Ir direto ao conteúdo

A moda desenhada para confundir sistemas de vigilância

Artistas pensam em roupas, cortes de cabelo e maquiagem para atrapalhar a leitura de câmeras de segurança

 

A crescente presença de sistemas de vigilância no espaço público tem levado artistas e criadores a pensar em maneiras de driblar os olhos digitais.

Uma linha de camisetas da marca americana Adversarial Fashion (“moda antagonista”) traz estampas de placas de carro com o propósito de confundir aparatos de monitoramento. Os desenhos trazem letras e números que alimentam as câmeras com dados inúteis, atrapalhando o processamento geral de informações.

Um dos modelos traz trechos de palavras da quarta emenda da Constituição dos Estados Unidos. O texto estabelece que “não será infringido o direito do povo à inviolabilidade de sua pessoa, casas, papéis e haveres, contra buscas e apreensões arbitrárias”. A emenda é frequentemente citada em casos judiciais contra abusos de autoridades no uso de monitoramento.

Estilista declara, entretanto, que sua intenção não é burlar a lei e sim destacar a imprecisão e o potencial de erro de sistemas apresentados pelas autoridades como soluções de segurança.

A linha de roupas foi lançada em uma das maiores conferências de cibersegurança do mundo, a Def Con, realizada em Las Vegas, nos EUA, entre 6 e 9 de agosto. De acordo com a estilista Kate Ross, a ideia surgiu durante uma conversa com um pesquisador da ONG Electronic Frontier Foundation, que defende a liberdade de expressão no âmbito digital.

“Ele comentou que os sistemas eletrônicos de leitura não são muito bons”, disse Ross ao jornal britânico The Guardian. “Eles já leem coisas como cercas de madeira e outras inutilidades. Pensei que, se são enganados por uma cerca, talvez eu pudesse tentar”.

Estilista declara, entretanto, que sua intenção não é burlar a lei e sim destacar a imprecisão e o potencial de erro de sistemas apresentados pelas autoridades como soluções de segurança.

 

Organizações de direitos humanos e especialistas em liberdades civis apontam que a tecnologia de sistemas de vigilância pode servir de cobertura para vieses humanos, especialmente nos aspectos racial e social. “O algoritmo sempre vai amplificar o sistema de que faz parte. Se o sistema é tendencioso, injusto, então o algoritmo vai replicar isso”, declarou Jamie Garcia, um voluntário do grupo ativista Stop LAPD Spying Coalition (Coalizão contra a espionagem da polícia de Los Angeles, em tradução livre), à revista Wired.

Cabelo e maquiagem

Em Berlim, o artista e tecnólogo Adam Harvey vem há alguns anos trabalhando em ideias que ajudem cidadãos a não terem seus rostos identificados em sistemas públicos de monitoramento. Seu projeto CV Dazzle propõe maquiagens e cortes de cabelo como elementos que confundem os sistemas digitais de leitura. Franjas que ocultam partes do rosto e desenhos elaborados estão entre as propostas do artista.

Harvey pesquisou as diversas maneiras pelas quais a tecnologia consegue ler um rosto para desenvolver as características de um “anti-rosto”. Seu site lista dicas para confundir os olhares eletrônicos, como o uso de maquiagem com cores e tons que contrastam com o da  pele natural e o ocultamento parcial da ponte nasal e da região dos olhos.

Em 2017, Harvey desenvolveu uma linha de roupas com estampas que simulam rostos digitalizados. A intenção, segundo o criador, era “sobrecarregar um algoritmo com o que ele quer, saturando excessivamente uma área com rostos para desviar o olhar do algoritmo de visão computacional”.

 

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: