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O nadador que atravessa a mancha de plástico do Pacífico

Ben Lecomte, de 52 anos, pretende nadar 555 quilômetros para medir a poluição no oceano e documentar o impacto ambiental dos resíduos

     

    Um nadador francês está atravessando a Grande Mancha de Plástico do Oceano Pacífico como forma de chamar a atenção para seu impacto ambiental. Ben Lecomte, de 52 anos, pretende cruzar 300 milhas náuticas, ou 555 quilômetros, a nado, em meio à alta concentração de resíduos presente entre o Havaí e a costa da Califórnia.

    A expedição teve início de 14 de junho de 2019 e deve chegar ao seu destino em setembro.

    O nadador, que há 20 anos vive na cidade americana de Austin, no Texas, vem nadando em média oito horas por dia. Ele é acompanhado por um barco de apoio, onde se alimenta e descansa.

    Foto: Reprodução/Instagram/osleston
    tampinhas
    Benoit Lecomte exibe tampinhas de plástico recolhidas no mar
     

    A rota de Lecomte é determinada por cientistas da Universidade do Havaí. Por meio de imagens de satélite e modelagem oceânica, que são projeções que simulam movimentos marítimos, os pesquisadores mapeiam onde há maior concentração de resíduos.

    “Nosso objetivo é chegar na Califórnia com a primeira base de dados transpacífica de poluição plástica e, assim, engajar o maior número de pessoas possível em direção a uma solução”, explicou Lecomte ao jornal britânico The Guardian.

    O nadador e sua equipe vêm recolhendo amostras de microplástico e pregando identificadores com GPS em plásticos flutuantes de tamanho maior. O objetivo é ajudar pesquisadores a estudar o percurso de resíduos plásticos através do oceano.

    Para Lecomte, a viagem também serve para que as pessoas entendam melhor do que se trata a mancha. Inicialmente, divulgou-se que era como uma “ilha de lixo”. Na definição do nadador, ela é melhor descrita como uma “poluição submersa de microplástico”. Segundo uma estimativa, dos 1,8 trilhão de objetos contáveis na mancha, 94% são microplásticos. 

    Foto: Reprodução/Instagram/osleston
    microplástico
    Ben Lecomte e membro da equipe analisam pedaços de microplástico colhidos na água
     

    Em três semanas de travessia, a equipe de Lecomte coletou mais de 17 mil pedaços de microplástico e detectou mais de 1.200 pedaços maiores de lixo flutuante. Um pedaço de plástico foi encontrado até no estômago de um peixe pescado para uma refeição da tripulação. “É o lixo plástico sendo devolvido aos nossos pratos”, comentou Lecomte.

    A equipe também tem apanhado muito material deixado por navios de pesca. Um estudo publicado pela revista científica Nature, em 2018, constatou a grande presença desse tipo de resíduo na mancha.

    “Esse estudo [confirma] que itens de pesca perdidos são responsáveis pela morte de muitos animais, e que o debate sobre o plástico deve se tornar mais abrangente para realmente resolvermos o problema", declarou George Leonard, cientista chefe da ONG ambiental Ocean Conservancy, à revista National Geographic.

    Foto: Reprodução/Instagram/osleston
    plástico
    Objeto de plástico encontrado pela expedição no Oceano Pacífico
     

    Lecomte consegue ficar na água por até cinco horas sem interrupção. Durante pausas, ele recebe sopa e água. Depois das oito horas diárias, o nadador volta para a embarcação para uma refeição à base de carboidratos e descanso prolongado. Ele nada sete dias por semana.

    Imagens da viagem podem ser vistas nas contas de Instagram de Ben Lecomte e do pesquisador Adam Hill, que está à bordo do barco que acompanha o nadador.

    O que são microplásticos

    São partículas de plástico que podem ter até 5 milímetros, de acordo com o parâmetro estabelecido pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, dos EUA. Elas estão presentes em produtos de beleza e higiene pessoal, como esfoliantes, shampoos, sabonetes, pastas de dente, delineadores, desodorantes, gloss e protetores labiais. Também chegam à natureza como resíduos dispensados durante a lavagem de roupas de fibras de plástico como o poliéster. E podem ainda se originar a partir da quebra de pedaços de plástico maiores.

     

    Uma análise da Orb Media, produtora de jornalismo investigativo sem fins lucrativos de Washington, e realizada pela Escola de Saúde Pública da Universidade de Minnesota, analisou 159 amostras de água de torneira de cidades dos Estados Unidos e da Europa, além de Jakarta, na Indonésia, Nova Déli, na Índia, Beirute, no Líbano, Campala, em Uganda, e Quito, no Equador. O trabalho encontrou microplásticos na água da torneira em 83% das amostras pesquisadas.

    Segundo um estudo da ONG WWF (World Wildlife Foundation), o Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo. São 11,3 milhões de toneladas produzidas pelo país anualmente. Na frente estão apenas Estados Unidos (70,8 milhões de toneladas), China (54,7 milhões) e Índia (19,3 milhões).

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