Secos & Molhados: um estouro na época mais repressiva da ditadura

O ‘Nexo’ conversou com o jornalista Miguel de Almeida, autor de uma nova biografia do grupo, sobre a influência da banda no mundo da música e na sociedade brasileira durante os ‘anos de chumbo’

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    “Lembro-me com muita clareza dessa época do estouro dessa banda maravilhosa, época em que contava com meus sete anos incompletos. Uma saudosa irmã minha sempre me pedia para ir no vizinho pegar emprestado o LP do Secos & Molhados na mão do seu então namorado, João. Ouvíamos tardes inteiras e eu já gostava desse som mesmo sem entender muito, apenas gostava.”

    O comentário pode ser lido em uma página do YouTube com o áudio do álbum “Secos & Molhados - Gravado ao Vivo no Maracanãzinho”. As apenas 41 mil visualizações não fazem jus à popularidade real da banda. Dando play é possível ter uma ideia melhor. Se percebe o rumor da numerosa plateia do show, que preencheu os 25 mil lugares do ginásio, segundo a imprensa da época. Quando Ney Matogrosso começa a cantar “Rosa de Hiroshima”, a empolgação cresce.  

     

    Em cerca de um ano, os Secos & Molhados foram dos primeiros ensaios ao nome mais popular da música brasileira daquela época. Quando encerraram o grupo, em agosto de 1974, tinham batido recordes históricos de vendas de discos e de lotações de apresentações ao vivo.

    A trajetória do grupo é relatada com abundância de detalhes em “Primavera nos Dentes - A História do Secos & Molhados” (Três Estrelas, 2019), do jornalista, cineasta e escritor Miguel de Almeida. Para além de uma pesquisa caprichosa sobre informações biográficas, a obra proporciona descrições vivas do ambiente cultural, social e político da época.

    O álbum de estreia da banda, “Secos & Molhados”, de 1973, vendeu um milhão de cópias em questão de meses, segundo números divulgados pela gravadora Continental. O artista brasileiro mais bem-sucedido da época, lembrou Almeida, em entrevista ao Nexo, era Roberto Carlos. No mesmo ano, ele teria vendido 300 mil discos.

    Os Secos & Molhados estavam sintonizados com uma atitude transgressora e provocativa. Para além do que traziam na imagem e no palco, muitas de suas letras continham significados políticos e libertários

    Formado por Ney Matogrosso, João Ricardo e Gérson Conrad, o grupo era popular em diversos estratos sociais e geracionais. As crianças, como lembra o comentário acima, eram fascinadas pelo grupo, em especial a figura sinuosa, enigmática e ultra-maquiada do vocalista Ney Matogrosso.

    O Brasil de 1973

    O país vivia os chamados “anos de chumbo” da ditadura militar. Foi um período de intensa repressão, com centenas de casos de tortura, morte e desaparecimento de opositores do regime. A censura a veículos de imprensa e obras culturais havia se institucionalizado.

    O período foi inaugurado em 1968, com o AI-5 (Ato Institucional nº 5), um decreto emitido pelo “Comando Supremo da Revolução” – que é o nome que a cúpula da ditadura militar (1964-1985) dava a si mesma – e assinado pelo general Artur da Costa e Silva, em 13 de dezembro de 1968.

    Entre as ações do regime militar, estava o desmantelamento de organizações clandestinas de esquerda, algumas das quais tinham pego em armas. O ano de 1973 foi marcado pelas ações contra guerrilheiros na região do Araguaia. Em dezembro daquele ano, o governo anunciou a derrota dos opositores.

    Em março de 1973, Alexandre Vannucchi Leme, estudante de Geologia da USP (Universidade de São Paulo), foi morto pelas forças de segurança. A missa realizada em sua memória, na Catedral da Sé, em São Paulo, se tornou o primeiro grande protesto desde o AI-5.

     

    No mesmo mês, artistas como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Odair José se apresentaram em São Paulo no festival Phono 73. Gil e Chico tiveram seus microfones cortados pelos censores presentes ao tentar interpretar a música “Cálice”.

    O presidente do Brasil era o general Emílio Garrastazú Médici, que ocupou o cargo até 15 de março de 1974. Em seu lugar entrou o general Ernesto Geisel, que conduziria o regime em uma direção menos repressora.

    O sucesso e as referências

    No pop e rock dos Estados Unidos e Reino Unido, a tendência conhecida como “glam” ou “glitter” era uma das mais fortes. Androginia, bissexualidade, maquiagem em homens e atitudes provocativas e exuberantes estavam na ordem do dia.

    O britânico David Bowie era um dos expoentes desta movimentação, com sua performance teatral e a criação de personagens como o alienígena Ziggy Stardust. Em Nova York, o ex-Velvet Underground Lou Reed cantava sobre o “lado selvagem” da cidade, suas drag queens, drogas e michês. A música aparece no álbum “Transformer”, produzido por Bowie.

    Os Secos & Molhados estavam sintonizados com essa atitude transgressora e provocativa. Para além do que traziam na imagem e no palco, muitas de suas letras continham significados políticos e libertários.

    Em uma época em que diversos países latino-americanos viviam sob ditaduras (em 1973, Chile e Uruguai tiveram golpes militares), Ney celebrou a capacidade de resistência das populações do continente em “Sangue Latino”. “Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos”, entoou na música que foi um dos sucessos do primeiro disco.

    Já em “Primavera nos Dentes”, a letra decreta que “Quem tem consciência para ter coragem/Quem tem a força de saber que existe”. Outro grande hit do primeiro álbum, “O Vira”, consegue ser lúdico e fazer referência à sexualidade de maneira sutil quando pede “Vira, vira, vira homem, vira, vira/Vira, vira, lobisomem”.

    O Nexo ouviu o autor Miguel de Almeida sobre alguns dos aspectos marcantes da carreira e obra do grupo.

    “Eram três personagens no palco”

    “Uma das razões do sucesso dos Secos & Molhados foi justamente o visual, o que eles colocavam em cima do palco. Foram o primeiro grupo brasileiro a oferecer ao público a ideia do teatro, da dramaturgia, do personagem. O trio que subia ao palco não era João Ricardo, Gerson e Ney Matogrosso, eram três personagens. Ney trouxe isso do teatro. O grupo oferecia um espetáculo onírico, lúdico. Lembre-se que, na época, artistas como Chico Buarque ainda tocavam muitas vezes de smoking ou terno e gravata. Falava-se muito da influência do glam, do glitter, como Bowie, em Londres, ele apresentando personagens, pintando o rosto. Em Nova York, também. Então havia uma sintonia de época de usar tintura no rosto. Mas nenhum chegou ao que fizeram os Secos & Molhados, os mais radicais de todos, mas de um jeito bem brasileiro.”

    “As crianças se fantasiavam de Ney Matogrosso”

    “Não se pode esquecer que os Secos & Molhados foram catapultados ao sucesso graças à exibição de duas músicas deles, ‘O Vira’ e ‘Sangue Latino’, no Fantástico. O programa só tinha três meses de existência, mas já era líder absoluto de audiência. Era um tempo em que a TV, especialmente a Globo, tinha uma audiência brutal, em torno dos 90%. Colocaram na casa do brasileiro esses personagens. As músicas, que tinham qualidade extraordinária, viraram hits facilmente. Os conservadores, as autoridades, não se deram conta. Quando perceberam, as crianças, as mulheres, já cantavam as músicas. Nas festas, as crianças se fantasiavam de Ney Matogrosso. Faziam o pai tocar ‘O vira’ e ficavam imitando a dança. Enquanto isso, as mulheres identificavam no Ney um componente sexual de alta voltagem.”

    “Ney colocou androginia na sala de estar”

    “Os três são, obviamente, altamente politizados, mas de um jeito diferente de Chico Buarque e a turma que ele representava. Havia diferentes opiniões sobre como enfrentar a ditadura, como contestar. Os três estavam em outro viés, especialmente Ney. Era a turma que não queria fazer uma arte engajada, emitindo sinais diretos de contestação. Nisso, eles se perfilavam a personagens como [o diretor de teatro] Zé Celso Martinez Corrêa, ou os próprios tropicalistas em muitas de suas canções. Ney Matogrosso era um personagem mais identificado com o que se chamava de desbunde, pessoas mais preocupadas com o corpo, com a liberdade individual, a questão do sexo, da liberdade de gênero, das experimentações com drogas. Para a esquerda tradicional, esses eram mecanismos de alienação. Mas Ney conseguiu colocar na sala de estar do brasileiro a questão de gênero por meio da androginia, mas sem evidenciar a sexualidade. Essa movimentação do Ney era assim muito mais sediciosa que o que a esquerda tradicional trazia.”

    “Depois deles, começaram a fazer shows em estádios”

    “Eles inauguram de fato a indústria cultural brasileira. O sucesso deles fez executivos de gravadoras e empresários do showbusiness perceberem o potencial econômico da área. O Roberto Carlos, o maior vendedor de discos da época, vendia em um ano inteiro 300 mil discos. Os Secos & Molhados venderam um milhão de discos em um prazo de poucos meses. Para se ter uma ideia, faltou matéria-prima para a gravadora Continental fazer tantos discos. Tiveram de derreter discos já prensados, de outros artistas, para serem reutilizados com canções dos Secos & Molhados. Depois, se apresentaram no Maracanãzinho e bateram recorde de público para a apresentação de um único artista. Por que lá? Porque não havia teatro ou espaços que comportassem aquele sucesso. Depois deles, começam a fazer shows em estádios. Eles mesmo se apresentam pelo interior em ginásios. Roberto Carlos nunca tinha se apresentado em um parque, um ginásio, como eles fizeram.”

    “É preciso enfrentar”

    “Eles não tinham medo de nada, de serem presos, censurados. Ney Matogrosso era convicto em ser do jeito que queria ser, naquele momento. Ele traz isso para o grupo. Eles enfrentavam reações contrárias, em casos em que autoridades quiseram colocar roupa no Ney, ou mexer na sua dança, não se submeteram a esse tipo de controle. Teve um espetáculo em Brasília em que Ney se recusa a pôr a camisa a pedido de um delegado. A autoridade mandou apagar a luz do estádio, tirar o som. A banda ameaçou sair do palco. Se isso acontecesse, o enorme público presente reagiria. O delegado, então, afinou. É o que eles deixam de legado para os dias de hoje: é preciso enfrentar.”

     

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