Os autores que se dedicam aos quadrinhos mudos

HQs sem balões de diálogo ganham espaço no Brasil e no mundo. Para quadrinistas, elas exigem grande domínio narrativo

Temas

Tradicionalmente os quadrinhos se apresentam na junção de um desenho com um texto. Mas há aqueles que optam por contar uma história apenas com imagens, a partir da chamada narrativa gráfica. O conjunto de técnicas é usado por quadrinistas para comunicar uma história apenas por meio de desenhos.

É o caso do francês Christophe Chabouté, que publicou em 2012 o álbum “Um pedaço de madeira e aço”. Em 336 páginas, o quadrinista apresenta, sem qualquer balão de diálogo, a história de um banco de praça e das pessoas que passam por ele diariamente.

 

A chave para produzir um quadrinho sem balões é o domínio da narrativa, diz Olavo Costa, quadrinista e um dos coordenadores pedagógicos da Quanta, uma das principais escolas brasileiras a oferecer cursos de criação de HQs. “Saber as técnicas de desenho é importante, mas não é fundamental. Você pode fazer um quadrinho com bonecos de palito. Mas você precisa saber narrativa, o como contar essa história”, explicou ao Nexo.

Para que o quadrinista tenha uma base sólida para traduzir a história em imagens, Costa salienta a importância do roteiro. “Apesar de não ser um roteiro com diálogos, ele é algo que vai organizar a sequência de desenhos de maneira lógica”, apontou.

Quadrinhos sem diálogos no Brasil e no mundo

Quadrinistas de diversas partes do mundo produzem HQs sem diálogos. No Brasil, um dos principais nomes desse subgênero é Gustavo Duarte.

Duarte venceu o troféu de melhor novo talento pelo prêmio HQ Mix, o maior do tipo no Brasil, em 2010. O quadrinista é autor de “Monstros!”, HQ sem balões de texto que conta as aventuras de monstros gigantes da mitologia japonesa. O álbum foi publicado nos Estados Unidos em 2014.

 

Gustavo Borges, que já participou do selo de graphic novels de Mauricio de Sousa, lançou em 2015 o “Pétalas”, que conta uma história de amizade de animais antropomorfizados. O projeto foi financiado coletivamente, e conseguiu atingir uma meta dez vezes maior do que a original.

Em outros países, quadrinistas importantes já se dedicaram ao gênero.

França

Moebius, um dos quadrinistas mais importantes do século 20, produziu em 1975 as histórias do guerreiro Arzach, que vaga por um mundo fantástico distópico montado em um pterodáctilo e tem as mais diversas aventuras.

Itália

O desenhista italiano Federico Bertolucci se juntou ao roteirista francês Frederic Bremaud em 2017 para produzir “Love: the Dinosaur”, que mostra o dia a dia de um tiranossauro no período pré-histórico.

Japão

O quadrinista Yuichi Yokoyama lançou em 2005 o mangá “Travel”, que conta a história de passageiros de um trem que está cruzando o país.

 

As vantagens e os desafios

Costa acredita que a principal vantagem em se produzir um quadrinho sem diálogos é transmitir ao leitor tudo o que é necessário apenas por meio do desenho. Ao mesmo tempo, a técnica traz desafios ao quadrinista. “Ele precisa entender muito de composição de cena, de organização espacial, além de transmitir uma passagem de tempo em uma sequência de quadros ou em um único quadro”, afirmou.

“Você tem que ser muito bom para fazer um quadrinho mudo, é muito difícil”, disse ao Nexo Daniel Lopes, da Pipoca & Nanquim, editora que publica o quadrinista francês Christophe Chabouté no Brasil. “E ele não conta só a história, ele transmite toda as emoções, o calor e a doçura daquilo tudo."

Lopes acredita que muitas vezes o texto é usado como uma “muleta” para expressar algo que não ficou muito claro no desenho. A falta de clareza não pode ocorrer no quadrinho sem diálogos – algo reiterado por Costa.

“Às vezes a imagem só retrata o que está escrito no texto, mas os melhores desenhos são aqueles que complementam o texto”, disse. “No quadrinho sem diálogos, a imagem é o texto, precisa estar tudo ali”, acrescentou.

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