O projeto que quer preservar a era de ouro da música gospel

Gênero ligado a igrejas protestantes dos Estados Unidos floresceu entre 1945 e 1975, mas estima-se que 75% do material gravado na época esteja perdido

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    Ligada a igrejas protestantes negras dos Estados Unidos, a música gospel é um importante pilar da música popular daquele país. Sem gospel não haveria soul, R&B, disco ou a “missa de domingo” realizada pelo rapper Kanye West no festival de Coachella, em abril de 2019.

    Para estudiosos dessa manifestação, o período entre 1945 e 1975 é considerado a “época de ouro” do gospel. Foi quando floresceu o “gospel moderno”, que incorporava “as palavras do domingo de manhã à música do sábado à noite”. Artistas essenciais do estilo se desenvolveram nessa época, como Mahalia Jackson, Sister Rosetta Tharpe e o Reverendo C. L. Franklin (ouça abaixo), pai da cantora Aretha Franklin.

    A música gospel negra tem suas raízes em sonoridades brancas e negras do século 19, incluindo os “spirituals” negros, que são canções de escravos, e hinos religiosos europeus

    Foi durante essa fase que a música também ganhou relevância política ao servir como ferramenta de motivação e engajamento para a luta pelos direitos civis, que combateu leis e práticas segregacionistas nos EUA. Muitos dos líderes e porta-vozes do movimento eram pastores e reverendos, incluindo o batista Martin Luther King Jr.

    Apesar da relevância da produção desse período, estima-se que 75% do material gravado esteja perdido. Para tentar recuperar esse acervo, o pesquisador Robert Darden, autor de três livros sobre música gospel, fundou um projeto de restauração em 2007.

    O Black Gospel Music Restoration Project foi desenvolvido na Universidade de Baylor, em Waco, Texas, onde Darden é professor de jornalismo. A instituição tem ligação com a Igreja Batista.

     

    O projeto tem como objetivo maior preservar e armazenar uma cópia física e digital de todas as músicas lançadas por cada artista ou grupo de gospel negro durante as três décadas. O material ficará disponível online, com áudio e informações sobre cada gravação. Entretanto, por questões de direitos autorais, nem todas as músicas podem ser executadas no site. Nesses casos, pesquisadores interessados podem contatar a instituição para ter acesso às músicas.

    A coleção conterá discos em 45 e 78 rotações, álbuns e diferentes formatos de fita lançados nos EUA e no exterior. Além disso, materiais promocionais, áudios de entrevistas, fotografias, clipagens de imprensa, objetos e partituras também farão parte do acervo.

    Por que as obras têm difícil acesso

    De acordo com Darden, uma série de fatores explica o desaparecimento de tantas obras. “Um é o racismo, o outro é econômico”, afirmou ao site Oxford American. Segundo o autor, muitas gravadoras detêm os direitos de várias dessas obras, mas não consideram que seu relançamento seja financeiramente compensador.

    Nas décadas de 1960 e 70, o fator religioso também contribuiu para que o material não despertasse interesse. “Quando eu era novo, sempre havia na vizinhança caras com camisas brancas e gravatas pretas querendo falar com você sobre Jesus. E você queria ir na direção oposta a esses caras… para quem não conhece, o gospel assusta um pouco”, teria dito um pesquisador a Darden.

    A música gospel negra tem suas raízes em sonoridades brancas e negras do século 19, incluindo os “spirituals” negros, que são canções de escravos, e hinos religiosos europeus. “A fusão de ideias rítmicas africanas com ideias musicais ocidentais estabeleceu as bases para um gênero de música afro-americana, em particular, os spirituals e, mais tarde, as canções gospel”, definiu Robert Stephens, professor de música da Universidade de Connecticut, em artigo de 2018.

    No Brasil, o termo “gospel” foi apropriado por seguidores de igrejas evangélicas para designar músicas de qualquer estilo que tenham uma mensagem religiosa. Daí a existência no país de rock gospel, rap gospel, sertanejo gospel, entre muitas outras variações.

     

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