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A greve dos caminhoneiros de 2018 vista por este documentário

Filmado em um dos pontos de paralisação em Seropédica (RJ), ‘Bloqueio’ mostra como temas do período eleitoral e do governo Bolsonaro apareceram na paralisação

Na noite de 26 de maio de 2018, os cineastas Victória Álvares e Quentin Delaroche se dirigiram a Seropédica, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Era o sexto dia da greve promovida por caminhoneiros de todo o Brasil. 

Lá estava um (entre centenas) dos pontos de bloqueio em rodovias promovidos pelos manifestantes: a dupla desejava registrar o que reconheceu como um momento histórico. 

A greve teve como estopim o aumento do preço do diesel. Vinha bloqueando estradas por todo o país, provocando desabastecimento e impactando vários setores da economia.

“Era tudo muito confuso, a gente não estava entendendo o emaranhado de narrativas que coexistiam ali. Fomos guiados por uma intuição, por muitas perguntas e sentimentos, mas principalmente por um grande desejo de ouvir”, disse Victória Álvares ao Nexo.

Foi um cronograma atípico para um filme. Álvares e Delaroche gravaram durante três dias, reuniram nove horas de material, editaram o documentário rapidamente e o lançaram ainda antes das eleições presidenciais de outubro de 2018.

“Bloqueio” fez sua estreia em setembro de 2018, no Festival de Brasília. Em abril e maio de 2019, ganhou novas exibições em São Paulo, Rio de Janeiro e no Distrito Federal, na Mostra do Filme Livre. No fim de julho de 2019, teve sessões no Instituto Moreira Salles, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

 

Para os diretores, o título representa tanto os bloqueios físicos nas estradas quanto a dificuldade de dialogar em um momento de polarização política. “‘Bloqueio’ é um filme sobre a falta de diálogo”, disse Delaroche ao Nexo em setembro de 2018.

O que o filme revela

Em contraste com a abordagem distanciada que marcou a cobertura televisiva da greve — focada nos prejuízos da paralisação e quase sempre filmada de cima, em tomadas aéreas — o documentário se aproxima dos caminhoneiros, revelando a polifonia de seu discurso e o cotidiano dos dias finais da paralisação.

Essa proximidade também aparece na forma do documentário: pessoas e situações são filmadas de perto, com muitos planos fechados nos rostos, e falam para a câmera, traduzindo uma relação de confiança criada entre equipe e manifestantes.

Ao transportar o espectador para a porção da greve que ocorreu em Seropédica, o filme permite compreender a organização — essencialmente horizontal —, as reivindicações e as contradições do movimento dos caminhoneiros.

Os ingredientes do Bolsonarismo na greve

Em maio de 2018, Jair Bolsonaro ainda não era um candidato favorito à presidência. Vários dos “ingredientes” de sua campanha e mesmo algumas pautas de governo, no entanto, já estavam desenhados no cenário da greve, segundo mostra o filme.

Notícias falsas, o Whatsapp como veículo fundamental de mobilização e difusão, discurso anticorrupção, acusação de fraude nas urnas, “Brasil acima de tudo”, exaltação da ditadura, pedidos de intervenção militar e presença evangélica fizeram parte do caldeirão político da greve dos caminhoneiros.

Também estavam presentes a discussão sobre o porte de armas e a reivindicação do aumento da tolerância de pontos na CNH, que se tornaram promessas de campanha e em seguida medidas do governo Bolsonaro.

Não é possível afirmar, no entanto, que a agenda dos caminhoneiros tenha “inspirado” o candidato ou o presidente Bolsonaro: vários desses temas já faziam parte de sua trajetória política.

“A gente não acha que o filme explica o resultado das eleições mas, talvez, que evidencia certos aspectos que estariam presentes [no período eleitoral]”, disse Quentin Delaroche ao Nexo. “Depois dos dias que passamos no bloqueio, ficou claro para nós que havia um grande mal-estar social e que isso provavelmente iria repercutir nas eleições. A campanha eleitoral começaria algumas semanas depois da greve.”

Os diretores identificaram, durante a greve, “uma dificuldade flagrante” da esquerda em se conectar com as bases, algo que consideram ter sido parte do período eleitoral em 2018.

“Não existe um trabalhador perfeito, ideal, sindicalizado, que reivindica todas as pautas progressistas. Apesar de querer bem-estar social, ele pode defender muitos caminhos para atingir isso. Se a esquerda quer disputar esses trabalhadores e voltar ao poder, ela tem que se questionar e aprender a dialogar com essas pessoas”, disse Delaroche.

A relação com o exército

Uma faixa branca com a palavra “#intervenção” escrita com spray vermelho ocupa o canteiro central da rodovia. Está presa a duas hastes, com uma bandeira do Brasil presa no topo, e aparece algumas vezes em “Bloqueio”.

 

Outros cartazes também traziam o pedido de intervenção militar, que já havia sido feito por parte dos manifestantes nos atos contra Dilma Rousseff, entre 2014 e 2016.

A narrativa do filme é cronológica, e testemunha a chegada do exército, enviado pelo governo Temer para liberar as estradas.

Nas filmagens, segundo disse Delaroche ao Nexo em 2018, era perceptível “uma descrença total na democracia e nas instituições por parte dos trabalhadores, que vão pedir intervenção militar porque, para eles, essa democracia não existe”.

Álvares reforça que o que os grevistas tinham em comum era o fato de fazerem parte “de uma classe trabalhadora extremamente precarizada, com o sentimento de que o modelo democrático falhou com eles”, disse.

Segundo ela, ficou claro durante as gravações que “eles não acreditavam mais na ideia de uma democracia que promete direitos como escola de qualidade, saúde pública, transporte, segurança, de um Estado que colabora com o cidadão. Esse não é o dia a dia do trabalhador brasileiro. A ideia que a gente mais ouviu ali era que pior do que está não fica”.

Ambiguidades e heterogeneidade

“Será que eles estão aqui pra tirar a gente? Ou pra [nos] proteger?” pergunta uma caminhoneira em uma cena de “Bloqueio” na noite em que as Forças Armadas chegaram a Seropédica. Em seguida, ela e mais um manifestante tiram selfies com um tanque do exército ao fundo.

“O arco narrativo do filme deslancha com a chegada do exército e mostra a evolução da relação dos manifestantes com eles”, disse Álvares.

Inicialmente, os caminhoneiros clamam pelas Forças Armadas, crendo que os soldados estavam ali para ajudá-los e até para derrubar o ex-presidente Michel Temer. Com o tempo, porém, a presença do exército cria uma atmosfera de apreensão e medo, e começa a desmobilizá-los.

“O filme é construído a partir dessa tensão entre o exército e os trabalhadores, e de como foi a estratégia dos militares de não vencê-los através da força, mas da inteligência e do diálogo”, disse Quentin Delaroche. “Como o movimento era muito horizontal, eles foram conversando com cada um para tentar [fazê-los] mudar de ideia e acabar com a greve”.

Além da ação dos militares, a pressão econômica sobre os caminhoneiros também contribuiu para o fim da greve. Muitos deles são autônomos — e 10 dias sem trabalhar significavam 10 dias sem receber.

Álvares destaca a heterogeneidade do movimento. Muitos caminhoneiros não eram a favor de intervenção militar. Havia os que gritavam “fora Temer” e os que viam como ilegítimo o impeachment de Dilma Rousseff, já que Temer havia feito “muito pior” e continuava no poder. No documentário, há ainda um caminhoneiro que afirma que, com Lula no poder, a greve teria se resolvido mais facilmente.

Segundo ela “‘Bloqueio’ não é um filme que se propõe a denunciar, julgar ou criticar. Nosso objetivo principal era a escuta e a observação. O que não significa [que fizemos uma] observação silenciosa: nós sentíamos a liberdade de questionar, de evidenciar algumas contradições e ambiguidades que estávamos testemunhando ali. Tivemos muita liberdade para estabelecer esse tipo de diálogo”.

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