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As novas medidas econômicas de Macri. E a corrida pela eleição

Derrotado nas primárias, Macri anunciou medidas na economia para tentar recuperar eleitores. Mas depois recuou no congelamento dos preços dos combustíveis

     

    No domingo (11), a Argentina realizou o primeiro pleito da disputa presidencial de 2019. O atual presidente, Mauricio Macri, sofreu uma dura derrota para Alberto Fernández, que tem como vice de chapa a ex-presidente Cristina Kirchner. A expectativa antes da votação era um resultado equilibrado — as pesquisas apontavam um empate técnico entre os dois principais candidatos. Mas as urnas revelaram uma vantagem de 15 pontos percentuais de Fernández sobre Macri.

    Nos primeiros dias após as primárias, a reação dos mercados foi violenta. A bolsa argentina despencou e o dólar disparou. Na quarta-feira (14), o presidente anunciou medidas para estimular a economia argentina. O aumento do salário mínimo e os incentivos a trabalhadores indicam que Macri está disposto a abandonar a austeridade para vencer as eleições. O congelamento de preços de combustíveis chegou a ser anunciado, mas o governo recuou, nesse ponto específico, 11 horas depois.

    As reações do mercado às urnas

    As primárias argentinas não têm influência direta sobre o resultado final das eleições e servem na prática como uma pesquisa de intenção de voto com tamanho similar ao da votação final. Mesmo assim, a distância de 15 pontos percentuais entre Fernández e Macri alarmou investidores, que reagiram violentamente.

    Nos dias que seguiram a eleição primária na Argentina, os mercados despencaram: no primeiro dia útil da semana, a bolsa caiu 37%. A queda representa um dos piores dias dos mercados financeiros argentinos desde 2001.

    Entre a abertura do mercado na segunda-feira (12) e o fechamento na terça-feira (13), o dólar passou do valor de 45,25 pesos argentinos para 55,57. A variação em dois dias foi de pouco mais de 22%. Em reação aos movimentos bruscos do mercado financeiro, o Banco Central argentino elevou a taxa de juros para acima de 70%.

    A preocupação dos agentes do mercado com a situação política argentina passa pelo temor da volta do kirchnerismo ao poder, com a possível vitória de Alberto Fernández nas eleições.

    As propostas do candidato representariam uma mudança na diretriz da política econômica argentina. Enquanto a campanha de Macri adota um discurso liberal e austero, Fernández deixa claro que seguirá uma linha intervencionista, priorizando os salários dos trabalhadores e o crescimento do país — o programa de governo não detalha como serão feitos incentivos à atividade econômica.

    Além disso, o candidato que atualmente lidera a corrida presidencial já deu declarações que desagradaram ao mercado: ele levantou a possibilidade de não pagar rendimentos de títulos do Banco Central e transitou de uma posição de contundência para um tom de cautela com relação à situação política da Venezuela.

    Um dos temas que mais causam receio é a situação da dívida pública do país. Em junho de 2018, a Argentina fechou um acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional) por um empréstimo da ordem de US$ 50 bilhões — o valor foi ampliado para US$ 57 bilhões em setembro.

    A forte desvalorização cambial faz com que as dívidas contraídas em dólar fiquem ainda mais caras para o governo.

    Macri afirma ter o compromisso de manter as contrapartidas do acordo, fundamentadas em princípios de austeridade fiscal. Fernández, por sua vez, diz que irá tentar renegociar o prazo do empréstimo, que atualmente vai até 2021. Por mais que reitere que pretende pagar o que o país deve ao FMI, o discurso do opositor desperta temor nos agentes do mercado.

    A resposta de Macri. E a indefinição do pacote

    O pronunciamento de Macri na manhã de quarta-feira (14) começou com um pedido de desculpas pela entrevista coletiva dada na segunda-feira (12), em que, mal-humorado, ele atacou a oposição e culpou o kirchnerismo (e seus respectivos eleitores) por muitos dos problemas enfrentados pela Argentina.

    Em seguida, o presidente anunciou medidas “de alívio” para os trabalhadores argentinos, acenando para o abandono temporário da austeridade. O pacote sinalizou que Macri está disposto a lançar mão de ações para melhorar o desempenho econômico no curto prazo e vencer as eleições. Entre as principais medidas anunciadas estão:

    • Aumento do salário mínimo
    • Cortes no imposto de renda
    • Aumento do subsídio para pessoas com baixa renda
    • Incentivos fiscais para pequenas e médias empresas

    O congelamento do preço de combustíveis por 90 dias, que constava do pacote inicial, foi suspenso. Um comunicado da secretaria de Energia, divulgado na quarta-feira (14) à noite, dizia: “por conta das queixas das petrolíferas, teremos que abrir uma nova rodada de diálogos e continuar conversando”.

    O custo estimado do pacote inicial era da ordem de 40 bilhões de pesos argentinos — diante da instabilidade da cotação do dólar, o valor deve girar em torno de US$ 700 milhões.

    A ideia de impulsionar a economia a partir de incentivos fiscais em um momento de crise desagradou a investidores. Após abrir com uma leve alta na quarta-feira (14), a bolsa argentina apresentou queda de mais de 3% até 16 horas. O dólar, por sua vez, continuou a trajetória de alta, beirando a cotação de 60 pesos por volta do mesmo horário.

    A tendência é que a instabilidade econômico-financeira na Argentina continue pelo menos até o primeiro turno da eleição presidencial. O pleito está agendado para 27 de outubro.

    A crise argentina sob Macri

    Desde que Macri assumiu a presidência, em dezembro de 2015, a Argentina vem enfrentando graves problemas econômicos e financeiros.

    O país passa por uma recessão. O PIB (Produto Interno Bruto) encolheu 2,51% em 2018 e continuou em queda no primeiro trimestre de 2019. No início de 2019, o desemprego ultrapassou a marca de 10% pela primeira vez desde 2006.

    A primeira medida de Macri foi abrir o mercado de câmbio, que era mantido sob regime de restrição no governo da antecessora, Cristina Kirchner. A alta gradual do preço do dólar levou a uma crise cambial em 2018 e não apresentou melhora em 2019.

    O CÂMBIO SOB MACRI

     

    Junto com a crise cambial, a Argentina também enfrenta uma escalada inflacionária. Desde que Macri chegou à Casa Rosada, o país passou por momentos de avanço dos preços. Cristina Kirchner já havia encarado o aumento da inflação em 2012, mas não nos mesmos patamares do que ocorre desde o final de 2018. A partir dos últimos meses do ano passado, a inflação ultrapassou a marca de 50% acumulados em 12 meses.

    O atual mandatário chegou a abandonar a cartilha liberal e congelou preços no primeiro semestre de 2019, mas não teve sucesso no controle inflacionário.

    ESCALADA INFLACIONÁRIA

     

    Após as primárias de domingo (11) e a consolidação da polarização política, surgiu a expectativa de que a inflação suba no curto prazo, revertendo a trajetória de queda observada nos últimos três meses.

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