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Quem foi Charles Manson. E por que seus crimes ainda ecoam

Líder de seita comandou o assassinato da atriz Sharon Tate em 1969. Suas ações marcaram os meses finais da década de 60

    Há 50 anos, na noite de 8 de agosto de 1969, os gritos de Sharon Tate puderam ser ouvidos na rua Cielo Drive, no norte de Beverly Hills, estado americano da Califórnia. A atriz, grávida de oito meses, e outras quatro pessoas foram assassinadas a facadas por membros da “Família Manson”, seita liderada por Charles Manson.

    No dia seguinte, a “Família Manson” foi até a rua Waverly Drive, no bairro de Los Feliz, em Los Angeles, e assassinou, também a facadas, o casal Leno e Rosemary LaBianca.

    O Caso Tate-LaBianca se tornou parte do imaginário popular americano, bem como Charles Manson e sua seita. Os eventos de agosto de 1969 são parte da trama de “Era uma vez em Hollywood”, novo filme do cineasta Quentin Tarantino, que será lançado no Brasil em 15 de agosto de 2019. Manson também aparece na segunda temporada da série “Mindhunter”, da Netflix. Em ambas as produções, ele é interpretado pelo ator Damon Herriman.

    Em 1971, Manson e os membros de sua seita envolvidos nos assassinatos foram condenados à morte. A pena de morte foi abolida na Califórnia no ano seguinte, no entanto, e a sentença se tornou a prisão perpétua.

    Charles Manson morreu por conta de insuficiência cardiorrespiratória em 19 de novembro de 2017. 

    Os anos de formação

    Manson nasceu em 1934, filho da adolescente de 16 anos Kathleen Manson-Bower-Cavender.

    De acordo com os autores Vincent Bugliosi e Curt Gentry, que escreveram o livro “Helter Skelter”, sobre a vida de Manson e o caso Tate-LaBianca, ele nunca conheceu seu pai biológico, embora Kathleen Manson tenha apontado o coronel do exército Walker Henderson Scott Sr. como o progenitor de Manson.

    Em 1939, Kathleen, seu irmão Luther Maddox, e sua cunhada, Julia Vickers, tentaram roubar um conhecido dos três e herdeiro de grande fortuna. A tentativa foi em vão, e os três foram presos. Durante esse período, Charles ficou sob o cuidado de seus tios na cidade de McMechen, no estado da Virgínia Ocidental.

    Segundo o livro “Manson: A biografia definitiva”, de Jeff Guinn, foi nesse período que Charles Manson começou a demonstrar traços violentos e uma aptidão para manipular aqueles que o cercavam.

    O autor conta sobre mais de um episódio em que Manson, nos primeiros anos letivos, recrutou outras crianças, principalmente garotas, para atacarem suas inimizades. Quando confrontado pelos professores, ele dizia que não era responsável pelos ataques, e que seus colegas de classe agiram por vontade própria.

    Jo Ann Maddox, prima de Manson, concedeu entrevista a Guinn e relembrou um episódio em que “Charlie”, como era chamado, ameaçou-a com uma foice de jardinagem. Ela conta que nenhum dos conhecidos do primo da cidade de McMechen ficou surpreso com a notícia dos assassinatos Tate-LaBianca.

    Os primeiros crimes

    Em 1942, Kathleen Manson saiu da prisão e voltou a morar com seu filho em Charleston, ainda na Virgínia Ocidental. Nos anos seguintes, Manson começou a roubar lojas de bebidas e as jóias de Kathleen, o que fez com que sua mãe o enviasse para um internato em Terre Haute, no estado de Indiana, em 1947.

    Dez meses depois, em 1948, Mason fugiu da instituição e foi para a cidade de Indianápolis, capital do estado. Lá continuou a praticar crimes, roubando lojas e posteriormente carros, junto com amigos.

    Manson foi preso enquanto dirigia em um carro roubado e foi enviado para um instituto federal de reabilitação juvenil no estado de Washington. Segundo o livro “Helter Skelter”, os psiquiatras que receberam Manson na instituição logo notaram diversos traços antissociais em sua personalidade.

    Por conta dessas características, foi recomendado que ele fosse transferido para uma instituição com maior segurança, no estado da Virgínia, onde ficaria até 1952. Um mês antes de ser solto, a sentença de Manson foi estendida até 1955. Ele foi pego em flagrante estuprando seu colega de cela após ameaçá-lo com um objeto cortante.

    Ele foi solto em liberdade condicional em 1954. De volta às ruas, ele conheceu a garçonete Rosalie Jean Willis, com quem teve seu primeiro filho, Charles Manson Jr, em um relacionamento que durou até 1959. Manson não teve muito contato com Manson Jr, que mudou seu nome para Jay White como forma de se distanciar da figura do pai e cometeu suicídio em 1993.

    Em 1960, Charles Manson foi preso novamente – dessa vez, por tráfico de pessoas e cafetinagem. Ele e sua segunda esposa, Leona Stevens, estavam transportando uma mulher para o Novo México, a fim de criarem um negócio de prostituição. Ele foi enviado para a prisão estadual da Califórnia, e posteriormente transferido para uma prisão federal, na ilha McNeil, no estado de Washington.

    Sete anos depois, Manson foi solto, tendo passado metade da sua vida em prisões e outras instituições de reabilitação.

    Como se formou a ‘Família Manson’

    Saindo da prisão federal, Charles Manson foi para São Francisco, na Califórnia. Era o ano do verão do amor, com a eclosão massiva do movimento hippie.

    Ele logo conheceu Mary Brunner, uma bibliotecária assistente na Universidade da Califórnia. Ele se mudou para a casa dela, onde viviam outras 18 jovens, a maior parte garotas de classe-média que não tinham um bom relacionamento com suas famílias.

    Foi nessa época que Manson começou a se proclamar guru. De acordo com o livro “Helter Skelter”, ele pregava que aqueles que o ouviam eram a reencarnação dos primeiros seguidores de Jesus Cristo. Muitas vezes, Charles Manson afirmou que ele era a reencarnação do próprio Messias. Ele também misturava elementos do budismo, do hinduísmo, do taoísmo e do misticismo em seus discursos, que passaram a atrair cada vez mais seguidores. Assim surgiu a “Família Manson”.

    Em agosto de 1968, “Charlie” e seus seguidores encontraram um quartel-general em um rancho que por muitos anos foi utilizado como set de gravações para filmes e seriados ambientados no Velho-oeste. Os membros da “Família Manson”, a maioria jovens adultas, se revezavam nas tarefas diárias do local. Ocasionalmente, Manson pedia para que as moças tivessem relações sexuais com George Spahn, o dono do terreno.

    Três meses depois, em novembro de 1968, os Beatles lançaram o disco “The Beatles”, popularmente conhecido como o “Álbum Branco”. Foi nesse momento que Manson ficou obcecado com a banda inglesa e começou a esboçar a ideia que culminaria nos assassinatos Tate-LaBianca.

    A questão da música ‘Helter Skelter’

    Antes do lançamento do “Álbum Branco” e da crescente obsessão com os Beatles, Manson falava que o mundo estava prestes a passar por uma grande guerra racial entre brancos e negros.

    Ele acreditava que os confrontos terminariam com os negros saindo vitoriosos e os brancos aniquilados. Esse seria um cenário onde ele e a “Família” poderiam se tornar os governantes do mundo.

    O ponto de virada para solidificar a ideia de tal guerra na mente de Manson foi a chegada do “Álbum Branco”. Segundo “Manson: a biografia definitiva”, Charles via o quarteto de Liverpool como anjos enviados aos céus, que tinham codificado pistas sobre o confronto nas letras do disco, em especial na música “Helter Skelter”.

     

    A partir disso, Manson começou a se referir à suposta guerra como “Helter Skelter”. Para que tudo acontecesse e a “Família Manson” se consolidasse no poder, “Charlie” decidiu que a seita precisava gravar um disco, “com músicas de mensagens tão sutis quanto as dos Beatles”.

    Para isso, Manson se aproximou de Dennis Wilson, vocalista da banda The Beach Boys. Os dois tinham se conhecido meses antes, e ao longo dos meses se tornaram amigos, com membros da “Família Manson” frequentando a casa de Wilson constantemente.

    Manson chegou a escrever algumas músicas, e uma delas foi gravada pelos Beach Boys em setembro de 1968. Intitulada “Never learn not to love” (‘Nunca aprenda a não amar’, em tradução livre), a letra é o pedido de um homem para que seu amor se torne devoto a ele. 

    Na ocasião do lançamento, Manson não foi creditado como autor da letra, o que causou a ruptura do relacionamento dele com Wilson. Em entrevista ao jornal Los Angeles Times, em 2000, o produtor Van Dyke Parks, colaborador dos Beach Boys, afirmou que Charles Manson chegou a ameaçar dar um tiro nos filhos de Wilson. “Foi o que eu ouvi, mas eu não estava lá”, disse.

    Antes de romper relações com Wilson, o vocalista dos Beach Boys apresentou Manson ao produtor musical Terry Melcher, figura que lançou o grupo The Byrds. Manson chegou a mostrar suas músicas para Melcher, que estava fascinado pela “Família Manson”. Porém, no fim das contas, o produtor decidiu não seguir adiante com um contrato de gravação – algo que revoltou Charles Manson.

    Em 23 de março de 1969, Manson foi até a casa de Melcher – as motivações da visita inesperada não foram descobertas –, mas, chegando lá, descobriu que o produtor havia se mudado. Os novos moradores da casa eram o cineasta Roman Polanski (“O bebê de Rosemary”) e sua esposa, a atriz Sharon Tate.

    Os assassinatos

    Percebendo que o plano “Helter Skelter” não poderia ser concretizado por meio da música, Manson passou a acreditar que era necessário um estopim repentino para a guerra entre brancos e negros. Um crime foi o caminho escolhido por ele. A ideia era cometer um assassinato brutal, cuja autoria poderia ser imputada a um negro, dando início aos conflitos.

    O primeiro alvo foi o músico Gary Hinman, que conhecia membros da “Família Manson”. Ele foi morto por membros da seita com duas facadas no peito e teve a expressão “porco político” escrita em seu corpo. No crime, os membros da “Família” fizeram o desenho de uma pantera na parede, tentando imputar a culpa do assassinato ao Partido dos Panteras Negras – o que, na sua visão, daria início ao “Helter Skelter”

    A estratégia não funcionou e dias depois Manson enviou Tex Watson, Susan Atkins, Linda Kasabian e Patricia Krenwinkel, membros da “Família”, para a casa onde Melcher havia vivido e cuja moradora na época era Sharon Tate, em 8 de agosto de 1969. De acordo com o livro de Bugliosi e Gentry, a instrução de Manson era tornar a cena o mais brutal possível.

    Tate implorou que Atkins e Watson poupassem sua vida e para que seu filho pudesse nascer. Os pedidos foram ignorados e a atriz foi esfaqueada 16 vezes pela dupla. Três amigos da atriz e um amigo do zelador da casa também foram assassinados pela “Família Manson”.

    Não satisfeito com a repercussão dos assassinatos na rua Cielo Drive, Manson decidiu arquitetar um novo assassinato. Na noite de 9 de agosto de 1969, “Charlie” acompanhou os quatro membros da “Família” que executaram o plano da noite anterior, junto de Leslie van Houten e Steve Grogan.

    Os sete dirigiram por toda a Los Angeles buscando vítimas. Por fim, Manson os guiou até o bairro de Los Feliz, em uma região que a “Família” já tinha visitado anteriormente. Os alvos seriam o casal Leno e Rosemary LaBianca, um executivo de um supermercado e uma dona de uma loja de roupas.

    Manson entrou na casa e amarrou as vítimas. Na saída, mandou que os membros da seita os matassem. Leno LaBianca foi morto por um golpe de baioneta na garganta. Rosemary foi esfaqueada 16 vezes.

    Com o casal já morto, a “Família Manson” esfaqueou Leno mais 14 vezes, e Rosemary mais 25 vezes. Com o sangue das vítimas, as frases “Helter Skelter”, “Morte aos porcos” e “Levantem-se” foram escritas na parede.

    As investigações e o julgamento

    A polícia de Los Angeles estava investigando o assassinato de Sharon Tate quando o corpo do casal LaBianca foi descoberto. Em um primeiro momento, os investigadores não fizeram nenhuma conexão entre os dois crimes.

    As suspeitas de que havia uma correlação entre os casos veio quando a polícia soube das investigações da morte de Hinman. Seguindo pistas que apontavam para a “Família Manson”, os detetives encarregados de ambas investigações conversaram com uma gangue de motociclistas que tiveram contato com Manson. Eles sugeriram uma possível conexão da seita com os assassinatos. Em 1º de dezembro de 1969, a polícia emitiu mandados de prisão para Watson, Krenwinkel e Kasabian.

    O julgamento dos casos começou em junho de 1970. Kasabian, Watson, Atkins, Krenwinkel e Manson foram acusados de assassinato e conspiração.

    Os promotores ofereceram imunidade legal à Kasabian, que não tinha efetivamente participado dos assassinatos, em troca de um depoimento detalhando o que ocorreu nas noites de 8 e 9 de agosto de 1969.

    Manson abriu mão de advogados, pedindo para atuar em sua própria defesa, algo que foi relutantemente aceito pelo juiz William Keene. Em 24 de julho de 1970, no primeiro dia dos depoimentos no tribunal, Manson apareceu com um “X” entalhado em sua testa. O próprio declarou que o ato foi uma forma de mostrar ao mundo que ele estava excluído da sociedade. Anos depois, a cicatriz do “X” foi transformada em uma suástica, símbolo do nazismo.

    Em 29 de março de 1971, Manson, Krenwinkel, van Houten, Grogan, Atkins e Watson foram condenados à morte. A sentença foi transformada em prisão perpétua um ano depois, quando a pena de morte foi abolida na Califórnia.

    Manson morreu em 2017. Os demais continuam presos.

    Apesar de não ser tecnicamente considerado um assassino em série por não ter efetivamente participado do ato assassino, Manson pode ser definido como um psicopata com características de líder religioso, segundo artigo publicado pela revista Psychology Today.

    Por que ‘o sonho acabou’

    Vencedor do prêmio Pulitzer, o jornalista e roteirista David Felton cobriu todo o desenrolar do caso Manson/Tate-LaBianca para a revista Rolling Stone, e, inclusive, entrevistou o líder da seita.

    Em artigo publicado pelo Politico em 2017, Felton afirma que as ações de Manson em 1969 também marcaram o fim dos anos 60 e de toda a mensagem de “paz e amor” da década.

    Para ele, as ações de Manson causaram certo temor dentro da comunidade hippie, e logo o clima de liberdade e de abertura emocional se transformou em desilusão e cautela.

    “Era uma época em que você dava carona e dividia o seu baseado com estranhos”, escreveu Felton. “Nós éramos irmãos e irmãs sob o sol. Não andávamos com medo. Talvez isso fosse arriscado. Mas eu acho que o desejo de amar e confiar nos outros é uma característica boa e forte da natureza humana. A saga de Manson é perturbadora, mas o que me incomodou é como ele arruinou as coisas para todos nós”, acrescentou.

    No ano seguinte aos assassinatos Tate-LaBianca, os Beatles se separaram. Em dezembro de 1970, John Lennon lançou a música “God”. Nela, o músico atesta: “o sonho acabou”, decretando a morte oficial dos anos 60 e a busca por liberdade, aceitação, paz e tolerância que marcou a década. Estava morto o verão do amor.

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