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Quais as inspirações reais para a série Years and years

Produção da BBC em parceria com a HBO mostra uma extrapolação da conjuntura sociopolítica atual

    “Years and years” é uma série coproduzida pela BBC e pela HBO. Sem muita divulgação, o seriado ganhou o público no boca a boca, com um aumento de buscas no Google Brasil entre junho e agosto de 2019, período em que foi transmitida no país pela HBO, chegando simultaneamente ao serviço de streaming HBO Go.

    A série gira em torno da família Lyon, mostrando a vida de seus membros entre 2019 e 2034, em seis episódios e sem a possibilidade de uma segunda temporada. O ritmo do desenrolar dos fatos, portanto, é acelerado.

    O primeiro episódio acontece no tempo presente, com o surgimento de Vivienne Rook (Emma Thompson), uma executiva que se torna figura política no Reino Unido ao emitir declarações controversas, às vezes absurdas, que acabam criando uma imagem de autenticidade em torno dela, de alguém que diz o que pensa.

    “Years and years” então vai avançando os anos a cada capítulo e mostrando como a ascensão de Rook e a conjuntura sociopolítica delicada do planeta, de ascensão dos extremos, afeta os membros da família Lyon.

    Dentre os eventos mostrados na série estão o agravamento das mudanças climáticas, o colapso de grandes economias, as questões de imigração e a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China acabando num ataque nuclear após decisão de um Donald Trump já reeleito.

     

    Para Marília Fiorillo, professora de filosofia política e retórica da Escola de Comunicações e Artes da USP, a série “supera e profetiza a realidade” de maneira superlativa. Em sua coluna na Rádio USP, Fiorillo diz que “Years and years” aparentemente é “a saga de um mundo agonizante que já não tem jeito”, mas que consegue sair de um cenário distópico para uma realidade utópica quando leva em conta o fator humano.

    O que a ficção usou da realidade, segundo o autor

    A série foi criada por Russell T. Davies, roteirista com experiências prévias no gênero da ficção científica, tendo escrito “Doctor Who” e sua derivada “Torchwood”.

    Em entrevista à revista Variety, Davies afirmou que queria escrever uma série sobre o declínio sociopolítico do mundo, “desde antes dele começar”. Para que o público se relacionasse com a trama, o roteirista optou por usar uma família como o ponto fixo pelo qual toda a narrativa se desenrola.

    “Recentemente minha sobrinha completou 23 anos, e nós lembramos de seu aniversário de 21 anos, só há dois anos atrás”, disse, na mesma entrevista. “Mas olhando para esses dois anos, em uma foto com 12 pessoas, uma morreu, outra se divorciou e uma foi banida. Em dois anos, veja o que aconteceu em uma família estável. Uma família é uma grande arena para todas as emoções, os nascimentos, mortes e casamentos. Todas essas histórias. A série fala sobre essas mudanças sísmicas na sociedade, mas a família é a constante”, acrescentou.

    Conversando com o jornal britânico Sunday Express, Davies revelou que começou a desenvolver “Years and years” assim que Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, em novembro de 2016. O líder americano foi uma das bases para a criação de Viviene Rook, bem como Boris Johnson, atual primeiro-ministro do Reino Unido, e Nigel Farage, membro do Parlamento Europeu e líder do Partido do Brexit.

    “Vivienne é uma pessoa que sabe o que está fazendo. É uma golpista moderna que sabe jogar com a máquina da mídia. Ela é Trump, Johnson, Farage”, disse o criador da série.

    Apesar da inspiração em figuras políticas, Davies afirmou à Variety que Rook também é um retrato da sociedade. “Ela é todos nós, quando tomamos uma decisão hostil, quando praticamos aquela simples atitude racista, aquela simples exclusão do outro. É a linha que cruzamos. É fácil olhar para Vivienne e dizer que ela é uma dessas figuras insanas ou extremas, mas ela é um retrato de nós mesmos e como permitimos esse tipo de coisa”, afirmou.

    Além da figura de Rook, Davies utilizou eventos reais para conduzir a trama de “Years and years”, na maioria dos casos a partir de uma extrapolação da realidade atual.

    No mundo da série, o Brexit (saída do Reino Unido do bloco da União Europeia) já se consolidou, Trump foi eleito para um segundo mandato e aproveitou seus últimos dias no cargo para lançar um míssil nuclear em uma ilha chinesa, a crise dos refugiados se agravou no mundo todo e crises econômicas causaram o colapso de nações como a Ucrânia e a Hungria.

    As questões sociopolíticas são ponto importante de “Years and years”, mas a série também traz discussões acerca da relação da humanidade com a tecnologia. Enquanto “Black Mirror”, da Netflix, mostra os perigos do uso excessivo de dispositivos digitais no cotidiano, a série da HBO aposta, em sua reta final, na retratação de uma realidade em que a ciência e a tecnologia consolidaram o próximo estágio da evolução humana, ideia principal da corrente de pensamento do transhumanismo.

    O transhumanismo se fundamenta na ideia de que a humanidade no estágio atual não representa o estágio final do desenvolvimento da espécie, e sim uma de suas fases iniciais. A corrente deseja usar a ciência e a tecnologia para retardar o envelhecimento e melhorar as capacidades físicas e psíquicas dos seres humanos, ao mesmo tempo em que discute as questões éticas relacionadas a esse desenvolvimento.

    A cena final da série, que consolida essa ideia, estava na mente de Davies há 25 anos, segundo o próprio, em entrevista ao site Digital Spy.

    No Rotten Tomatoes, site que agrega críticas de séries e filmes de alguns dos principais veículos do mundo, “Years and years” está com uma taxa de aprovação de 88%.

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