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Por que cada vez mais americanos moram dentro de carros

Mais de 16 mil pessoas vivem em veículos só na cidade de Los Angeles. Autoridades tentam restringir a prática

 

Sem condições de pagar um aluguel e com problemas de saúde, o ex-fuzileiro naval Lawrence McCue, 75 anos, foi forçado a se mudar com a esposa Carla e o cachorro para um motorhome. Com os preços de moradia na cidade americana de Los Angeles cada vez mais elevados, transformar um veículo em casa foi a saída para não dormir na calçada.

Depois de um tempo estacionado perto do aeroporto de Los Angeles, o militar veterano teve de se mudar mais uma vez. O casal não tinha dinheiro para bancar adaptações anti-poluentes no veículo exigidas pelas autoridades de trânsito. O veículo acabou rebocado e a família foi morar em um automóvel.

Dois anos depois, Lawrence e Carla finalmente conseguiram voltar a viver em um apartamento. Um alívio em uma cidade em que dezenas de milhares de pessoas estão na rua. No condado de Los Angeles são 58.936 (na cidade em si, 36.300). Entre 2010 e 2017, o aumento de pessoas em situação de rua no condado foi de 43%.

Em Los Angeles, uma pessoa que ganhe o salário mínimo teria de trabalhar 79 horas por semana para conseguir pagar o aluguel de um apartamento de um quarto

Parte substancial mora dentro de veículos. São mais de 16.000 pessoas vivendo em 9.100 automóveis, vans ou motorhomes, segundo dados da administração municipal. Isso representa mais de um quarto do total de habitantes sem teto do condado de Los Angeles. 

Em julho, a prefeitura local decretou uma lei que proíbe pessoas de passar a noite dentro de veículos em ruas residenciais ou a menos de uma quadra de distância de parques, escolas e creches. A medida foi considerada cruel e ineficiente ao punir pessoas em uma cidade que oferece poucas alternativas para quem se encontra nessa situação.

Entre as soluções defendidas por organizações que trabalham com moradores de rua está o “estacionamento seguro” (ou “safe parking”). São espaços onde veículos podem passar a noite e que contam com banheiro, um guarda e acesso a serviços sociais. A ONG Safe Parking provê esse tipo de local em Los Angeles. Mas a cidade só conta com 200 vagas de estacionamento desse tipo. 

 

A cidade de Santa Barbara, ao norte de Los Angeles, conta com um programa de estacionamento seguro desde 2004. Toda noite, 24 estacionamentos da cidade são requalificados para atender moradores de carros. De acordo com o departamento responsável pelo programa, são disponibilizadas 136 vagas, que atendem 150 pessoas.

“Aqueles que encontramos morando em seus carros são pessoas com emprego, e muitos idosos. O aumento dessa faixa, pessoas de 70, 80 anos morando em veículos, é impressionante”, declarou a diretora do centro de assistência a moradores de rua da cidade, Kristine Schwarz, a um site local.

Multas e segurança

“O carro se tornou um novo tipo de habitação acessível”, disse Graham Pruss, pesquisador e ex-funcionário de um programa habitacional da cidade de Seattle, em entrevista ao site Slate. Segundo ele, além daqueles que optam pelo automóvel como moradia pela falta de alternativas, existe também uma parcela que quer apenas economizar o dinheiro do aluguel em cidades com alto custo de vida. “Conheci gente que trabalhava na Amazon e alugava um motorhome para morar nas ruas de Seattle enquanto economizava até conseguir seu próprio local”.

Em Los Angeles, uma pessoa que ganhe o salário mínimo (cerca de R$ 50 por hora nos Estados Unidos) teria de trabalhar 79 horas por semana para conseguir pagar o aluguel de um apartamento de um quarto. O cálculo foi divulgado pelo escritório para pessoas em situação de rua da cidade.

Não há dados específicos sobre o número de pessoas vivendo em veículos nos Estados Unidos, mas o total de pessoas em situação de rua vivendo fora de abrigos, onde se incluem os moradores de carros, subiu de 176.357 em 2016 para 192.875 no ano seguinte. Os dados são da pasta federal de habitação e desenvolvimento urbano.

Em 2015, a estimativa de veículos de passageiros registrados no país era de 263,6 milhões, segundo dados do departamento de transportes americano. Em 1990, esse total era de cerca de 193 milhões.

Morar em um carro traz uma série de dificuldades específicas, que vão de multas por estacionamento irregular à falta de segurança durante à noite. Além disso, um grande número de cidades nos Estados Unidos adota leis contra a moradia em veículos. Um levantamento de uma entidade de assessoria jurídica especializada em pobreza e moradia, que monitora políticas públicas em 187 cidades americanas, constatou que o número de medidas contra a moradia em veículos mais que dobrou nos últimos dez anos.

No Brasil, não há levantamentos nacionais sobre pessoas em situação de rua. Um censo de 2015 realizado pela prefeitura de São Paulo em parceria com o Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) contabilizou quase 16 mil pessoas em situação de rua na cidade. Não há informações sobre o número vivendo em veículos.

Uma pesquisa na internet revela algumas histórias brasileiras com esse perfil. Como o caso do vendedor Fernando Junqueira, desempregado desde 2014 e morador de Campinas. Ele vive com o irmão e o cachorro em um Honda Civic 2002 que “quase não sai do lugar para não gastar gasolina”, segundo a reportagem do G1. “Obviamente, uma casa é bem melhor do que ficar em um carro, mas só de não estar na rua, já está bom”, afirmou Junqueira

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