Considerações sobre a paternidade, segundo estas 2 gerações

No Dia dos Pais, o 'Nexo' convidou um pai e um filho, que também é pai, para refletir sobre a condição paterna e seus desafios

     

    A maioria dos homens faria qualquer coisa para estar mais presente na fase inicial da vida dos filhos. A constatação apareceu em uma pesquisa lançada em junho de 2019, realizada pela ONG Promundo. A resposta foi dada por 85% dos entrevistados, de países como Argentina, Brasil, Canadá, Japão, Holanda, Reino Unido e EUA.

    O resultado está em sintonia com o movimento da paternidade ativa, especialmente em sociedades ocidentais mais ricas. Há algumas décadas, o envolvimento do pai nas tarefas de cuidado da criança e da casa era certamente bem menor, quando não inexistente.

    O pai presente é bom para a família, como também foi bom para a espécie humana. Segundo a antropóloga inglesa Anna Machin, sem a existência de pais para apoiar mães de bebês que chegavam ao mundo ainda muito dependentes, diferentemente de outras espécies cuja prole nasce mais autônoma, humanos teriam tido dificuldades em vingar.

    “A preocupação de prover o necessário para assegurar uma vida confortável aos filhos me levou a conter o ímpeto de chutar o balde no primeiro solavanco”

    Paulo Markun

    Jornalista

    Os benefícios psicológicos e emocionais embasam a defesa de licenças-paternidade mais extensas, uma realidade em poucos lugares do mundo. Em 92 países, incluindo Estados Unidos, China, Índia e Sudão do Sul, não há qualquer política pública de âmbito nacional que permita que um pai receba pagamento enquanto se ausenta para cuidar de um filho recém-nascido.

    No Dia dos Pais, o Nexo convidou um pai e um filho, que também é pai, para refletir sobre a condição paterna e seus desafios.

    • Paulo Markun é jornalista, com passagens pelas principais emissoras de televisão do país. É autor de oito documentários e doze livros, entre eles “Brado Retumbante” sobre a ditadura militar. Paulo é pai da atriz Anna Markun, do fotógrafo João Markun e de Pedro Markun.
    • Pedro Markun é um ativista digital e hacker que encabeçou iniciativas que buscam convergir tecnologia e política. A mais conhecida é o LabHacker, que propõe abordagens inovadoras no legislativo municipal de São Paulo. Também é autor do livro infantil “Quem manda aqui”, sobre política. Pedro é pai de Maria e Tereza.

    Qual era sua prioridade como pai quando você teve seu filho?

    PAULO MARKUN Tive minha primeira filha, Anna, aos 23 anos, ainda na faculdade, mas já trabalhando. Naquele tempo, a militância política era minha prioridade. Eu e a mãe dela nos separamos quando ela tinha uns 3, 4 anos e virei pai de final de semana. Mudei para o Rio e ela ficou em São Paulo, o que só aumentou a distância por algum tempo. Talvez a paternidade como prioridade tenha acontecido com meu segundo filho, Pedro, quase dez anos depois — e depois do caçula, João, três anos mais tarde. A mãe deles, Tatiana, minha mulher, era bailarina e voltou a viajar com a companhia quando Pedro ainda era um bebê. Apesar da creche e do apoio de uma empregada, fui mais presente. Posso estar exagerando, mas acho que minha prioridade era estar mais presente que com Anna.

    PEDRO MARKUN Como tenho duas filhas, Maria e Tereza, para cada uma a resposta é diferente. Tive Maria com 26 anos. Olhei para ela e falei “que linda, que incrível”, mas logo depois pensei “como eu vou falar de política com essa criança”. Isso modificou significativamente minha trajetória de vida, fez com que eu escrevesse um livro sobre política para crianças. Mas, mais do que isso, me deu um grande senso de urgência para a vida. O machismo do mundo passava a afetar a pessoa que me era mais cara. Na prática, no entanto, fiquei muito distante da minha filha. Nos primeiros meses estava ali, mas logo depois viajei muito, realizando projetos pelo Brasil e também com divergências com a minha mulher na época, a Bel. A gente acabou se separando. Elas foram morar em Florianópolis, eu fiquei em São Paulo. Casal que teve filha sem planejamento, eu com muita imaturidade para lidar com tudo isso, então foi uma relação ruim. Hoje temos uma relação boa, conseguimos reconstruir com o passar do tempo. Eu fiquei muito ausente e deixei muito nas costas da mãe em um período super conturbado e sensível. Dois anos depois, quando ia me mudar para Florianópolis para cuidar da minha filha, “engravidei” de novo. Tive uma filha com a Amanda, a Tereza. Pensei então que queria fazer as coisas de outro jeito, armei um sistema de vida para que pudesse estar presente integralmente. Eu era diretor do Lab Hacker, então aluguei um predinho onde ficava meu laboratório em um andar, minha casa em outro e o trabalho da Amanda em outro. Vim a entender, exercitar e curtir a paternidade ativa, estar presente, de ser corresponsável pela criança e ter uma divisão de tempo e tarefas mais justa. Fiquei seis meses de licença e depois os outros dois anos nesse home office maluco, tudo motivado pela possibilidade de estar presente.

    Como era a divisão de tarefas entre os genitores?

    PAULO MARKUN Com Pedro, espero ter compartilhado melhor as tarefas. Acho que ainda sei trocar uma fralda, dar mamadeira, cuidar de uma cólica. Não foi meio a meio, mas talvez 60% a 40% (que não me conteste).

    PEDRO MARKUN Foram formas muitos diferentes na primeira e na segunda gravidez e seguem diferentes. Hoje, uma com 5, a outra com 7, essa divisão de responsabilidade entre os genitores segue para sempre. Estou separado da Amanda desde o final do ano passado e temos uma guarda compartilhada da Tereza. Antes disso, a gente sempre dividiu muito as tarefas como banho, troca de roupa, botar para dormir. Já as tarefas invisíveis ficaram muito mais na conta da Amanda do que na minha, como comprar os mantimentos da casa, pensar e lembrar o que tem de ser comprado, essa tarefa para nós homens acaba sendo mais difícil. Muitas mulheres cobram isso dos homens, e acho que com toda razão. Com minha filha ficando comigo, me senti desafiado a lidar com todo esse processo de planejamento da casa, então quando ela não está a casa funciona em um ritmo, mas para os dias que ela vem tem de estar tudo bonitinho, com verduras e frutas para recebê-la. Fazer isso me ajudou a ser uma pessoa melhor, a cuidar mais da minha casa e de mim.

    O que a paternidade mudou em você?

    PAULO MARKUN A preocupação de prover o necessário para assegurar uma vida confortável aos filhos me levou a conter o ímpeto de chutar o balde no primeiro solavanco. A gente demora a se dar conta de que os filhos não serão a nossa extensão e que o importante é que sejam honestos, decentes e felizes fazendo o que gostam, ainda que não se disponham a seguir a mesma trilha que seguimos.

    “Acho que a coisa que meu pai mais me ensinou é o que que significa você apoiar, dar suporte. É o papel que os pais têm de ter com os filhos”

    Pedro Markun

    Ativista digital e hacker

    PEDRO MARKUN Ter um filho te permite se reinventar, te dá uma licença poética para você se recriar. Quando a Maria nasceu tive uma pira que foi “e se minha filha virar evangélica, se ela gostar de astrologia ou se ela quiser fazer qualquer coisa que eu desconsidero, desqualifico? Eu vou chegar e falar ‘filha, nada a ver isso que vc está fazendo’?”. Tomei então para mim o desafio de me confrontar com meus preconceitos. Não que eu tenha acabado com eles, mas esse exercício ativo de buscar desconstruir meu ceticismo em relação a coisas que beiram o misticismo, não no sentido de aceitar, de achar legal, mas de me permitir conhecer sem desqualificar o saber do outro. Tem o lado pragmático também. Não tenho nenhuma dúvida de que minhas filhas me fizeram ser um homem melhor. Como disse, me trouxe essa sensação de urgência, de que não podia mais ignorar o machismo. É claro que entender isso não me torna um homem menos machista, que não repete padrões, mas tenho clareza de que a gente precisa trabalhar ativamente para que minha filha e as mulheres sofram menos opressão. Além dela, trouxe uma dimensão minha, de precisar cuidar da minha saúde porque preciso estar ali, de cuidar da minha alimentação porque preciso dar exemplo. Então meu prato ficou mais colorido. Parei de tomar refrigerante. De rever o uso das tecnologias porque não quero que ela fique o dia inteiro na frente da TV então preciso me policiar sobre passar o dia no celular. Me ajudou a entender o que significa tempo de qualidade porque ela cobra que eu dê atenção para ela. Essa coisa de fazer uma coisa enquanto pensa em outra funciona muito pouco com criança, porque elas percebem, sentem e cobram. Aprendi muito a ter presença com elas.

    O que você aprendeu com seu pai sobre a paternidade?

    PAULO MARKUN Passei parte da adolescência do Pedro reclamando que ele vivia diante do computador e que não estudava — e até agora, ele não concluiu nenhum curso universitário. Não me dei conta de que estudava à moda dele, diferente da minha. Sobre a paternidade, acompanho o esforço que ele faz para ser um pai presente e amoroso de duas lindas meninas, mesmo separado das mães. E fico feliz com o resultado desse empenho. Pode soar demagogia, mas o que aprendi com meu pai não foi de suas palavras ou conselhos — mas de suas atitudes. Apesar de todas as diferenças — idade, ideias, objetivos — meu pai foi meu parceiro como espero ter sido e ser ainda de meus três filhos.

    PEDRO MARKUN Acho que a coisa que meu pai mais me ensinou é o que que significa você apoiar, dar suporte. É o papel que os pais têm de ter com os filhos. Você não vive a vida do outro, você não controla o destino, em certo sentido, você sequer forma. Acho que tem um papel importante da educação, mas no caso do meu pai isso sempre foi estar ali para permitir que eu fizesse o que bem entendesse e quando eu errasse ele estar ali para me apoiar. Financeiramente, muitas vezes foi a porta onde bati. Quando me separei da Bel, foi para a casa dele que eu fui. Fiquei morando lá um tempo até me reestruturar. Quando minha empresa quebrou, foi ele que me emprestou a grana para pagar pensão alimentícia para minha ex-mulher para não deixar minha filha sofrer com a minha inconsequência financeira. A principal coisa que aprendi com ele foi que o papel do pai, principalmente depois que os filhos crescem, é ser esse porto seguro e só. Outra coisa que ele me ensinou como pai e pessoa é que o Paulo pai é o Paulo cidadão, o Paulo jornalista, isso foi um aprendizado que pra mim é muito caro. Eu falo que pra ser o melhor pai do mundo eu preciso ser o melhor Pedro que eu posso ser. Mas é muito difícil falar de pai e não falar de mãe. Tudo isso só seria possível por causa da existência da minha mãe. É um jogo jogado em conjunto. Eu só consigo ser o pai que eu sou porque elas existem, sou muito grato a elas e tenho muita admiração.

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