Quais os riscos de recessão global. E os efeitos no Brasil

Números desanimadores das economias da China e da Alemanha e inversão da curva de juros nos EUA deixaram os mercados em alerta. Temor é de uma nova crise mundial

 

 

A economia mundial dá sinais de desaceleração. Na quarta-feira (14), a China divulgou dados que indicam que a economia local está esfriando, a Alemanha anunciou a queda do PIB (Produto Interno Bruto) no segundo trimestre e, nos Estados Unidos, a taxa de juros de longo prazo ficou mais baixa que a de curto prazo, o que não acontecia há 12 anos.

 

Os agentes financeiros reagiram aos novos dados com preocupação no mesmo dia. O índice Dow Jones caiu 3,05%, em sua pior sessão em 10 meses. Na Europa, a bolsa de Frankfurt recuou 2,19%, enquanto em Londres a queda foi de 1,42%.

 

No Brasil, o Ibovespa, principal índice de ações da bolsa de valores de São Paulo, caiu 2,94%, influenciado também pela crise na Argentina. Diante da possibilidade de queda nos fluxos de dólares, o Banco Central anunciou que irá intervir no mercado do câmbio, vendendo a moeda americana à vista pela primeira vez em uma década.

 

Na quinta-feira (15), o clima foi de estabilização no mercado financeiro americano depois dos movimentos bruscos no dia anterior. Os índices Dow Jones e S&P 500 tiveram leve alta, enquanto o Nasdaq caiu 0,09%.

 

Em São Paulo, o Ibovespa recuou mais 1,20%, fechando o dia abaixo dos 100 mil pontos. O nível atingido é o menor em cerca de dois meses.

 

Os sinais negativos da economia global aparecem em meio à guerra comercial entre EUA e China e às indefinições sobre o futuro do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. Ao se unirem aos sinais de incerteza, os números trazem ao mercado o temor de uma recessão global.

 

 

A desaceleração chinesa

 

Na quarta-feira (14), a China publicou dados que indicam a desaceleração da economia do país.

 

A produção industrial chinesa cresceu apenas 4,8% entre julho de 2018 e o mesmo mês em 2019, abaixo da expectativa do mercado, que esperava um crescimento de 6,0%. O valor representa o menor ritmo em 17 anos.

 

DESACELERAÇÃO DA INDÚSTRIA

 

 

Outro número que apontou para o esfriamento da economia chinesa foi o desempenho do varejo. A previsão original era de que as vendas subissem 8,6% entre julho de 2018 e julho de 2019. No entanto, o resultado foi abaixo do esperado, ficando em 7,6%.

 

VAREJO EM QUEDA

 

 

Os resultados mostram que a economia da China pode estar perdendo fôlego.

 

A desaceleração da segunda maior economia do mundo teria efeitos por todo o globo. A China não apenas é a maior fornecedora de bens e serviços do mundo, como também compra produtos em grande escala. Se a economia chinesa desaquece, menos dinheiro gira entre os países. Com isso, a economia global tende a perder força.

 

 

A queda do PIB alemão

 

A Alemanha divulgou na quarta-feira (14) a redução do PIB em 0,1% no segundo trimestre de 2019. A previsão do Deutsche Bank é de que a queda continue no terceiro trimestre, o que significaria, em termos técnicos, que a maior economia europeia estaria em recessão.

 

O encolhimento do PIB alemão foi puxado pela queda nas exportações, assim como pelas dificuldades da indústria automobilística. As dúvidas sobre como será a saída do Reino Unido da União Europeia também ajudaram a tornar o cenário alemão mais incerto.

 

As primeiras análises dão conta de que a Alemanha foi gravemente afetada pelas disputas comerciais entre Estados Unidos e China. A perturbação gerada pelas tensões entre as duas principais economias do mundo fez a confiança dos mercados baixar e o comércio internacional esfriar.

 

Diante dos indicadores ruins e da baixa confiança dos agentes econômicos, cresce a preocupação com a solidez do país que lidera a economia da União Europeia.

 

 

A inversão das taxas de juros nos EUA

 

A economia dos Estados Unidos vem observando um movimento atípico na relação entre as taxas de juros de curto e longo prazos. Desde o final de 2018, as duas taxas vem se aproximando significativamente. A diferença entre os rendimentos anuais de curto e longo prazos estava caindo a ponto de atingir praticamente zero.

 

Em determinado momento da quarta-feira (14), essa trajetória culminou com a inversão da curva. Os juros de longo prazo ficaram menores que os de curto prazo pela primeira vez desde 2007. O mesmo movimento aconteceu no Reino Unido.

 

EVOLUÇÃO DOS JUROS NOS EUA

 

 

A aproximação e a inversão da taxa de juros de curto e longo prazos mostram que o mercado está pessimista. Quando uma pessoa compra um título do tesouro, ela está emprestando dinheiro para o governo a uma determinada taxa e com um certo prazo. Em condições normais, a taxa para empréstimos longos é maior do que para curtos. Isso porque o cenário do longo prazo é mais incerto — em 10 anos, por exemplo, muita coisa pode acontecer que tipicamente não aconteceria no futuro próximo. Apostar em um quadro mais distante da economia e do mundo envolve mais riscos, o que se reverte em mais ganhos.

 

O movimento de aproximação e inversão indica que os agentes veem riscos semelhantes — ou até maiores — em fazer investimentos no curto prazo, em comparação aos de longo prazo. A expectativa, portanto, é de uma turbulência próxima.

 

O pessimismo do mercado tem precedentes. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, inversões nas taxas de juros dos EUA têm sido indicadores confiáveis da proximidade de recessões. Formalmente, não há nenhuma ligação direta e causal entre um fenômeno e outro. Mas a correlação forte foi suficiente para ligar os alertas nos mercados pelo mundo na quarta-feira (14).

 

Há economistas que afirmam que os temores relativos à inversão da curva de juros podem levar ao que eles chamam de ‘profecia auto-realizada’. Segundo esse raciocínio, o próprio pânico trazido pela inversão das taxas de juros — motivado pelo histórico já mencionado — faria com que os agentes retirassem seus investimentos, levando a uma recessão.

 

 

Duas análises sobre o cenário mundial

 

O Nexo conversou com dois especialistas sobre as possibilidades de uma recessão global e os impactos que uma desaceleração da economia mundial teria no Brasil.

 

  • Marcelo Balloti, economista da Lafis Consultorias
  • Alexandre Chaia, professor de economia do Insper

 

Diantes dos dados observados, quais os riscos de uma recessão global?

 

Marcelo Balloti Os riscos aumentaram de maneira significativa, muito em função das incertezas e, principalmente, da guerra comercial entre China e EUA.

 

A Alemanha é extremamente afetada, dado que boa parte do seu PIB é ligada ao mercado internacional, e como ela é o carro chefe da União Europeia, sua desaceleração tem impacto dentro do bloco europeu. A China tem desacelerado rapidamente. Na economia norte-americana, ontem ocorreu a inversão da curva de juros, o que é um antecedente de crise.

 

Precisar exatamente quando vai ocorrer e se vai ocorrer uma recessão é um pouco mais complicado. Agora, acredito que já temos em curso uma desaceleração da economia global.

 

Alexandre Chaia O risco existe, sem dúvida. As economias estão desacelerando, mas daí a dizer que vamos entrar num processo de recessão global em que as economias vão encolher é difícil. Não temos nenhum evento de incerteza grande do ponto de vista financeiro, ou de queda de algum nível de produção, ou algum evento de confiança que possa tirar recursos da economia.

 

O que está acontecendo agora é que a economia desacelera porque existe uma correlação muito grande entre o comércio e o crescimento do mundo. As brigas comerciais entre China e EUA, União Europeia e Reino Unido, Japão e Coreia do Sul começam a criar sistemas de protecionismo locais.

 

Vejo um risco razoavelmente alto de continuar algo que está acontecendo no mundo todo, que é a não-solução dos problemas. O status do comércio vai fazer a economia ter um pouso bruto, mas não é o que vai gerar uma recessão. O que pode levar a isso é o prolongamento dos prazos das incertezas sobre o futuro do comércio mundial.

 

A partir do momento em que o cenário sair do campo da incerteza e se transformar em atitudes concretas, acho que os acordos vão ser rebalanceados. O mundo vai crescer menos, mas vai haver uma melhora em relação à situação de hoje, que é de imobilização.

 

 

Quais os impactos que a desaceleração da economia mundial tem sobre o Brasil?

 

Marcelo Balloti Hoje, na economia brasileira, o consumo está estagnado e o desemprego é muito alto. Os investimentos também estão bem estabilizados, dado que há uma capacidade ociosa muito grande. Pela via pública, temos a barreira do teto fiscal, que impossibilita o uso da política fiscal como incentivo para a retomada da economia.

 

Restaria, então, o setor externo. Mas a desaceleração da economia mundial provavelmente vai ter um impacto sobre nossas exportações. Soma-se a isso a questão da Argentina, que também deve prejudicar as exportações.

 

É um cenário conturbado internacionalmente, e uma desaceleração da economia mundial provavelmente vai desestimular nossas exportações. Apesar da taxa de câmbio estar em desvalorização, a demanda internacional vai se arrefecer para produtos brasileiros.

 

Alexandre Chaia O Brasil tem um mercado consumidor grande e uma demanda por investimentos e parcerias internacionais. Somos, potencialmente, um bom player de parcerias estratégicas. O problema é que o Brasil poderia ter se beneficiado mais se os movimentos tivessem acontecido mais rapidamente.

 

O Brasil está mais aberto ao mundo, menos ideológico do ponto de vista do comércio, e tem se posicionado como um parceiro mais liberal e mais estável do que outros emergentes para acordos bilaterais. Poderíamos ter crescido mais, mas não estamos conseguindo porque o mundo não caminhou para uma decisão final.

 

No primeiro momento, o Brasil tende a ser beneficiado por essas parcerias que os países vão querer fazer. No segundo momento, ele vai entrar na dinâmica do mundo como um todo, em que as economias vão crescer menos. Mas enquanto não ocorre a decisão final nas discussões comerciais mais profundas que acontecem hoje — basicamente EUA e China, e União Europeia e Reino Unido — você tem um certo imobilismo que está prejudicando o Brasil.

 

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: