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O olhar da fotógrafa Alice Brill sobre a São Paulo dos anos 50

Alemã desafiou o retrato oficial dos “anos dourados” da cidade com imagens que mostravam o cotidiano de pessoas comuns

    Foto: Alice Brill/Acervo Instituto Moreira Salles
    São Paulo, sem data
     

    Como muitos na mesma época, a alemã Alice Brill (1920-2013) chegou ao Brasil em 1934 para escapar do nazismo. Ela se firmou como fotógrafa de arquitetura e obras de arte entre 1948 e 1960, quando trabalhou na revista especializada Habitat.

    Em 1954, a cidade de São Paulo completaria 400 anos. Pietro Maria Bardi (1900-1999), então diretor do Masp (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), encomendou à artista um trabalho fotográfico sobre a cidade, que seria publicado em livro.

    Foto: Alice Brill/Acervo Instituto Moreira Salles
    Realejo na praça do Patriarca, c. 1953, São Paulo
     

    A publicação nunca se concretizou. Ainda assim, o trabalho de Brill legou um registro ímpar do cotidiano de São Paulo na década de 1950, que contrasta com a visão da cidade apresentada por outras publicações ilustradas produzidas naquele momento.

    São Paulo, 1954

    “Exaltação do futuro!”, foi a manchete comemorativa do jornal O Estado de S.Paulo em 25 de janeiro de 1954, data do quarto centenário.

    O olhar otimista para o que estava por vir refletia não só os “anos dourados”, como ficou conhecido o período que o país atravessava na época, como as intensas transformações urbanas e econômicas pelas quais a cidade havia passado nas décadas anteriores.

    Foto: Alice Brill/Acervo Instituto Moreira Salles
    Edifício Conde Prates (em construção), entre o Vale do Anhagabaú e a rua Libero Badaró, por volta de 1954
     

    Enriquecida pela cafeicultura do século 19, São Paulo aspirava a se tornar um polo de modernidade e cosmopolitismo. Industrializou-se e ganhou seus primeiros arranha-céus no século 20. A ousadia estética e arquitetônica coexistiu com os palacetes dos barões do café e os cortiços habitados por trabalhadores negros e migrantes.

    Na ocasião do aniversário de 1954, uma série de publicações comemorativas ilustradas foram lançadas com o patrocínio do governo do estado e da iniciativa privada. Eram, em geral, álbuns fotográficos que propagandeavam São Paulo como uma metrópole moderna, habitada por uma elite branca, de ascendência europeia.

    A pergunta subjacente a estes álbuns era “como fazer propaganda de uma cidade sem grandes belezas naturais?”, apontou Miguel del Castillo, escritor e atual curador da Biblioteca de Fotografia do Instituto Moreira Salles, em um texto para uma exposição de 2017.

    “Logo se acha a chave: São Paulo é um monumento feito pela hábil mão do homem; é ‘a cidade que mais cresce no mundo’, capital do progresso”, escreveu.

    O olhar de Brill: pessoas comuns e desigualdades

    As fotografias de Alice Brill sobre a capital paulista serão resgatadas pela programação de um seminário realizado em São Paulo de 13 a 15 de agosto de 2019.

    O evento “Fotografia moderna? Fragmentos de uma história (Brasil, 1900-1960)”, do IMS Paulista, conta, entre outros convidados, com a presença da americana Danielle Stewart, doutora em história da arte pela City University of New York, que falará sobre o álbum de Brill para o quarto centenário, nunca publicado.

    Foto: Alice Brill/Acervo Instituto Moreira Salles
    Engraxates, década de 1950, São Paulo  
     

    Stewart falou ao Nexo sobre a imagem de si mesma que São Paulo buscava forjar na década de 1950 e aquela que aparece no olhar particular da alemã sobre a cidade. Formulou, ainda, hipóteses sobre a razão de elas não terem sido publicadas na época.

    O que as fotos de Alice Brill revelam sobre São Paulo nos anos 1950?

    Danielle Stewart O arquivo [fotográfico] de Alice Brill mostra o quanto as ruas de São Paulo eram ricas e vibrantes, não só por causa de todas as novas construções, vias e arranha-céus que estavam transformando a cidade numa metrópole, mas pela diversidade de seus cidadãos.

    Enquanto fotografias da cidade na imprensa focavam na arquitetura e infraestrutura, o foco de Brill eram as pessoas e como  interagiam com a paisagem urbana

    Brill registrou a vida cotidiana de paulistanos de todo tipo — dos abastados e dos despossuídos, de indivíduos de diferentes raças. De certa maneira, ela repovoou a cidade com suas fotos. Enquanto muitas fotografias da cidade [publicadas] na imprensa focavam em sua arquitetura e infraestrutura, o foco de Brill eram as pessoas e como elas interagiam com a paisagem urbana. 

    Ela mostrou estranhos conversando em pontos de ônibus, garis conversando durante uma pausa do trabalho e mulheres negociando com vendedores de rua. Mostrou como a cidade vivia, não só como ela era.

    Amo a fotografia que ela tirou de um grupo de meninos pulando nas fontes próximas ao novo túnel da Avenida 9 de julho. Muitas fotos daquele lugar haviam sido tiradas, salientando o branco cintilante dos arcos e o estilo Art déco. Mas os garotos na foto de Brill roubam a cena e tornam a foto dela especial.

    Em vez de um retrato arquitetônico estéril que presta homenagem aos políticos que fizeram a obra, é uma visão da vida cotidiana na cidade.

    Ela também fotografou crianças pobres com a torre do Banespa ao fundo, forçando espectadores a  levar em conta as grandes diferenças socioeconômicas.

    Foto: Alice Brill/Acervo Instituto Moreira Salles
    Crianças, com edifício Altino Arantes ao fundo, por volta de 1953, São Paulo
     

    Como a fotografia contribuiu para construir uma certa imagem da cidade nessa época?

    Danielle Stewart Do fim dos anos 1930 ao início dos 1940, os governos municipal e estadual de São Paulo, assim como o governo federal e editoras privadas, produziram álbuns fotográficos e revistas ilustradas cheios de fotografias de São Paulo.

    Geralmente, essas publicações promoviam a cidade como a terra dos arranha-céus modernos e a maioria das fotografias trazia prédios do centro da cidade. Fotos aéreas eram muito populares porque mostravam quão dramática a verticalização da cidade tinha se tornado, ao menos no centro.

    A imagem promovida pelos álbuns não era falsa, mas unilateral

    Essas fotos pretendiam difundir São Paulo como uma utopia moderna, um polo comercial e industrial tão cosmopolita quanto [os da] Europa e mais fervilhante do que Nova York. Essas comparações ficavam explícitas nos textos que acompanhavam os álbuns, frequentemente publicados em várias línguas para atrair leitores, turistas e investidores estrangeiros.

    É claro que São Paulo experimentava um crescimento acelerado nas décadas de 1940 e início de 1950, tanto em população quanto em infraestrutura. A imagem promovida pelos álbuns, então, não era falsa, mas unilateral.

    Foto: Alice Brill/Acervo Instituto Moreira Salles
    Filas em pontos de ônibus no vale do Anhangabaú, por volta de 1953, São Paulo
     

    Em um dos álbuns, a torre do Banespa aparece em 10% das imagens. Ela foi (e ainda é) muito importante por ser um dos primeiros arranha-céus da América do Sul, mas é só uma parte da história da cidade, um pequeno ponto em sua paisagem. Também era nesse período que as primeiras favelas da cidade estavam se formando — frequentemente, porque pessoas estavam sendo removidas do centro da cidade para dar lugar a novos projetos como o túnel da Avenida 9 de Julho e o Parque do Ibirapuera.

    Cortiços eram demolidos, mas não havia moradia acessível para substituí-los. Os livros oficiais de fotografia nunca mostraram essa parte da narrativa da cidade.

    Ao receber a encomenda do livro de Bardi, Brill foi instruída a apresentar um ponto de vista diferente em relação aos álbuns que já circulavam ou isso partiu dela?

    Danielle Stewart Brill disse à sua biógrafa, Daniela Alarcon, que Bardi permitiu que ela fotografasse como quisesse — ela apreciou que ele não tenha invadido seu espaço artístico. Embora ela tenha tirado as fotos com o livro dele em mente, elas representam a visão dela sobre a cidade.

     

    Creio que Bardi propôs a ela o projeto do livro porque gostava de suas fotos, as quais já havia publicado na Habitat. Mas não acho que ele tenha dado a ela um roteiro.

    As privações e perseguições que sofreu informaram a maneira como ela fotografava

    Pessoalmente, vejo nas fotos de Brill uma fraternidade e compaixão com os paulistanos que considero únicas. Ela era uma refugiada judia-alemã (seu pai foi morto em um campo de concentração), filha de mãe solo e muito pobre quando chegou ao Brasil.

    Embora ela tenha eventualmente adquirido algum grau de conforto financeiro, acho que as privações e perseguições que sofreu informam a maneira como ela fotografava. Ela sabia qual era a sensação de ser uma “outsider” e tinha empatia pelos paulistanos da classe trabalhadora que encontrava.

    Por que as fotos de Brill nunca foram publicadas?

    Danielle Stewart Esta é uma grande questão — sem resposta. Suspeito que Pietro Maria Bardi se voltou para os seus outros projetos (o Masp, a criação do Instituto de Arte Contemporânea e a revista Habitat) e ficou sem tempo. Ele tinha grandes ambições e, infelizmente, não teve tempo de concretizar todas elas.

    Também é possível que ele tenha chegado tarde demais para conseguir uma editora [que o publicasse], já que o mercado estava ficando saturado de álbuns fotográficos. Ou pode ter percebido que o que tinha a dizer sobre São Paulo não se encaixava na narrativa dominante da imprensa, e desistido de seu projeto.

    Infelizmente, não encontrei documentos que nos deem a resposta certa. Os únicos registros sobre a proposta do livro são depoimentos orais de muitos anos depois, então muitas das informações sobre o projeto se perderam.

    Ainda que eu goste de imaginar como esse álbum teria sido, quais fotos teriam sido selecionadas e o que Bardi teria escrito sobre elas, o mais interessante para mim é poder explorar um arquivo de imagens que não estão tentando promover São Paulo — pelo menos não no sentido econômico — e, em lugar disso, mostram um grande carinho pelos paulistanos. Com Brill, não há orgulho falso ou regionalismo grandiloquente, ela mostra os “defeitos” da cidade e a ama da mesma maneira.

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