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Os 6 jovens mortos em 5 dias no Rio. E o temor das ações policiais

Governo de Wilson Witzel diz que não irá recuar no combate aos ‘narcoterroristas’. Crianças enviaram 1.500 cartas ao Tribunal de Justiça do estado pedindo o fim das operações em horário de aula

     

    Seis jovens foram mortos a tiros num intervalo de cinco dias na região metropolitana do Rio de Janeiro, aumentando a pressão sobre o governador do estado, Wilson Witzel (PSC). Desde que assumiu o cargo, em janeiro de 2019, o ex-juiz federal tem aplicado uma política de enfrentamento ao crime na tentativa de diminuir os índices de violência. Os números de mortos pela polícia, porém, aumentaram.

    Ao menos três das vítimas mais recentes foram assassinadas durante ações policiais sem que tivessem ligação com o crime. Além deles, um rapaz foi alvo de uma bala perdida e outros dois morreram executados numa festa. Os crimes ocorreram entre sexta-feira (9) e terça-feira (13).

    Desde o início do mandato de Witzel, os casos de mortes por policiais subiram 46% entre janeiro e junho de 2019, em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo levantamento do Observatório de Segurança da Universidade Cândido Mendes, no Rio. O estudo mostra que as ações policiais se tornaram mais frequentes.

    Em maio, o governador do Rio de Janeiro chegou a embarcar num helicóptero para participar de uma ação da polícia em Angra dos Reis. No mês seguinte, defendeu “explodir pessoas” com um míssil na Cidade de Deus. Em agosto, durante uma entrevista, afirmou: “Não sai de fuzil na rua, troca por uma Bíblia. Se você sair, vamos te matar”.

    Em entrevista à TV Globo na quarta-feira (14), o porta-voz da Polícia Militar, coronel Mauro Fliess, negou que houvesse um fracasso na política de segurança pública do estado. “Não existe fracasso. A Polícia Militar lamenta imensamente esses episódios e presta total solidariedade às famílias”, disse. Ele afirmou que as mortes serão apuradas e que a polícia não pode recuar “frente ao enfrentamento que os marginais provocam”.

    O secretário estadual de governo, Cleiton Rodrigues, também à TV Globo, negou que a estratégia seja um “enfrentamento da forma como estão colocando”. “Nós estamos combatendo narcoterroristas e máfias. Pessoas que não têm o menor escrúpulo e usam a sociedade como escudo humano. (...) Não há intenção da Polícia Militar em matar inocentes. As investigações serão feitas, e os culpados são os narcoterroristas”, afirmou.

    As reações à política de Witzel

    A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) do Rio criticou as ações do governo. “As mortes recentes de seis jovens pardos e negros é algo inadmissível e não podem ser tratadas como efeito colateral aceitável de uma política de enfrentamento truculenta, sem inteligência e respeito a direitos e garantias da população”, disse a entidade, em nota.

    Para Felippe Angeli, gerente de relações institucionais do Instituto Sou da Paz, as mortes confirmam as estatísticas de que quem morre “são as mesmas pessoas”. “Tenho um conhecido que diz que não existe bala perdida, mas bala achada, porque elas sempre acham as mesmas pessoas: os negros, os moradores de áreas periféricas, em geral homens, que é exatamente o perfil que a gente vê nesses casos”, disse ao Nexo.

    Segundo ele, há indícios de que as vítimas eram pessoas que não estavam envolvidas com o crime. “Havia um militar, um jogador de futebol da base, uma mulher com o filho. Os casos demonstram que são vítimas inocentes de uma política que não é nem mais de segurança pública, mas de guerra”. As ações em que os jovens foram mortos não seriam, para ele, toleradas “em meio ao asfalto da zona sul”.

    “No momento em que a polícia decide fazer uma operação num local como esses, é preciso usar de boas práticas policiais para que se previna completamente acidentes desse tipo”, diz. Ele classifica como a “crônica de uma morte anunciada” o fato de a polícia decidir trocar tiros em áreas densamente povoadas com armas de imenso potencial destrutivo.

    O apelo das crianças da Maré

    Na sexta-feira (9), a ONG Redes da Maré entregou 1.500 cartas de crianças moradoras do complexo para o Tribunal de Justiça do estado. Elas pediam a volta de protocolos para reduzir os danos das operações policiais no local. No primeiro semestre de 2019, foram realizadas 21 ações na comunidade, número que já supera todo o ano anterior.

    Algumas crianças incluíram desenhos e demonstraram ter medo dos helicópteros usados pela polícia. Pediram que as operações não ocorram quando estão na escola. Na quarta-feira, a Justiça restabeleceu algumas regras para reduzir os danos das operações a pedido da Defensoria Pública do Rio.

    Os números da segurança

    65.602

    homicídios foram registrado no Brasil em 2017, segundo o Atlas da Violência

    75,5%

    das vítimas eram negras

    34,9

    é a taxa de homicídios por 100 mil habitantes no Brasil

    45,2

    é a taxa de homicídios por 100 mil habitantes no estado do Rio

    As 6 vítimas no Rio

    Sexta-feira (9), Tijuca

    O estudante Gabriel Pereira Alves, do terceiro ano do ensino médio do Colégio Estadual Herbert de Souza, esperava um ônibus numa rua da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, quando foi atingido por um tiro no peito na manhã da sexta-feira (9). O rapaz, de 18 anos, estava indo para a escola com uma amiga. Segundo testemunhas, houve uma troca de tiros no morro do Borel, na mesma região. Moradores do bairro interditaram a rua Conde de Bonfim, onde ocorreu a morte, em protesto. Gabriel morreu no dia em que seu pai fazia aniversário. A tia do rapaz, Regina Marçal, contou ao site G1 que ele treinava diariamente no Olaria e sonhava em ser jogador de futebol. O clube suspendeu as atividades na sexta-feira (9).  A polícia diz que uma de suas bases foi atacada por criminosos na região, mas que não revidou.

    Sexta-feira (9), Água Santa

    Na noite de sexta-feira (9), durante uma festa com cerca de 50 pessoas em Água Santa, na zona norte do Rio, homens armados invadiram o local e começaram a atirar. O soldado da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército Lucas Monteiro dos Santos Costa e o estudante e funcionário de um restaurante Tiago Freitas, ambos de 21 anos, foram atingidos e morreram no local. Segundo Adriano dos Santos Costa, pai do soldado, o filho foi morto “por ser militar”. “Ele pulou um muro de três metros, foi perseguido e executado”, afirmou em entrevista ao G1. Segundo testemunhas, os homens teriam entrado na festa em busca de um suposto ladrão. A regi��o é alvo de disputa entre milicianos e traficantes. Um terceiro homem foi ferido. A polícia diz que os atiradores já tinham fugido quando chegou ao local.

    Segunda-feira (12), Comunidade da Grota

    Jogador de futebol de 16 anos, Dyogo Costa Xavier de Brito treinava no América, clube pelo qual disputava torneios não oficiais. Em 2019, defendeu a comunidade da Grota, no bairro São Francisco, em Niterói, na Taça das Favelas. Na segunda-feira (12), durante uma operação policial na região, foi morto com um tiro nas costas. Estava indo para a casa de um amigo. “Meu neto descia a pé, passando pela via principal, com a mochila nas costas. Eu me aproximei e vi ele caído, com o rosto no chão. O PM [policial militar] ainda me falou que o meu neto era traficante. Não precisavam ter matado meu garoto, era só abordar e ver que a bolsa do Dyogo carregava a chuteira e o dinheiro da passagem de ônibus”, afirmou ao jornal O Globo o avô do rapaz, o motorista de ônibus Cristóvão Xavier, de 63 anos. Ele passava pelo local na hora do crime. Moradores da Grota fizeram um protesto após o assassinato. A polícia diz investigar o caso.

    Segunda-feira (12), Magé

    Estoquista num supermercado de Magé desde 2018, o estudante Henrico de Jesus Viegas de Menezes Júnior, de 19 anos, tinha ido à comunidade Terra Nova buscar uma motocicleta que estava no mecânico, segundo seus familiares. No trajeto, foi baleado na cabeça durante uma ação da polícia na região, na tarde de segunda-feira (12). Os policiais que participaram da ação disseram que o rapaz estava com uma arma, um radiotransmissor e drogas, o que a família nega. Revoltados com a morte, moradores foram ao centro de Magé e invadiram o Palácio Anchieta, sede da prefeitura. Ruas foram bloqueadas e pneus, queimados. A Polícia Militar interviu.

    Terça-feira (13), Bangu

    Estudante do sétimo ano do ensino fundamental, Margareth Teixeira, de 17 anos, ia à igreja com o filho de um ano e dez meses no colo, quando recebeu dez tiros durante uma ação da polícia na comunidade do 48, em Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro. A criança foi ferida de raspão no pé e na cabeça e foi hospitalizada. Em entrevista ao UOL, a irmã da jovem contou que ela sonhava em ser Policial Militar. Segundo a polícia, houve reação de homens armados a uma operação que foi realizada para coibir confrontos entre grupos rivais na comunidade. Dois homens morreram na ação. A polícia diz que foram apreendidos armas e rádios transmissores.

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