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A influência de Sócrates nos nomes dos Pokémon

Pesquisadora apresenta artigo que mostra como a ideia do simbolismo sonoro se apresenta na nomenclatura dos monstrinhos japoneses

 

Sócrates foi um filósofo que viveu na Grécia entre 469 e 399 a.C. Pokémon é uma franquia de jogos, animações e filmes que surgiu no Japão em 1996.

Por mais distantes histórica e geograficamente, esses dois elementos possuem uma conexão entre si: os pensamentos do grego possuem relação indireta com a nomenclatura dos monstrinhos japoneses, segundo um artigo publicado no blog do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade de Campinas.

A autora do texto é Mahayana Godoy, doutora em linguística pela Unicamp e professora do departamento de letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Ela coordena o Laboratório de Estudos Experimentais em Linguagem da UFRN. No artigo, ela apresenta o conceito de simbolismo sonoro, que une as ideias de Sócrates com os Pokémon.

O estudo do simbolismo sonoro tem base na pergunta “por que as coisas têm o nome que têm?”. Em “Crátilo”, diálogo escrito por Platão, Sócrates argumenta que determinados sons evocam certas características do mundo, com o fonema da letra “a” sendo associado a objetos grandes, enquanto o fonema da letra “o” estaria associado a objetos redondos.

O simbolismo sonoro e os Pokémon

No diálogo de Crátilo, Sócrates afirma que alguns sons estão associados ao tamanho dos objetos descritos. O “a” estaria relacionados a objetos grandes, e o "i" a objetos pequenos. Evidências recentes demonstraram que os sons de "d" e "g" também estão associados a objetos grandes.

Uma das hipóteses para a explicação de tal fenômeno é a Hipótese de Codificação em Frequência. Por esse pensamento, o ser humano está apto a determinar o tamanho de um objeto pelo ruído emitido por ele. Godoy cita o exemplo de cães: uma pessoa de olhos vendados consegue estimar o tamanho de um cachorro por meio do latido emitido por ele.

Na franquia Pokémon, os monstrinhos evoluem, ficam mais fortes, poderosos e, na maioria das vezes, maiores. É o caso de Charmander, uma pequena criaturinha flamejante que se torna Charmeleon — um monstrinho similar, mas um pouco maior — e depois, finalmente, se torna Charizard, um grande dragão que cospe fogo.

A autora decidiu conduzir um experimento para relacionar a noção de tamanho ao simbolismo sonoro em falantes da língua portuguesa, usando as criaturinhas como ponto de partida. Isso já havia sido feito anteriormente pelo pesquisador japonês Shigeto Kawahara, da Universidade Metropolitana de Tóquio. Kawahara colaborou com o experimento de Godoy.

Cerca de 300 pessoas participaram do experimento brasileiro. Foram apresentados Pokémon novos, não mostrados na franquia, criados e desenhados pela ilustradora toto-mame. As criaturas eram apresentadas em diversos estágios de suas evoluções e os entrevistados precisavam criar um nome para os monstrinhos.

Houve uma preponderância da vogal “i” nos Pokémon menores, no primeiro estágio de evolução. Eles foram batizados com nomes mais curtos. Já para os Pokémon evoluídos e de maior porte, os nomes trouxeram uma maior incidência do som “a”, em nomes mais longos.

Resultados similares foram encontrados na pesquisa de Kawahara, que realizou o mesmo processo com falantes da língua japonesa, que possui uma estrutura bem distinta da construção linguística do português.

Kawahara afirma que o entendimento do simbolismo sonoro nos nomes de Pokémon pode ser uma ferramenta educativa em aulas básicas de fonética e de psicologia.

A relação entre som e símbolo

Ferdinand de Saussure, considerado o pai da linguística moderna, estabelece a ideia de signo linguístico.

Os signos linguísticos são formados por um significado, um objeto, fenômeno ou conceito; e o significante, que é a cadeia de sons usada para se designar o significado.

O estudo do simbolismo sonoro é a pesquisa que busca entender a relação existente entre o som significante e o significado. Em artigo publicado pela Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, o linguista Michael Gasser apresenta um sistema pelo qual se estabelecem os signos linguísticos.

Esse sistema de nomenclatura pode batizar os significados de duas formas: por significantes absolutos, como imitação sonora, ao exemplo do uso infantil da palavra “au-au” para se referir aos cães; e significantes relativos, que dependem da forma, concreta ou abstrata, daquilo que será significado.

Há também aqueles signos linguísticos que surgem de maneira arbitrária, sem um motivo determinado para a associação feita entre o significado e o significante.

A linguista Mustumi Imai, professora da Universidade de Keio, argumenta em um artigo que o simbolismo sonoro é peça fundamental para o aprofundamento das pesquisas relacionadas à aquisição de linguagem, que estudam os processos presentes no processo de aprendizagem da língua materna em crianças.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão desse texto apontava que em "Crátilo", Sócrates afirmou que os sons do  “d” e o “g” estariam relacionados a coisas grandes. A informação estava imprecisa. Sócrates se limitou a falar sobre a noção de tamanho relacionada ao som "a". Os estudos que falaram sobre o simbolismo sonoro do "d" e do "g" são contemporâneos. A informação foi corrigida às 14h19 do dia 13 de agosto de 2019.

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