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A origem do vaporwave. E sua crítica aos rumos da internet

Gênero musical surgiu contestador. A estética ao entorno dele acabou apropriada pelo bolsonarismo

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O termo vaporwave ganhou projeção na internet brasileira em meados de 2019. Ele designa uma estética visual que vem sendo adotada por perfis de personalidades e conteúdo ligado à extrema direita brasileira.

No início de agosto, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) atualizou a foto de seu perfil com uma imagem que parece um frame de uma televisão velha com problemas de ajuste de cor. O fundo lembra “computer art” chinfrim da década de 1990.

Antes de Eduardo Bolsonaro, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, e o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Filipe G. Martins, também haviam aplicado elementos similares aos seus perfis.

Eles se juntaram a uma profusão de memes, páginas, perfis e vídeos que seguem a estética vaporwave, que enxerga beleza na imperfeição técnica e na iconografia da era da informação. Imagens falhadas e registros fora de foco se mesclam a fundos de tela dos anos 1990 e a texturas de computação gráfica antiga.

O músico americano Daniel Lopatin é outra figura-chave nessa estética sonora. Por meio dos seus projetos Oneohtrix Point Never e Chuck Person, Lopatin ajudou a formatar a sensibilidade sonora vaporwave

Mas, quando surgiu, dez anos antes, o vaporwave se referia a um subgênero de música eletrônica, não a uma identidade visual. E boa parte de seus artistas não compartilha das mesmas ideias dos adeptos da linguagem vaporwave de hoje.

No YouTube, um apoiador do presidente subiu uma mixtape de sons ligados a esse movimento salpicado de falas de Bolsonaro. É uma associação que deixaria revoltados os pioneiros do vaporwave.

Os precursores do vaporwave

No início da década de 2010, fake news, polarização política e discurso de ódio eram temas distantes do centro do debate público. Havia uma inquietude, entretanto, a respeito de como a internet e a cultura digital estavam se transformando de maneira negativa.

Em oposição à internet idealizada da década de 1990, que prometia uma vida online de aventura e libertação, o que se impunha de maneira crescente era a experiência egocêntrica e consumista das redes sociais.

“Esse álbum me conforta (...) Eu não odiava tanto a tecnologia quando era mais novo. Eu passava bastante tempo explorando a internet e jogando (...) no computador da família (...) não gosto do consumismo e do mundo de propaganda e porcaria corporativa que vivemos agora”, escreveu um fã na página do YouTube do álbum “Far Side Virtual”, do artista americano James Ferraro. De 2011, o álbum foi uma importante inspiração para o vaporwave.

O músico americano Daniel Lopatin é outra figura-chave nessa estética sonora. Por meio dos seus projetos Oneohtrix Point Never e Chuck Person, Lopatin ajudou a formatar a sensibilidade sonora vaporwave. Em “Eccojams Vol. 1”, ele mostra uma abordagem mais radical ao criar um caótico mosaico de loops de canções pop dos anos 80 como “Lady In Red”, de Chris de Burgh, e “Woman in Chains”, do Tears for Fears.

Foto: Reprodução
floral shoppe
'Floral Shoppe', da artista Romana Xavier, sob o pseudônimo Macintosh Plus, é a matriz do som do vaporwave
 

Em entrevista à revista Interview, Lopatin lamentou os rumos da internet nos anos 2010. Saudoso da era dos blogs e da navegação via textos e hiperlinks, ele acredita que “perdemos a capacidade de sonhar (...) por meio de histórias e ideias. Penso que perdemos a profundidade da linguagem. Há uma conexão entre isso e a idiotização que estamos sentindo de maneira tão constante”, afirmou.

Trabalhos como esses foram classificados como pop hipnagógico, em referência ao estado de transição entre estar acordado e pegar no sono, quando realidade e sonhos se confundem. Para além das referências nostálgicas, traziam efeitos sonoros de tecnologias passadas como ringtones e o gaguejar de um CD riscado.

Em paralelo, corria o termo chillwave, aplicado a bandas como Washed Out e Toro Y Moi, que até já tocaram no Brasil. Seu som é bastante calcado em sonoridades de sintetizador da década de 80, filtrados por um olhar irônico e estruturas de canção pop.

Uma influência decisiva em todo esse campo é o também americano Ariel Pink. Com muitos lançamentos na década de 2000, Pink se notabilizou por sua pegada “lo-fi”, em que os parcos recursos o levaram a gravar instrumentais precários em fitas cassete.

A música vaporwave

Por volta de 2012, o vaporwave já constituía um subgênero autônomo. O termo, que surgiu como brincadeira em uma revista de música, passou a ser usado a sério por diversos músicos. Formava-se uma “cena”, mas à maneira do século 21, isto é, baseada em comunidades online e não em uma região geográfica.

 

O álbum “Floral Shoppe”, creditado a Macintosh Plus, projeto da americana Ramona Xavier, é considerado o marco inicial do vaporwave. A capa contrapõe um busto do deus grego Helios a uma foto de Nova York onde ainda se pode ver o World Trade Center, destruído em 2001.

Conceitualmente, o trabalho se apresentou como uma crítica às falsas utopias prometidas pelo consumismo tecnológico. As citações musicais evocam uma breguice típica dos anos 80, como teclados de banda de shopping center, música genérica de FM nostálgica e clima pseudo-sofisticado.

A partir desta matriz, dezenas de projetos apareceram nos anos seguintes, como o Blank Banshee, que fundiu vaporwave com trap, o Giant Claw, que incorporou dub ao subgênero, e o Windows 96, com seu nome que faz referência a uma versão do software que nunca existiu.

Além disso, o visual vaporwave, antes de ser apropriado pela direita americana (e, depois, brasileira), passou a aparecer em editoriais de moda, publicidade corporativa e em novas identidades visuais do Tumblr e da MTV americana - isso em meados da década de 2010.

Em declaração dada em 2016, Romana Xaiver considerou bizarramente "poético" que "esse conjunto esquisito e nerd de ideias que eu tentei apresentar da maneira mais cafona possível se tornou uma inspiração para marcas de verdade tentando ser 'cool'".

 

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