A oposição à construção de um aeroporto em Machu Picchu

Ruínas incas já sofrem desgaste devido a enorme fluxo de visitantes. Empreendimento é criticado por arqueólogos, historiadores e moradores

     

    Iniciada no início de 2019, a construção de um aeroporto em Chinchero preocupa arqueólogos, historiadores e moradores locais pelos impactos na paisagem. A 59 km de Machu Picchu, a cidade é a porta de entrada para o Vale Sagrado dos Incas, no Peru.

    Atualmente, a maioria dos visitantes da localidade chega pelo Aeroporto Internacional Alejandro Velasco Astete, localizado em Cusco, a cerca de 75 km de Machu Picchu, que conta com uma única pista e se limita a aeronaves de pequeno porte, vindas da capital do país, Lima, ou de cidades próximas como La Paz, na Bolívia. 

    O planalto onde Chinchero se localiza e os vales ao redor têm caminhos e canais construídos pelo Império Inca (1438-1533).

    Uma petição com mais de 75 mil assinaturas pede que o presidente peruano Martín Vizcarra suspenda o empreendimento. Ela conta com o apoio de centenas de especialistas que atuam na região.

    O que muda com a construção

    Tanto a obra quanto o funcionamento do aeroporto internacional em Chinchero terão grandes impactos ambientais e sobre as ruínas arqueológicas, segundo urbanistas, antropólogos e acadêmicos de outras áreas.

    O novo aeroporto deve permitir voos diretos dos Estados Unidos e de grandes cidades da América Latina, levando um número ainda maior de pessoas a Machu Picchu, que já recebe sua capacidade máxima em alguns períodos do ano. A expectativa é que a região passe a receber 6 milhões de visitantes por ano.

    1,5 milhão

    foi o número de visitantes que estiveram em Machu Picchu em 2017

    Os aviões sobrevoarão em baixa altitude as ruínas do Parque Arqueológico de Ollantaytambo, única cidade inca ainda habitada, potencialmente causando danos físicos nas edificações antigas.

    Também há a preocupação de que a obra prejudique a bacia hidrográfica do Lago Piuray, responsável quase pela metade do abastecimento de água da cidade de Cusco, que possui cerca de 420 mil habitantes.

    O entorno do aeroporto

    Um novo aeroporto poderá atrair ainda outros empreendimentos nas proximidades, como hotéis, apoiados na expectativa de um grande incremento no turismo.

    O empreendimento atraiu construtoras estrangeiras de países como Coreia do Sul e Canadá. Para os habitantes locais, há a promessa de que o aeroporto gere em torno de 2.500 empregos na construção civil.

    O terreno no qual o aeroporto será construído foi comprado pelo Estado de famílias de agricultores e membros da comunidade indígena Yanacona.

    “Parece irônico e de certa forma contraditório que queiram construir um aeroporto exatamente em cima do que os turistas vieram aqui para ver”, disse o antropólogo peruano Pablo Del Valle ao jornal britânico The Guardian.

    “Corremos o risco de fazer o que os espanhóis não conseguiram: destruir tudo”, disse a historiadora peruana Mónica Ricketts, da Universidade Temple, dos Estados Unidos, à revista Science.

    Machu Picchu já está no limite

    Em 2017, sob a ameaça de que a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) incluísse Machu Picchu na lista de patrimônio em risco devido ao imenso fluxo de visitantes, foram colocadas em vigor algumas regras que restringiram o acesso ao local.

    Foram estabelecidos, por exemplo, dois turnos de visita e a entrada de um número determinado de pessoas por guia, não sendo permitida a entrada na cidadela sem um guia.

    Em maio de 2019, o acesso de turistas a dois templos e uma pirâmide teve que ser limitado para controlar o desgaste da superfície de pedra causado pelo trânsito de visitantes.

    Machu Picchu foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1983. Durante os primeiros anos, a cidadela inca recebeu cerca de cem mil visitantes por ano.

    O número de turistas deu um salto a partir de 2007, quando foi reconhecida como uma das “sete novas maravilhas do mundo moderno” em uma sondagem realizada pela empresa suíça New Open World Corporation. Naquele ano, já foram vendidas 800 mil entradas.

    O que diz o governo do Peru

    O ministro das Finanças do Peru, Carlos Oliva, declarou a jornalistas em maio de 2019 que o aeroporto deve ser construído o “mais rápido possível” por ser “muito necessário” para a cidade de Cusco. Disse ainda que há uma série de estudos técnicos que apoiam o projeto.

    Segundo o prefeito de Chinchero, Luis Cusicuna, líderes locais defendem desde os anos 1970 a construção de um segundo aeroporto, que seja maior, na região.

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