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As propostas econômicas dos candidatos argentinos à presidência

País se prepara para eleições primárias, que acontecem em meio à crise financeira e com disputa polarizada entre Mauricio Macri e Alberto Fernández

     

    No domingo (11), os eleitores argentinos vão às urnas para o primeiro pleito da corrida presidencial de 2019.

    A primária funciona, na prática, como um censo eleitoral, uma pesquisa de intenção de votos com tamanho parecido ao da votação final. A consulta é obrigatória e elimina da disputa os candidatos que obtiverem menos de 1,5% dos votos.

    Mesmo com poucos efeitos diretos sobre o resultado final, os números deste domingo irão ajudar os candidatos na condução do resto da campanha. O primeiro turno está marcado para 27 de outubro.

    Dois candidatos lideram com folga as pesquisas de intenção de voto: o atual presidente, Mauricio Macri, e Alberto Fernández, que tem como vice a ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015). As últimas pesquisas indicam que as duas chapas estão em empate técnico, cada uma com cerca de 40% das intenções de votos.

    Em um país que vive uma crise econômica prolongada e que cresceu apenas 0,5% entre 2012 e 2018, as propostas dos candidatos para a economia podem ser decisivas no resultado do pleito.

    CRESCIMENTO DA ECONOMIA

     

    A crise do câmbio e o papel do FMI

    Sob Cristina Kirchner, a Argentina adotou um modelo de restrição cambial, com controle do governo sobre o patamar do preço do dólar no país. A condução artificial do câmbio levou ao surgimento de um mercado paralelo da moeda americana.

    Quando assumiu a presidência, em dezembro de 2015, Macri abriu o mercado de moeda estrangeira. Desde então, o país vive um cenário de acentuada desvalorização do peso, o que desencadeou uma crise cambial.

    A TRAJETÓRIA DO CÂMBIO

     

    Com baixas reservas cambiais e o crescimento da dívida pública, o cenário fez com que o país recorresse ao FMI (Fundo Monetário Internacional) em junho de 2018 por um empréstimo de mais de US$ 50 bilhões. Em setembro, o valor foi expandido para US$ 57 bilhões. Com o acordo, a Argentina se comprometeu a adotar medidas de austeridade fiscal e a cumprir metas fiscais.

    O que diz Macri

    O atual presidente afirma que não irá voltar ao regime de controle de câmbio, por não acreditar que a mudança de regras seja uma solução para os problemas do curto prazo.

    Macri deixou claro que não vai rever os parâmetros do acordo com o FMI, que vale até 2021. Ele não descarta a possibilidade de um novo empréstimo após o fim do pacto vigente.

    O que diz Fernández

    O candidato acusa Macri de empregar os recursos do FMI para impedir uma explosão ainda maior do câmbio, ao invés de utilizá-los para atacar os problemas da dívida pública.

    A chapa de Fernández pretende atacar a questão cambial incentivando o crescimento de mercados exportadores e dando foco a medidas de substituição de importações. Dessa forma, a Argentina atrairia divisas (moedas estrangeiras) e reduziria a fuga de dólares do país, o que controlaria o câmbio. Ele nega que retomará o câmbio fixo instituído no governo da sua vice, Cristina Kirchner.

    Em relação ao empréstimo do FMI, o candidato afirma que o acordo fracassou e que, caso ele seja eleito, o prazo será revisto. Membros da equipe de Fernández afirmam que a Argentina não tem condições de pagar o que deve ao FMI na atual configuração do acordo.

    Inflação

    Sob Cristina Kirchner, a inflação argentina permaneceu estável em cerca de 10% ao ano entre 2008 e 2014. A partir desse último ano, o país passou por uma escalada inflacionária, que foi reduzida no início do governo Macri.

    Em meio à crise cambial argentina, no entanto, os preços voltaram a aumentar com força. Desde o final de 2018, a inflação ficou acima dos 50% acumulados em 12 meses.

    AVANÇO INFLACIONÁRIO

     

    Em meio à alta inflacionária, Macri congelou preços enquanto o Banco Central elevou os juros para acima de 70% ao ano.

    O que diz Macri

    O atual presidente destaca que as medidas tomadas pelo governo estão surtindo efeito — a inflação está em queda desde abril deste ano.

    Macri destaca que a política monetária é responsabilidade do Banco Central, que é um órgão independente, mas que o governo federal seguirá ajudando como pode para controlar a inflação.

    As medidas propostas por ele envolvem a continuidade do ajuste nas contas do governo e um processo de desregulamentação do mercado.

    O que diz Fernández

    Em suas propostas, Fernández fala em abrir negociações com empresários e sindicatos para corrigir preços e salários do mercado argentino. Além disso, o candidato da oposição promete buscar equilíbrio fiscal e uma política monetária responsável, mas sem deixar de incentivar o desenvolvimento econômico. O programa de governo não detalha como isso seria feito.

    Emprego

    Após um momento de alta no início do governo de Cristina Kirchner, o desemprego apresentou queda e permaneceu estável até o final do mandato da vice da chapa de Fernández.

    Em 2019, a crise econômica levou o desemprego a ultrapassar a marca dos 10% no primeiro trimestre do ano. A subocupação e o trabalho informal também cresceram. Por mais que esteja em alta, a taxa de desocupação argentina é de 10,1%, inferior à do Brasil, que está em 12% atualmente.

    DESOCUPAÇÃO EM ALTA

     

    O que diz Macri

    Macri propõe uma modernização do mercado de trabalho, o que envolve uma reforma nas leis trabalhistas do país. Segundo o presidente, uma nova legislação ajudaria a aumentar o número de vagas formais porque retiraria barreiras que impedem a criação de empregos.

    O atual mandatário também fala em seguir reduzindo impostos sobre a folha salarial e continuar desregulamentando o mercado. Isso envolveria uma negociação com sindicatos e empresários para rever acordos coletivos e reduzir custos extrassalariais.

    O que diz Fernández

    O candidato da oposição rejeita a ideia de uma reforma trabalhista — ele diz que isso levaria a uma precarização do trabalho no país. Fernández afirma que irá proteger os salários e os empregos formais, estimulando acordos entre empresários e sindicatos para manter as remunerações em patamares altos.

    A ideia, sem maiores detalhes, passa por incentivar o consumo e reaquecer a economia, o que levaria à criação de novas vagas de trabalho.

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