agiu para desmantelar o movimento hippie

Ex-presidente Richard Nixon se aliou a jovens conservadores para se opor à cultura pacifista que pregava o fim da Guerra do Vietnã e teve apogeu no Festival de Woodstock

No dia 21 de agosto de 1969, tropas americanas e australianas uniram forças na Operação Camdem. A missão era invadir a área secreta de Hat Dich, no sul do Vietnã, base do 247º regimento vietcongue. A ação militar resultou em 14 mortos e 61 feridos, contabilizando os dois lados.

Três dias antes, em 18 de agosto de 1969, as notas de “Star Spangled Banner” para um público de cerca de 200 mil pessoas, que ouviram Jimi Hendrix tocar o hino nacional americano em sua guitarra elétrica.

Era o último dia do festival de Woodstock, que completa 50 anos em 2019. Anunciado como “três dias de paz e música”, o evento foi a apoteose do movimento hippie, fenômeno contracultural dos anos 60 que teve como suas principais pautas o pedido pelo fim da Guerra do Vietnã, a liberdade sexual e a política do “paz e amor”.

Estima-se que cerca de 500 mil pessoas passaram por Woodstock. Por conta das chuvas que atrasaram os shows e das pessoas que iam ficando, os “três dias de paz e música” se tornaram quatro. Além de Hendrix, apresentaram-se no festival Janis Joplin, Neil Young (à época parte do CSN&Y), The Who e Jefferson Airplane.

Bob Dylan, The Doors, Led Zeppelin e os Beatles foram alguns dos nomes cotados para o festival, mas que recusaram o convite.

Enquanto os hippies pediam o fim da Guerra do Vietnã e mais “paz e amor”, uma parcela significativa da sociedade civil americana apoiava o conflito. Um estudo realizado pela Universidade de Princeton em 2001 demonstrou que 45% dos americanos aprovavam o bombardeio de alvos militares no Vietnã na época do conflito, a partir de bases de dados dos anos 60 e 70.

Além do apoio à guerra, diversos setores da sociedade americana começaram a desenvolver uma aversão ao movimento hippie, que se refletiu em algumas decisões políticas da época.

O que era o movimento hippie

O movimento hippie surgiu entre a juventude dos anos 60, no contexto da Guerra Fria. Caracterizados por cabelos longos, roupas coloridas e pedidos de “paz e amor”, os hippies eram ultra-liberais nos costumes -- do uso de drogas alucinógenas ao “amor livre”.

Se afastando das tradições judaico-cristãs, os hippies da época passaram a se identificar com religiões orientais, misturando elementos do hinduísmo, do budismo, do taoísmo e da astrologia para a formação de uma identidade espiritual preparada para a “Era de Aquário”, uma era astrológica na qual “a paz guiaria os planetas e o amor direcionaria as estrelas”, em uma nova fase da prosperidade humana.

Os hippies integraram a geração baby-boom, daqueles nascidos entre 1946 e 1964, nos anos seguintes ao final da Segunda Guerra Mundial. Segundo uma pesquisa feita pela empresa Gallup em 2015, 44% dos baby-boomers dos EUA se identificam como conservadores, com inclinação para políticos do Partido Republicano.

A juventude conservadora e as reações contra os hippies

Na década de 60, uma parcela significativa de jovens se considerava conservadora.

A principal representação dessa corrente era a Young Americans for Freedom (Jovens Americanos pela Liberdade), uma fundação criada em 1960

Com a missão de inspirar os jovens com as ideias de “liberdade individual, forte defesa nacional, o livre mercado e os valores tradicionais”. A instituição ainda existe, e foi rebatizada como Young America’s Foundation (Fundação da América Jovem).

No livro “The Other Side of the Sixties” (‘O outro lado dos anos 60’, em tradução livre), o historiador John A. Andrew 3º argumenta que a Young Americans for Freedom capitalizava o movimento conservador entre os jovens da época, impulsionada pelo combate a ideias que “atentavam contra os valores americanos” - segundo o autor, o pensamento liberal era predominante na juventude americana.

Eleito presidente em 1968, Richard Nixon teve como pauta de sua campanha a criação de políticas voltadas para a juventude, no que contou com o apoio da Young Americans for Freedom.

Apesar de ter conseguido atrair jovens que já se identificavam com a direita, a articulação de Nixon com a fundação não surtiu tanto efeito entre aqueles de centro. A partir desse momento, Nixon começou uma série de ataques direcionados aos estudantes universitários que protestavam contra a Guerra do Vietnã.

Segundo artigo publicado no blog da Organização dos Historiadores Americanos, 75% dos americanos via os manifestantes e o movimento hippie sob uma ótica negativa. A estratégia conseguiu atingir parte dos jovens. De acordo com o livro “American Maelstrom” (“Turbilhão americano”), do historiador Michael A. Cohen, universitários de direita passaram a associar os hippies com “violência, cabelos longos, LSD, sujeira e libertinagem sexual”.

No poder, Nixon traçou suas estratégias para combater o movimento hippie e a “juventude subversiva”. Em 1994, o assessor de assuntos domésticos do governo Nixon, John Ehrlichman, disse que a política de guerra às drogas foi uma tentativa direta de desestabilizar os hippies.

“A campanha de Nixon e a Casa Branca de Nixon tinham dois inimigos: a esquerda pacifista e os negros. Nós sabíamos que não podíamos tornar ilegal ser pacifista ou ser negro, mas ao fazer com que o público associasse a maconha aos hippies e a heroína aos negros, e depois criminalizando as duas drogas, nós poderíamos desestabilizar essas comunidades. Nós poderíamos prender seus líderes, revistar suas casas, cancelar suas reuniões e vilaniza-los noite após noite nos telejornais. Nós sabíamos que estávamos mentindo? É claro que sabíamos”

John Ehrlichman

Assessor de Assuntos Domésticos do governo Nixon, em 1994. Frase publicada em reportagem da revista Harper’s em 2016.

Em 15 de maio de 1969, Ronald Reagan, à época governador da Califórnia, estado mais fortemente marcado pela cultura hippie, enviou a Guarda Nacional para a Universidade de Berkeley, onde estava acontecendo um protesto contra a Guerra do Vietnã.

Para Reagan, Berkeley era um “antro para simpatizantes do comunismo, para manifestantes e libertinos sexuais”. Ele descreveu os hippies como pessoas que “parecem a Jane, agem como Tarzan, cheiram como a macaca Chita e carregam placas que dizem ‘faça amor, não faça a guerra’, mas são incapazes de fazer qualquer uma dessas coisas”.

No começo dos anos 70, John Lennon, ex-Beatle e figura importante dentro do movimento hippie, se mudou para os Estados Unidos e começou a ter uma presença maior dentro das manifestações pacifistas. A atitude não foi bem vista pelo governo Nixon, e o FBI passou a vigiar o músico, ao mesmo tempo que o departamento de imigração tentou deportá-lo.

O que aconteceu com os hippies

A partir de 1969, o movimento hippie perdeu forças. Um fator importante para o declínio dos hippies foram os assassinatos da atriz Sharon Tate e de outras seis pessoas, realizados pela seita de Charles Manson apenas uma semana antes do festival de Woodstock.

No começo da década de 70, a Guerra do Vietnã já dava sinais de distensão. Quando foi decretado o seu final, em 1975, os hippies perderam a principal pauta que os mobilizava. Embora existam até os dias de hoje diversas formas de organização social que se definem como comunidades hippies, o movimento massificado se diluiu.

Na metade dos anos 70, um novo movimento jovem surgiu para dar lugar aos hippies. Os punks, com cabelos moicanos e jaquetas de couro, foram descritos pelo jornalista e historiador Jon Savage no livro “Teenage: The Creation of Youth Culture” (“Adolescente: A criação da cultura jovem”) como uma mescla de todas as culturas juvenis que os antecederam.

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