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As ambições de Bolsonaro no Exército, segundo este livro

Em ‘O Cadete e o Capitão’, jornalista Luiz Maklouf Carvalho reconstrói julgamento que absolveu o militar de planejar explosão de bombas em quartéis

     

    Jair Messias Bolsonaro ganhou projeção na vida pública criticando a “falta de perspectiva” dos militares e a “situação crítica” da categoria no tocante aos seus “vencimentos”. A questão salarial e outras ambições por realizações financeiras seriam uma marca de sua carreira militar, que durou pouco mais de uma década, entre os anos 1970 e 1980.

    Esse período da vida do hoje presidente da República — usado politicamente por ele nas seguidas eleições que viria a disputar após deixar o Exército — é tratado em detalhes no livro “O Cadete e o Capitão: A Vida de Jair Bolsonaro no Quartel” (Todavia, 2019), de autoria do jornalista Luiz Maklouf Carvalho.

    A obra reconstrói a história de Bolsonaro como militar e o julgamento que o absolveu, em 1988, da acusação de planejar explosões de bombas em quartéis. O julgamento foi a última etapa de sua carreira no Exército. No mesmo ano, ele foi eleito como vereador no Rio de Janeiro, com 11.062 votos, pelo extinto PDC (Partido Democrata Cristão), aproveitando-se da visibilidade gerada por reportagens que tratavam do atentado a bombas não realizado, e entrando, definitivamente, para a vida política.

    O histórico militar

    Aos 18 anos, em 8 de março de 1973, Jair Bolsonaro entrou para a EsPCEx (Escola Preparatória de Cadetes do Exército), em Campinas, interior de São Paulo. Mas considerou a decisão um erro. Por já ter feito o científico (ensino médio), avaliou que tinha procurado a escola errada. Deveria ter ido diretamente para a Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), em Resende, no Rio de Janeiro, o que aconteceu no ano seguinte. Foi efetivado em 10 de março de 1974 e se formou em 1977.

    Em 1978, passou a servir como oficial subalterno no 21º Grupo de Artilharia de Campanha em São Cristóvão, no Rio. Ainda naquele ano, Bolsonaro salvou um soldado, conhecido como Negão Celso, de um afogamento. Celso havia caído de uma corda no meio de uma lagoa durante um treinamento. Pelo “ato de bravura”, Bolsonaro recebeu em 5 de dezembro de 2018, 40 anos depois do episódio, a Medalha do Pacificador. Já havia sido eleito presidente da República à época.

    Em 1979, pediu transferência para o 9º GAC (Grupo de Artilharia de Campanha), de Nioaque, no Mato Grosso do Sul. Só voltaria ao Rio de Janeiro em 1982, para fazer um curso de instrutor na Escola de Educação Física do Exército e servir no 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista. Ficaria ali até 1987.

    As plantações de arroz e melancia

    Nos três anos em que viveu em Nioaque, a 184 km de Campo Grande, Bolsonaro se arriscou como agricultor. Ele arrendou terras na região e tentou, inicialmente, plantar arroz. “Nós plantamos arroz, só que na época deu uma chuvarada, não deu para colher, e perdemos o arroz”, contou o funcionário público José Cardoso, dono das terras arrendadas, ao site G1, em 2018. Mas o militar não desistiu da empreitada. Logo plantou melancias no lugar. “A melancia deu bem, colheu bem, comemos muita melancia na época”, afirmou Cardoso ao site.

    Em seu livro, Maklouf revela ainda o conteúdo de uma carta anônima anexada posteriormente aos relatórios secretos do SNI (Serviço Nacional de Informações) e do CiEx (Centro de Informações do Exército) sobre Bolsonaro. O documento se refere a possíveis viagens ao Paraguai feitas pelo militar à época para “trazer muambas”.

    A fase do garimpo

    Em 1983, já de volta ao Rio de Janeiro, outro episódio revela as “ambições financeiras” de Bolsonaro, que seriam descritas por seus superiores. Durante suas férias naquele ano, ele viajou à cidade de Saúde, na Bahia, em 25 de março. Seu objetivo era fazer garimpo.

    Seu superior, o coronel Carlos Alfredo Pellegrino, chegou a anotar na ficha de informações do militar: “Deu mostras de imaturidade ao ser atraído por empreendimento de ‘garimpo de ouro’. Necessita ser colocado em funções que exijam esforço e dedicação, a fim de reorientar sua carreira. Deu demonstrações de excessiva ambição de realizar-se financeira e economicamente”.

    Na época, o coronel também o elogiou pela “dedicação ao planejamento do treinamento físico dos quadros e da tropa” e pelo “esforço” em apoiar a seção administrativa. Anos depois, em 1987, Pellegrino seria ouvido novamente sobre Bolsonaro e afirmou que se lembrava dos comentários pessoais feitos pelo subalterno “sobre lendas e histórias, sempre referentes à existência de ouro, pedras preciosas e outros valores no Vale do Ribeira, em São Paulo, como também em outras regiões do Brasil, consistindo sempre em relatos fantasiosos sobre fortunas feitas da noite para o dia”. Em sua defesa, Bolsonaro reconheceu ter viajado à Bahia, mas disse que nada conseguiu, “inocorrendo, portanto, qualquer comercialização” de ouro.

    Os episódios que lhe trouxeram fama

    Um artigo de opinião publicado na revista Veja representou a primeira aparição pública de Bolsonaro. Em sua edição de número 939, datada de 3 de setembro de 1986, a publicação trouxe o texto “O salário está baixo”, assinado pelo então capitão do Exército, em que ele comenta sobre o fato de cadetes abandonarem, descontentes, a academia militar, devido à falta de perspectivas financeiras.

    Então com 31 anos, casado e pai de três filhos (Flávio, Carlos e Eduardo), ele argumentava que os militares dedicavam os “melhores anos de suas vidas” à carreira, enfrentando um ritmo de trabalho superior a 48 horas semanais, com serviços aos sábados, domingos e feriados, instruções noturnas, marchas e acampamentos, sem poder “sequer sonhar em construir condignamente uma família”.

    Ele afirmava que não conseguia “sonhar com as necessidades mínimas” de uma pessoa que seu “nível cultural e social poderia almejar” mas alegava que não buscava aumento salarial. “Reclamo — como fariam, se pudessem, meus colegas — um vencimento digno de confiança que meus superiores depositam em mim”. Pelo artigo, foi preso por 15 dias.

    Ao cumprir pena, recebeu cartas, telegramas e telefonemas de apoio. Ele mesmo reconheceria, em depoimento, que passou a ser mais notado pelos colegas de farda após ter escrito o texto.

    O segundo episódio que colocaria Bolsonaro na imprensa novamente e encerraria sua carreira militar também envolveu a Veja. No ano seguinte à publicação do artigo, uma reportagem da revista denunciava, na edição 999, de 28 de outubro de 1987, que ele havia planejado explodir bombas em quartéis.

    O texto “Pôr bomba nos quartéis, um plano na Esao [Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais]”, assinado pela repórter Cassia Maria, revelava que a iniciativa seria um protesto “contra o índice de aumento para os militares” que o governo estava prestes a anunciar. “Caso o reajuste ficasse abaixo de 60%, algumas bombas seriam detonadas nos banheiros da Esao, sempre com a preocupação de evitar que houvesse feridos. Simultaneamente, haveria explosões na Academia Militar das Agulhas Negras e em outras unidades do Exército”, dizia a reportagem.

    A ideia era assustar o ministro do Exército durante o governo José Sarney (1985-1990), Leônidas Pires Gonçalves, para mostrar ao presidente que ele não tinha controle sobre a tropa.

    Bolsonaro negou o plano, mas a revista publicou os croquis (esboços) do plano desenhados pelo próprio capitão para comprovar a veracidade da história. Num primeiro julgamento, ele foi considerado culpado, mas recorreu. O caso voltou a ser analisado pelo STM (Superior Tribunal Militar) em 1988.

    O julgamento no Superior Tribunal Militar

    Para recontar em seu livro a história do julgamento, Maklouf analisou mais de 700 páginas do processo de Bolsonaro e ouviu os 31 arquivos com as gravações inéditas da sessão de julgamento que reverteu a primeira condenação. Ele foi absolvido por nove votos a quatro, mesmo que duas perícias (uma delas inicialmente inconclusiva, mas depois reparada apontando a autoria) comprovassem que Bolsonaro fora de fato o verdadeiro autor dos croquis publicados pela revista Veja. Havia um terceiro laudo que tinha sido inconclusivo.

    Ao fazer sua defesa, Bolsonaro conseguiu convencer a maioria dos ministros da corte que, no fundo, havia um empate entre quatro laudos (dois inconclusivos e dois certificando que ele fora o responsável pelos desenhos). Para isso, considerou o reparo a um dos laudos como sendo um documento a parte. Por causa do empate, invocou o conceito de “in dubio pro reo”, ou seja, na dúvida, o réu deveria ser absolvido.

    Mas o livro de Maklouf também revela que muitos dos ministros que votaram pela absolvição, na verdade, estavam julgando a denúncia feita pela revista Veja e condenando a imprensa, em vez de analisar a conduta do então capitão do Exército. Eles classificaram a jornalista autora da denúncia como “criatura pouco recomendável”. Maklouf tentou ouvir para o livro Cassia Maria, jornalista que revelou o plano de explosão das bombas, mas ela não aceitou falar. Bolsonaro, também procurado, não quis dar entrevistas.

     

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