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O que dizem os números do desemprego brasileiro

A pesquisa Pnad revelou queda na taxa de desocupados no Brasil. O ‘Nexo’ conversou com economistas sobre o perfil das novas vagas e o impacto das medidas do governo Bolsonaro nos dados

 

 

A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta quarta-feira (31) revelou que a taxa de desemprego no Brasil no segundo trimestre de 2019 ficou em 12%.

 

O resultado representa uma queda em relação aos primeiros 3 meses do ano, quando a taxa de desocupação ficou em 12,7%.

 

NOVA QUEDA

 

 

 

A pesquisa é divulgada em trimestres móveis – ou seja, a cada mês divulga-se o resultado que considera o mês mais recente e os dois anteriores. O desemprego também caiu em relação ao trimestre móvel anterior, que considera março, abril e maio, período em que ficou no patamar de 12,3%. A última alta registrada foi entre os meses de dezembro de 2018 e fevereiro de 2019.

 

 

O rendimento médio

 

Mesmo com a redução do desemprego, a renda média mensal por trabalhador caiu em termos reais, o que indica que os novos postos que estão sendo criados têm remuneração mais baixa. No trimestre encerrado em junho, a renda média registrada foi de R$ 2.290.

 

QUEDA DESDE FEVEREIRO

 

 

 

A tendência de rendimentos mais baixos já dura desde o trimestre móvel finalizado em fevereiro, quando o valor médio real por trabalhador ficou em R$ 2.329 por mês.

 

 

O perfil das novas vagas

 

As novas vagas também podem ser caracterizadas pelas poucas horas trabalhadas ao dia. É o que se chama de subocupação: quando a pessoa está empregada, mas passa horas insuficientes no serviço.

 

Conforme mostrado pela Pnad, essa configuração de trabalho já atinge mais de 7,3 milhões de trabalhadores, o que representa 7,9% das pessoas ocupadas.

 

MAIS VAGAS, MENOS HORAS

 

 

A informalidade também cresceu. No setor privado (excluindo trabalhadores domésticos), por exemplo, as vagas com carteira assinada cresceram 0,9% em relação ao primeiro trimestre de 2019. Já as vagas sem carteira assinada aumentaram proporcionalmente mais, subindo 3,4%.

 

Boa parte dos novos empregos criados, portanto, é constituída de trabalhos não-integrais (com as chamadas horas insuficientes) e de vagas informais.

 

Renan Pieri, professor de economia da FGV (Fundação Getulio Vargas), destaca que a criação de vagas foi puxada pelo setor de serviços. “A recuperação do emprego tem se dado sobretudo no setor de serviços, que é um setor com investimentos mais curtos”, disse ao Nexo.

 

O desalento

 

Os dados da pesquisa divulgada pelo IBGE mostram que o número de pessoas que gostariam de trabalhar mas desistiram de procurar emprego – as chamadas desalentadas – aumentou no segundo trimestre de 2019 em relação ao primeiro.

Na comparação entre os dois períodos, 34 mil pessoas deixaram de buscar vagas no mercado de trabalho. Com isso, o desalento passou a atingir mais de 4,8 milhões de pessoas.

 

MAIS PESSOAS DESISTEM

 

 

 

Duas análises sobre o desemprego

O Nexo conversou com dois professores de economia sobre o impacto das medidas do governo Bolsonaro nos números do desemprego e sobre as perspectivas para o resto de 2019.

 

  • Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor de economia da Unicamp e pesquisador do Cecon-Unicamp
  • Juliana Inhasz, coordenadora do curso de economia do Insper

 

Em que medida o governo Bolsonaro contribuiu para a redução do desemprego?

 

Pedro Paulo Zahluth Bastos Se for tomado o período do governo como um todo (6 meses), não houve redução do desemprego; pelo contrário, houve um aumento. No último trimestre de 2018, o desemprego estava em 11,6%, menor do que agora em junho (12,0%). Houve uma piora fortíssima do desemprego no primeiro trimestre do governo Bolsonaro. O que tivemos agora foi uma recuperação não total das perdas do primeiro trimestre. Existe um componente sazonal: sempre o desemprego aumenta muito no primeiro trimestre e recupera fortemente no segundo.

 

Os números da subutilização, de desalentados, de subocupados por insuficiência de horas são os maiores da série. A subutilização total é 28,4% – também um recorde.

 

A taxa mostra que as pessoas estão precisando sobreviver de qualquer maneira porque a renda está caindo. Há muitos membros da família que até então não estavam ocupados que agora estão correndo para o mercado de trabalho porque a renda das famílias está pressionada. A recuperação, do ponto de vista da demanda agregada, não ocorreu.

 

O número de trabalhadores por conta própria chegou a 24,1 milhões de pessoas, um recorde. Alguns exemplos são o moço do carrinho de pipoca e o camelô; são serviços em que a pessoa está teoricamente ocupada, embora entre neste perfil do subutilizado. Ela só consegue empregos eventuais, bicos ou por conta própria.

 

À luz do semestre inteiro, comparado com o último semestre do ano passado, e considerando a estrutura do emprego gerado, não houve melhora.

 

Juliana Inhasz Dar andamento a uma agenda de reformas estruturais que tenta resolver o problema fiscal no Brasil cria dentro da economia uma percepção de que as coisas podem começar a melhorar com um vigor maior em um futuro não muito distante. O que vemos é essa percepção de que a economia começa a dar passos mais vigorosos no caminho de um desenvolvimento econômico mais sustentável.

 

Sem dúvida, existe uma contribuição no sentido de que as políticas que estão sendo pensadas e as medidas que estão sendo tomadas favorecem uma melhoria da percepção, e criam uma onda de otimismo (mesmo que não seja tão exagerado) que favorece a contratação.

 

As políticas que estão sendo efetuadas, em si, não têm tanto apelo de conseguir reverter a situação de uma forma mais rigorosa. Não conseguimos ter uma reversão total, por isso o desemprego ainda cai muito devagar. As políticas que estão sendo feitas ajudam a melhorar o ambiente, mas a expectativa é o que acaba governando boa parte deste resultado.

 

Qual a tendência para a trajetória do desemprego até o final do ano?

Pedro Paulo Zahluth Bastos O que temos que olhar é a questão da demanda agregada. Você tem aumento do emprego com baixíssima demanda agregada. Do ponto de vista do consumo, percebe-se que as famílias estão mais endividadas em parte por causa da queda do rendimento médio dos trabalhadores.

 

O investimento das empresas não vai se recuperar sozinho, porque as empresas também estão começando a indicar que o principal problema para elas não é se elas confiam ou não nas promessas do Bolsonaro. O principal problema é a demanda agregada.

 

As exportações caíram no primeiro semestre comparado com o mesmo período do ano passado. E as importações ficaram estagnadas, o que significa que a demanda agregada local não está aumentando a ponto de exigir mais importações.

 

O que é incerto é a reação do governo. O governo Bolsonaro contribuiu para a piora do desemprego no primeiro trimestre porque realizou cortes orçamentários muito fortes no primeiro trimestre. Se o governo insistir naquilo que chamamos de austeridade expansionista - a ideia de que cortar gastos gera um efeito de aumento da confiança dos empresários, que os levaria a investir independentemente de seus índices de capacidade ociosa e expectativas de demanda - teremos problemas para a economia e para o emprego no segundo semestre.

 

É esse o cenário de incerteza. Mas o que eu aposto é em uma estagnação da demanda agregada com uma eventual redução da taxa de desemprego por conta do aumento da taxa de participação e emprego por conta própria. Mas com baixíssimo aumento do emprego integral e formal.

 

Juliana Inhasz A tendência é que continuemos tendo reduções. A redução que aconteceu agora foi mais vigorosa. Talvez ainda enxergaremos nos próximos 2 ou 3 meses reduções um pouco maiores, relativamente mais vigorosas do que aquelas que observamos até o ano passado e o começo deste ano.

 

Devemos continuar uma trajetória de queda, mas é difícil acreditar que essa trajetória do último mês se replique na mesma magnitude até o final do ano. Devemos ter mais 2 ou 3 meses com quedas mais acentuadas, mas a tendência é que continuemos em uma queda mais discreta. Salvo eventuais meses muito bons, não teremos grandes quedas ou uma reversão tremenda do desemprego até o final do ano. Ainda devemos ter uma economia que caminha, mas com o freio de mão puxado.

 

Faltam ações mais efetivas para que consigamos de fato virar a trajetória, então ainda devemos ter uma economia com pouco dinamismo econômico e que carece de ajustes mais estruturais.

 

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