Como a desvalorização cambial chinesa afeta os EUA e o mundo

Moeda chinesa atingiu patamares históricos de desvalorização, em mais um capítulo da guerra comercial travada pelos dois países

 

A China promoveu na segunda-feira (5) uma desvalorização significativa de sua moeda. Pela primeira vez desde 2008, o câmbio ultrapassou a cotação de 7 yuans por dólar, fechando o dia em 7,05.

As ações tomadas pelo Banco Central da China são vistas pelo mundo como uma retaliação às ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criar novas tarifas de importação sobre produtos chineses.

Como funciona a desvalorização

Todos os dias, o Banco Central chinês define uma meta para o câmbio, em torno da qual flutua a cotação da moeda. A partir dela, a autoridade monetária do país age para manter o câmbio nesta faixa, vendendo e comprando moeda de acordo com o mercado.

Assim, se o Banco Central vende dólares, ele está aumentando a oferta da moeda estrangeira, o que valoriza o yuan perante o dólar. Se ele compra dólares, a moeda americana fica mais escassa e, portanto, mais cara – trata-se de uma medida de desvalorização do yuan, como a que ocorreu neste início de semana.

O patamar de 7 yuans por dólar tem significado simbólico. A barreira era vista pelo mercado como um limite de cautela, que não seria cruzado em condições normais.

 

DESVALORIZAÇÃO

 

 

 

 

 

A guerra comercial com os EUA

Em 1º de agosto de 2019, o presidente americano, Donald Trump, anunciou novas tarifas comerciais sobre produtos da China. Ele prometeu taxar em até 10% um total de US$ 300 bilhões em importações de eletrônicos, roupas, brinquedos, entre outros.

 

A decisão foi mais um capítulo na guerra comercial travada entre os dois países, que começou em 2017.

 

A alta do câmbio faz com que produtos chineses fiquem mais baratos no mercado internacional. Se no início de julho US$ 100 compravam, por exemplo, 689 unidades de um produto que custa um yuan, agora essa mesma quantia compra 705 unidades. A desvalorização cambial, portanto, tem como efeito atrair o mercado e estimular as exportações chinesas.

 

A medida tomada pelo Banco Central chinês é vista como uma retaliação às ações protecionistas do governo Trump. Ao usar o câmbio como ferramenta, a China atrai para si o mercado internacional, compensando em parte as perdas resultantes das tarifas impostas pelos EUA.

 

Trump se manifestou por meio de sua conta no Twitter, dizendo que a desvalorização chinesa é uma ‘manipulação cambial’ e chamando a atenção do Federal Reserve, o banco central americano, para a situação. Segundo o presidente, a ação pode enfraquecer a China no longo prazo.

 

 

A reação dos mercados

 

Diante da superação do marco de 7 yuans por dólar, o mercado reagiu negativamente.

 

Nos Estados Unidos, as bolsas recuaram substancialmente na segunda-feira (5), como evidenciado pelos principais índices do mercado; o Dow Jones Industrial Average retraiu 2,9%, enquanto o Índice S&P 500 caiu 2,98%.

 

No Brasil, o impacto negativo também foi forte: o índice Ibovespa sofreu queda de 2,5% no dia. O dólar comercial, por sua vez, ficou 1,68% mais caro, terminando o dia na cotação de R$ 3,956.

 

O recuo dos mercados financeiros pelo mundo revela uma apreensão generalizada com as medidas tomadas pelo Banco Central da China. Existe uma preocupação de que a intensificação da guerra comercial travada entre as duas maiores economias do mundo ganhe a escala de uma guerra cambial com efeitos acentuados em outros países.

Na terça-feira (6), o Banco Central da China agiu para conter a queda do valor do yuan, o que estabilizou os mercados financeiros internacionais. No Brasil, a bolsa de valores operou em alta, enquanto o dólar apresentou leve aumento.

O impacto no resto do mundo

 

Os efeitos da desvalorização cambial chinesa se estendem para além dos mercados financeiros e da economia americana.

 

O recado comercial dado pela maior potência asiática também chegou à Europa e ao Japão. Como os preços mais baixos dos produtos da China acirram a competição nos mercados internacionais, estes países podem ver suas exportações caírem.

 

A principal dúvida agora é como os outros países com perfil exportador de manufaturados irão reagir à queda do yuan. É possível que outros Bancos Centrais pelo mundo optem pela desvalorização da moeda local, desencadeando uma guerra cambial. Nesse cenário, as economias se utilizariam do câmbio para disputar os mercados importadores.

 

Em países em desenvolvimento, como o Brasil, uma guerra cambial entre países que exportam manufaturados deixaria as importações mais baratas. Por outro lado, com moedas locais fortes – mais caras – perante às dos países exportadores, suas exportações poderiam enfrentar queda. Isso poderia levar os países em desenvolvimento a entrar na disputa, desvalorizando também suas moedas.

 

 

Duas análises sobre a desvalorização cambial chinesa

 

O Nexo conversou com dois especialistas sobre o impacto da desvalorização do yuan na economia mundial.

 

  • Alexandre Uehara, coordenador acadêmico do Centro Brasileiro de Estudos de Negócios Internacionais da ESPM
  • Joelson Sampaio, coordenador do curso de economia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo

 

 

Em meio à guerra comercial, como a desvalorização cambial chinesa afeta os Estados Unidos?

 

Alexandre Uehara O grande problema que vejo na desvalorização do yuan é que ela não afeta só os EUA, porque acaba gerando competitividade para os produtos chineses. As tarifas que o Trump está impondo acabam sendo diminuídas pelo menor preço dos produtos chineses, mas o problema é que esse menor custo não é só para o mercado americano. Se o Brasil, o Japão ou a França importarem, todos eles vão ter competitividade aumentada dos produtos chineses.

 

Nesse sentido, o desarranjo comercial é muito mais indiscriminado do que no caso das tarifas que Trump está exercendo sobre a China em particular. O impacto é mais generalizado para a economia global como um todo, não só para os EUA. De qualquer forma, é um instrumento que o governo chinês teria para minimizar as tarifas norte-americanas.

 

Joelson Sampaio A desvalorização afeta a balança comercial. A partir do momento em que a China desvaloriza sua moeda, ela abre precedente para uma guerra cambial, por deixar seus produtos mais competitivos via câmbio.

 

Os EUA podem ter suas exportações afetadas porque o produto americano vai chegar ainda mais caro à China e a outros mercados. A partir do momento em que desvaloriza o yuan, a China também está deixando o produto americano mais caro para o mercado chinês, que é um mercado muito significativo para a balança comercial americana.

 

Isso de alguma forma coloca uma pressão sobre a política americana, que até o momento era de criar cada vez mais restrições e barreiras para os produtos chineses. A desvalorização do yuan faz com que o governo americano rediscuta sua estratégia; até então, estava caminhando sem essa ameaça de uma guerra cambial por parte da China.

 

Existe hoje um risco de guerra cambial?

Alexandre Uehara Pelo que vi hoje [terça-feira, 6 de agosto], a China já tentou recuperar um pouco o valor do yuan, mas é um risco sim. Temos que ver quais serão as cenas dos próximos capítulos, mas se a China desvaloriza sua moeda, os produtos chineses ficam mais competitivos no mercado mundial como um todo, e aí economias como Japão, Coreia do Sul e o próprio Brasil podem ser afetadas. O Brasil já tem perdido muito mercado para produtos chineses, principalmente os manufaturados.

 

Existe uma tentação dos países que podem ser afetados em também buscar uma desvalorização das suas moedas para tentar recompor a competitividade frente aos produtos chineses.

 

No atual cenário de desvalorização do yuan, o risco é o Brasil perder exportações não para a China, mas para outros mercados, onde os manufaturados brasileiros ou os produtos brasileiros concorrentes de produtos chineses estariam em desvantagem.

 

Joelson Sampaio É pequena, mas existe sim essa chance. É muito provável que os EUA revejam suas políticas antes que isso possa efetivamente se concretizar.

 

Quais seriam as consequências de uma guerra cambial para o Brasil?

Alexandre Uehara Só o fato de existir essa disputa entre EUA e China já tem feito com que as economias de maneira geral fiquem mais cuidadosas, temerosas. Isso tem apontado uma tendência de desaceleração da economia mundial, o que já é ruim para o Brasil. Ainda que seja uma economia que, comparada com China e Coreia, exporta menos em relação ao PIB, o Brasil acaba sendo afetado de qualquer forma. Os países crescem menos, importam menos do Brasil e isso acaba afetando o desempenho da economia brasileira. Para o Brasil é muito ruim.

 

De outro lado, a economia chinesa — principal parceira econômica do Brasil atualmente — já vem desacelerando, por outros fatores. A continuidade de uma guerra cambial ou o acirramento da guerra comercial com os EUA são ruins para o Brasil, porque a China acaba crescendo menos e o Brasil exportando menos para a China. Acabamos sendo duplamente afetados: pelo mercado chinês, que é o principal mercado do Brasil hoje, e pelo mercado mundial como um todo, já que outros mercados acabam sendo reduzidos, o que leva o Brasil a exportar menos. Para o Brasil, é duplamente ruim.

 

Joelson Sampaio Afeta o mundo inteiro. O produto chinês vai chegar no Brasil mais barato e o produto brasileiro vai chegar na China mais caro. Na verdade, o que vale para os EUA vale para todos os parceiros comerciais da China. O produto europeu também vai chegar no mercado chinês mais caro. Isso acaba afetando todo mundo de forma direta e indireta.

 

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