Qual a condição financeira dos clubes de futebol brasileiros

São Paulo e Flamengo investem em grandes nomes. O ‘Nexo’ conversou com César Grafietti, consultor do Itaú BBA, para entender a situação financeira dos times de futebol no Brasil.

     

     

    O futebol brasileiro vive uma nova onda de grandes contratações. Só no último mês, o São Paulo trouxe Daniel Alves e Juanfran, enquanto o Flamengo assinou com o lateral Filipe Luís, titular da seleção brasileira. O time carioca já havia fechado com Rafinha, também de consolidada trajetória internacional, e ainda negocia para ter o italiano Mario Balotelli, midiático atacante que era a esperança da Itália que naufragou na Copa do Mundo de 2014.

     

    Em meio aos reforços, surgem questionamentos sobre a condição que os clubes brasileiros de fato têm de pagar por jogadores caros. Isso significa entender se, para além das quatro linhas, os torcedores devem ficar animados ou receosos com a situação de seus times.

     

    Para isso, o Nexo consultou dados do relatório anual “Análise Econômico-Financeira dos Clubes Brasileiros de Futebol”, produzido pelo Itaú BBA e baseado em informações públicas sobre as equipes, e conversou com César Grafietti, consultor do banco.

     

    As supercontratações

     

    Flamengo e São Paulo, os protagonistas do mercado nas últimas semanas, apresentam cenários diferentes. Se o primeiro aproveita um momento de fartura, o time paulista não consegue estabilizar suas receitas nem transformar os altos gastos em bons resultados esportivos - pelo menos por enquanto.

     

    O clube saudável

     

    O Flamengo, ao lado do Palmeiras, está em um patamar acima do resto dos clubes brasileiros.

     

    Ambos os clubes passaram recentemente por momentos de saneamento financeiro. Agora, estão com rendimentos em alta, dívidas controladas e capacidade de investimento consolidada. As receitas recorrentes (patrocínio, bilheteria, planos de sócio-torcedor: tudo, menos a venda de jogadores) estão bem acima da média dos outros clubes, o que significa que Flamengo e Palmeiras não dependem tanto da transação de atletas para manter níveis elevados de entrada de dinheiro.

     

    COFRES CHEIOS

     

     

    A dívida total também vem caindo: passou de R$ 627 milhões em 2014 para R$ 418 milhões em 2018. A situação financeira mais robusta permite que o clube gaste mais com reforços caros, como Filipe Luís e Rafinha. Mesmo com os dois jogadores vindo sem custos de rescisão de contrato, os salários acordados pelo time estão bem acima da média do futebol brasileiro: Rafinha terá salário mensal de cerca de R$ 750 mil e Filipe Luís, de R$ 800 mil.

     

    César Grafietti, entretanto, faz uma ressalva: as contratações estão no limite do que o clube pode pagar. Ou seja, o Flamengo agora com uma margem pequena para investimentos, mas dentro de sua capacidade.

     

    Além do limite

     

    O São Paulo, por sua vez, vive uma situação diferente. Por mais que as receitas recorrentes sejam altas para os níveis do futebol brasileiro, elas não apresentam evolução — inclusive, houve queda de 2017 para 2018, saindo de R$ 305 milhões para R$ 269 milhões.

     

    RECEITAS ESTAGNADAS

     

     

    O tricolor paulista parece ter ido além da conta para trazer reforços em 2019. Conforme levantamento feito pelo jornalista Rodrigo Capelo, do site Globo Esporte, o São Paulo elevou seus custos com a chegada de Daniel Alves, Juanfran, Alexandre Pato e Hernanes, a ponto de ter um rombo de R$ 75 milhões no orçamento do ano.

     

    A solução deve ser a venda de jogadores, gerando receitas e reduzindo a folha salarial do elenco profissional. Além disso, o clube terá que explorar com eficiência possíveis receitas comerciais e publicitárias resultantes da chegada dos novos astros, em especial Daniel Alves, capitão da seleção brasileira. Se não conseguir dar esses passos, a tendência é o São Paulo terminar o ano no negativo, precisando recorrer a um aumento na dívida para fechar as contas.

     

    A sombra de Ronaldo

     

    No século 21, a contratação mais impactante do futebol brasileiro foi a de Ronaldo pelo Corinthians, concretizada no fim de 2008.

     

    Apesar do alto custo do jogador, o alvinegro fez esforços para conseguir novas receitas e arquitetou um contrato que agradasse as duas partes. O atleta passou a receber um salário fixo de R$ 400 mil mensais — muito acima dos padrões do mercado brasileiro à época — e ainda tinha direito a cotas de patrocínios e venda de produtos.

     

    O modelo de negócio acabou se revelando bem-sucedido, e a chegada do atacante também trouxe resultados dentro de campo. Ronaldo foi protagonista das conquistas do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil de 2009, coroando um momento de inflexão na história do Corinthians.

     

    Após a contratação do jogador, os contratos de patrocínio do clube saltaram de R$ 24,7 milhões para R$ 49,1 milhões. Nas bilheterias, o impacto também foi significativo: em 2009, o time arrecadou dois terços a mais do que havia arrecadado em 2008.

     

    Para César Grafietti, o caso de Ronaldo é especial pela capacidade extraordinária de o jogador de atrair receitas, algo que não se repetiu no Brasil desde então.

     

    “Nenhuma outra tentativa de contratação semelhante a ele funcionou”, comenta. “Times tentaram fazer isso com o Adriano, o próprio Atlético Mineiro e o Flamengo tentaram com o Ronaldinho Gaúcho, mas nenhuma delas deu certo”.

     

    “Ronaldo só tem um”, conclui ele. Portanto, se algum clube pensa em replicar o modelo de negócio do Corinthians naquela ocasião, deve considerar que este caso foi uma exceção na história recente do futebol brasileiro.

     

    Como os clubes europeus se organizam

     

    Se a chegada de nomes de peso é rara no Brasil, isso se deve ao fato dos grandes talentos do futebol mundial se concentrarem no futebol europeu. Nos maiores clubes de países como Espanha, Inglaterra e Alemanha, a contratação de estrelas acontece a cada janela de transferências.

     

    três principais modelos de gestão nos clubes europeus:

     

    • Clubes com dono, como PSG, Chelsea e Manchester City
    • Clubes com capital aberto (vendem ações na bolsa de valores), como Manchester United, Roma, Juventus e Borussia Dortmund
    • Clubes que são associações, mesmo modelo seguido no Brasil. É o caso de Real Madrid e Barcelona

     

    Por mais que sejam estruturados de formas diferentes, os modelos de gestão europeus têm um ponto em comum que os diferenciam do padrão seguido no Brasil: eles são geridos como empresas.

     

    “Se você pegar Real Madrid, Bayern de Munique e Manchester City, que têm modelos completamente distintos, todos eles têm uma estrutura de gestão que é profissional. Têm CEO, orçamento, um financeiro que controla. São clubes que enxergam [o futebol] como um negócio — não necessariamente para gerar lucro, mas sim para ser sustentável”, diz Grafietti.

     

    Esta diferença fundamental ajuda a explicar a distância entre os parâmetros financeiros dos times europeus e brasileiros.

     

     

    A gestão financeira no Brasil

     

    A atual estrutura dos clubes brasileiros aponta caminhos que podem tornar a gestão financeira mais eficiente. E o crescimento das receitas nos últimos anos mostra que há um potencial a ser explorado.

     

    EVOLUÇÃO NA DÉCADA

     

     

    Decompondo essas receitas, percebe-se que existem pontos que poderiam ser melhor aproveitados pelos clubes brasileiros.

     

     

    Além do enorme peso que as receitas de televisão têm no bolso dos times, chama atenção o espaço a ser explorado pelas receitas de marketing (publicidade e patrocínio) e torcida (bilheteria e sócio torcedor).

     

    O aumento da participação da venda de atletas nos últimos anos também mostra que os clubes estão contando cada vez mais com receitas não recorrentes.

     

    “Isso é um risco porque naquele ano em que você não conseguir vender dois ou três jogadores para fechar suas contas, a situação vai ficar difícil”, completa Grafietti.

     

    Colaborou Caroline Souza com os gráficos

     

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