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Os mistérios que cercam a explosão na base russa de Nenoksa

Acidente fez crescer 20 vezes o nível de radiação próxima ao local onde são testados mísseis ‘invencíveis’ criados por Putin

 

Uma série de explosões acidentais ocorridas no dia 8 de agosto na base militar de Nenoksa, no noroeste da Rússia, deixou pelo menos cinco mortos e três feridos.

O acidente foi registrado com câmeras de celular por moradores de localidades próximas. Em poucos minutos, as imagens das explosões, seguidas por colunas de fogo e de nuvens de fumaça se espalharam pela internet.

Autoridades russas disseram inicialmente que o acidente ocorreu durante experimentos realizados com combustível líquido usado na propulsão de foguetes.

Aos poucos, no entanto, cresceram as preocupações com o risco de vazamento de energia nuclear. No local, funciona um complexo da Marinha onde são desenvolvidos novos tipos de armas e munições, algumas delas com tecnologia nuclear, e onde são reparados submarinos nucleares russos também.

 

Segredo sobre a questão atômica

Inicialmente, o governo russo disse que não havia motivo para preocupação e que a situação em Nenoksa estava sob controle. O governo falava então em apenas dois mortos, identificados como funcionários do local.

A informação, no entanto, contrastava com o registro de um pico no nível de radiação registrado Severodvinsk, a maior cidade da região. O índice registrado nos 30 minutos seguintes às explosões foi 20 vezes maior que o normal.

O jornal inglês The Guardian afirma que essa informação constava no site da administração local de Severodvinsk, mas ela foi retirada do ar minutos depois.

Outra informação que o jornal inglês afirma que foi retirada do site da administração local é a que orientava os moradores a comprar e ingerir iodo para proteger a tireóide da absorção da radiação liberada pelo acidente em Nenoksa.

As informações oficiais acerca do evento, que vinham sendo dadas até então pelo Ministério da Defesa, passaram a ser dadas pela Rosatom, companhia estatal russa de energia nuclear. O número de mortos, que era dois, virou cinco.

Os funcionários mortos, inicialmente identificados como prestadores de serviço, foram referidos a partir de então como cientistas nucleares importantes, dignos de condecorações póstumas.

Por fim, a baía na qual ocorreu a explosão, na costa russa do Mar Branco, foi fechada por um mês, o que alimentou especulações de contaminação por material radioativo, ou de que os militares estejam preocupados em recuperar peças que possam ter sido lançadas com a explosão.

Os mísseis ‘invencíveis’ da Rússia

Na semana que se seguiu às explosões em Nenoksa, a imprensa, sobretudo dos EUA e do Reino Unido, começou a ouvir especialistas em assuntos militares e em energia atômica para tentar determinar as possíveis causas e consequências do ocorrido.

A maioria das análises convergia para a possibilidade de um acidente envolvendo experimentos com o combustível nuclear usado na propulsão de um novo tipo de míssil, chamado pelos russos de 9M730 Burevestnik e pelas potências da Otan (Aliança do Tratado do Atlântico Norte) de SSC-X-9 Skyfall.

Esse novo tipo de míssil usa uma fonte própria de propulsão capaz de mantê-lo navegando por período indefinido.

O Burevestnik foi apresentado publicamente pela primeira vez pelo presidente Vladimir Putin em seu pronunciamento anual à nação. Nesse discurso, Putin apresentou o Burevestnik como um novo tipo de míssil “invencível”.

A suposta invencibilidade desse míssil está ligada ao fato de que ele pode viajar a altíssima velocidade, em baixa altitude, desviando de maneira autônoma de todo tipo de obstáculo e mantendo-se fora do alcance da detecção dos sistemas atuais de radar.

Além disso, dizem os especialistas, todo o sistema de bloqueio de ataques desenvolvido pelos EUA está formatado para conter ameaças vindas de grandes altitudes, em faixas nas quais navegam os tipos de mísseis de longo alcance existentes hoje. Ao navegar em baixa altitude, essa nova geração de mísseis russos pode tornar o investimento americano, a partir de agora, obsoleto.

“Com o míssil lançado e uma série de testes de solo concluída, nós agora podemos proceder à construção de um novo tipo de arma fundamentalmente diferente”, anunciou Putin em seu discurso em 2018.

Ecos da Guerra Fria

Os EUA também tentaram desenvolver um tipo de míssil com essas características durante a Guerra Fria (1945-1991), mas o alto custo do projeto e as limitações tecnológicas de então tornaram o projeto inviável.

Ainda há dúvidas se a Rússia de fato conseguiu dominar com êxito essa tecnologia, apesar do alarde do anúncio feito há um ano por Putin. Essas dúvidas foram reforçadas depois do acidente em Nenoksa.

Seja como for, os dois países já vivem um ambiente de corrida armamentista, no qual uma potência tenta sempre manter-se um passo à frente da outra, numa escalada militar.

No dia 2 de agosto, Rússia e EUA retiraram-se efetivamente de um dos principais tratados que, desde 1987 regulavam a construção de mísseis de médio alcance.

O documento - assinado pelo americano Ronald Reagan e pelo líder soviético Mikhail Gorbachev - foi, durante os últimos 32 anos, um dos pilares de contenção de uma guerra atômica entre as duas potências.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris.

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