Como maratonas de séries prejudicam a saúde e o meio ambiente

Estudos apontam aumento nos riscos de doenças cardiovasculares e maior emissão de gases relacionados ao efeito estufa

As maratonas de séries se tornaram comuns e frequentes com a expansão de serviços de streaming como a Netflix. Conhecidas como binge-watch, as maratonas conseguiram espaço até mesmo no dicionário Merriam-Webster, um dos principais da língua inglesa.

O hábito influenciou a forma como seriados são escritos. Em artigo publicado na revista The Hollywood Reporter, o roteirista e crítico de TV Marc Bernardin apontou que antes do binge-watch as séries eram pensadas em uma progressão semanal da narrativa, com ganchos que faziam com que os espectadores retornassem para o episódio seguinte.

Depois do binge-watch, Bernardin afirma que as séries se tornaram um filme longo dividido em muitas partes, com a trama sendo entregue de uma vez para o público. É o caso de “Westworld”, da HBO, que é definida pelo seu criador, Jonathan Nolan, como “um filme de 10 horas”.

Apesar de as séries serem queridas pelo público, novos estudos apontaram que as maratonas trazem riscos para a saúde dos espectadores e prejudicam o meio ambiente.

Os efeitos da maratona na saúde

Em junho de 2019, a Associação Americana de Cardiologia publicou um estudo que demonstrou que maratonas televisivas aumentam o risco de doenças cardíacas nos afro-americanos em até 50%.

A publicação aponta que o hábito de ficar sentado por mais de quatro horas na frente da televisão é mais prejudicial para a saúde do que um dia inteiro de trabalho sentado em uma mesa de escritório.

Apesar de a pesquisa ter concentrado seus esforços em estudar os efeitos das maratonas nessa população em específico, os autores do estudo apontam que os afro-americanos não são os únicos a se sujeitarem a riscos.

Em 2017, o Instituto Baker de Cardiologia e Diabetes, centro independente de pesquisa na Austrália, publicou um artigo no qual relacionou o hábito de se assistir à televisão por horas com o início de processos inflamatórios que podem culminar no desenvolvimento de tipos de câncer e de doenças cardiovasculares.

Um ano antes, David Spiegelhalter, matemático, professor na Universidade de Cambridge e autor do livro “Sex by numbers” (“O sexo em números”, em tradução livre), afirmou ao site News Corp Australia que o hábito das maratonas se reflete diretamente nas estatísticas que mostram que a atividade sexual está diminuindo ao redor do mundo.

Spiegelhalter disse que, além das maratonas televisivas, o excesso de conectividade e acesso à informação também são causas da diminuição da atividade sexual.

“Estamos sempre checando nossos celulares. Anos atrás, as pessoas faziam sexo quando a TV encerrava as transmissões de noite e não se tinha mais nada para fazer. Até quedas de energia ajudavam”, explicou.

Os efeitos no meio ambiente

A ONG francesa The Shift Project, que advoga em prol de uma economia sustentável, publicou um artigo em julho de 2019 em que apontou que tecnologias digitais emitem cerca de 4% dos gases relacionados ao efeito estufa mundialmente.

A emissão se dá por conta dos servidores e centros de dados onde ficam armazenadas as informações digitais, que necessitam de grandes quantidades de eletricidade, cuja geração está diretamente associada ao fenômeno da mudança climática.

O estudo da ONG demonstrou que 55% das emissões de gases causadas por tecnologias digitais vêm do tráfego de dados. Dentro dessa porcentagem, 80% vêm do streaming de vídeo.

Num quadro comparativo em que analisa os efeitos ambientais decorrentes de serviços de streaming de filmes e séries, a ONG indica que as emissões de gases-estufa proporcionadas por plataformas como a Netflix e a Amazon Prime Video em um ano equivalem às emissões totais de gases no Chile. 

Ao abrir o leque, incluindo no cálculo, além de empresas como a Netflix, os efeitos do streaming total de vídeos no mundo — o que inclui mídias reproduzidas em redes sociais como o YouTube e o WhatsApp —, os resultados apresentados pela pesquisa foram além. Em 2018, foram 300 megatoneladas de dióxido de carbono (CO2) despejadas na atmosfera, o mesmo volume de gases emitidos por toda a Espanha naquele ano. 

A ONG apresenta o dado de que o streaming de um filme de duas horas emite 6 Kg de CO2 na atmosfera, enquanto o uso de um carro para ir ao cinema em cinco pessoas emitiria metade disso.

Em 2011, as emissões de CO2 na atmosfera decorrente do streaming de vídeos eram de 130 megatoneladas, segundo levantamento feito em 2014 pela Universidade de Berkeley.

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