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Do combate à corrupção à vitória conservadora na Guatemala

Em meio a ‘super Lava Jato’ que já dura 13 anos, sucessor de ex-comediante na Presidência promete combater o crime com ‘testosterona’

 

Alejandro Giammattei, do partido Vamos, de direita, foi eleito presidente da Guatemala, neste domingo (11), com 57,95% dos votos. A posse será no dia 14 de janeiro de 2020, para um mandato de quatro anos, sem direito à reeleição.

Essa foi a quarta vez que Giammattei disputou uma eleição presidencial na Guatemala. Sua vitória veio numa disputa marcada pelo cansaço e o pelo descrédito dos eleitores. O índice de abstenção foi de mais de 57%. O voto não é obrigatório no país.

A candidata derrotada no segundo turno foi Sandra Torres, social-democrata que terminou a disputa com 42,05%. Ela havia sido primeira-dama entre 2008 e 2011 e foi candidata à presidência em 2011 e em 2015 — nesta última, foi derrotada por Jimmy Morales, o atual presidente.

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O resultado dessas eleições na Guatemala tem significados e consequências internacionais. Giammattei alinha-se ao grupo de políticos de extrema direita — como Jair Bolsonaro no Brasil e Rodrigo Duterte nas Filipinas — que consideram os direitos humanos um empecilho para o combate à criminalidade. Giammattei defende a pena de morte e diz que o crime será debelado do país com mais “testosterona” na presidência. Ele também se opõe ao casamento gay e ao aborto.

Ciclo de combate à corrupção, fadiga e conservadorismo

Pelo menos três elementos políticos da Guatemala têm paralelos com o Brasil atual. Em primeiro lugar, os dois países viveram recentemente as maiores operações anticorrupção de suas histórias. Em segundo, ambos viveram uma onda de indignação e fadiga com os políticos tradicionais. Por fim, os dois elegeram políticos conservadores, críticos dos avanços obtidos na área dos direitos humanos e adeptos de um discurso violento, de repressão e de força.

Lava Jato da Guatemala

A operação contra a corrupção na Guatemala foi mais extensa e intensa do que a operação Lava Jato no Brasil, embora as dimensões do país da América Central sejam muito menores. Lá, a ação também foi coordenada por uma força-tarefa.

A investigação guatemalteca, que já dura 13 anos, foi reforçada com a presença de investigadores internacionais sob os auspícios da ONU (Organização das Nações Unidas). Foi criada a Cinig (Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala), com superpoderes para perseguir judicialmente políticos, procuradores, juízes, policiais e militares envolvidos com o crime organizado.

O próprio presidente eleito, Giammattei, passou 10 meses na cadeia em 2010, acusado de participação em execuções extrajudiciais no sistema carcerário do país, do qual ele foi diretor de 2005 a 2007.

Giammattei acabou solto por falta de provas. O caso que o levou à prisão se referia a operações antimotim da polícia dentro de unidades prisionais da Guatemala. De acordo com a acusação, o agora presidente eleito foi membro de uma estrutura paralela ao Estado, formada por policiais e por ex-policiais, para executar membros de gangues dentro dos presídios.

A devassa que essa “super Lava Jato” provocou foi tão incômoda para a classe política, que o atual presidente, Jimmy Morales, determinou que os investigadores estrangeiros deixem o país e a operação seja concluída em 3 de setembro. Giammattei não se opôs à medida e disse que manterá a data.

Fadiga e protesto

A superoperação de combate à corrupção na Guatemala teve início com uma enorme pressão popular. Assim como no Brasil, a desconfiança dos eleitores com seus políticos tornou-se profunda e favoreceu o surgimento dos chamados “outsiders” na política.

Em 2015, foram presos o ex-presidente Otto Pérez Molina e a vice-presidente Roxana Baldetti. Ambos foram acusados de roubar 50% de toda a receita alfandegária do país.

Nesse mesmo ano de 2015, o comediante Jimmy Morales foi eleito presidente. Essa eleição foi marcada pela fadiga e pelo voto de protesto. Morales foi apresentado no Brasil como o “Tiririca da Guatemala”. Sua vitória ocorreu numa disputa na qual o índice de abstenção foi de 57% — mesmo índice da eleição vencida agora por Giammattei.

Já no governo, Morales — o outsider que se apresentava como renovador — terminou, ele mesmo, investigado por suspeita de financiamento ilegal da campanha de 2015. Foi nesse ponto que o governo decidiu ameaçar os investigadores internacionais de expulsão.

Ascensão conservadora

O terceiro e atual estágio desse ciclo está marcado pela ascensão de Giammattei — um médico de formação que ocupou postos importantes na administração pública nacional antes de tornar-se presidente. Seu discurso violento e de desprezo pelos direitos humanos pode ser comparado ao de Bolsonaro no Brasil.

A Guatemala é, no entanto, mais violenta que o Brasil. O país faz parte, junto com Honduras e El Salvador, do chamado Triângulo Norte, que lidera o índice mundial de homicídios.

A aposta em políticas do tipo linha-dura já se mostrava latente quando da eleição de Jimmy Morales. Apesar de seu passado como comediante politicamente inofensivo, sua candidatura ocorreu pela Frente de Convergência Nacional/Movimento Nação, que teve como origem um clube de militares que se uniram para impedir que a Justiça os julgasse por crimes contra os direitos humanos cometidos na guerra civil guatemalteca, que durou de 1960 a 1996.

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