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O que é um relacionamento abusivo. E como identificá-lo

Influenciadora digital relatou em vídeo sua experiência e desencadeou milhares de outros relatos no Twitter com a hashtag #MeuExAbusivo

Em agosto de 2019, a hashtag #MeuExAbusivo se tornou o tópico mais mencionado do Twitter no Brasil. Reuniu dezenas de milhares de tuítes de mulheres que compartilharam o abuso psicológico e físico vivido em relacionamentos passados.

A manifestação online seguiu a mesma dinâmica de outras hashtags feministas que emergiram a partir de 2015, como #MeuAmigoSecreto e #PrimeiroAssédio: a quebra do silêncio sobre determinada experiência relacionada ao machismo fez surgir uma onda de relatos sobre situações semelhantes.

No caso da #MeuExAbusivo, foi o relato em vídeo da influenciadora digital Dora Figueiredo sobre um relacionamento abusivo recente, compartilhado em seu canal no YouTube em 17 de julho de 2019, que deu início à hashtag. Em 1º de agosto, o vídeo já havia sido assistido por mais de 2,2 milhões de pessoas.

Ela conta como “sugestões” do ex-namorado sobre seu comportamento se tornaram abusos e comentários destrutivos que minaram sua autoestima e saúde mental.

Novos termos para ações antigas

Para a psicóloga Paula Licursi Prates, o movimento desencadeado pela hashtag tem a ver com uma mudança de mentalidade.

“Antes, as pessoas tinham algumas coisas como naturais, os padrões de gênero eram mais fixos”, disse ao Nexo. Ela aponta que o feminismo ajudou a gerar questionamentos e deu abertura para que relacionamentos abusivos fossem encarados como tais.

“Tenho a impressão de que o termo veio para mostrar uma coisa que já acontecia, mas era naturalizada”. Prates coordena a área de saúde mental do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, ONG criada em 1981 e baseada em São Paulo.

A importância e o impacto dos relatos, segundo ela, é que ao falar, valida-se a experiência do outro e, reciprocamente, se é validado por ela.

“Sai do privado e vai para o público, [atua] tanto em nível micro quanto macro. As hashtags amplificam muito [o discurso] e permitem que outras pessoas digam ‘eu também’. Encorajam, fortalecem, e isso vai, com certeza, repercutir nas relações micro. Porque os homens também estão sendo afetados por esses movimentos. Eles também têm que pensar duas vezes antes de agir. Está todo mundo meio perdido com essas mudanças: ótimo. Vamos experimentar novas formas [de nos relacionarmos]”, afirmou.

O que define uma relação abusiva

A psicóloga conceitua sucintamente um relacionamento abusivo como o que invade e vai contra a vontade da mulher.

Estando em um relacionamento, ela diz ser preciso se perguntar: “Estou feliz? Está bom pra mim? Está somando, estou me desenvolvendo?” Respostas positivas são sinais também positivos. “É se sentir livre, apoiada, estar bem. Tudo que vai contra isso, é para questionar”, disse Prates.

Embora qualquer pessoa, homem ou mulher, possa cometer abuso psicológico, a desigualdade de gênero faz com que elas sejam as vítimas mais comuns desse tipo de relação.

O Ministério Público do Estado de São Paulo lançou, em junho de 2019, a cartilha “Namoro Legal”.

Disponível online e elaborado pela promotora Valéria Diez Scarance Fernandes, coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público do estado, o material traz, em linguagem coloquial, sete dicas práticas para identificar um relacionamento abusivo e o que fazer ao distinguir esse tipo de comportamento. O Nexo resume abaixo esses pontos:

Confiar na atitude e não nas palavras

Atitudes explosivas, comportamentos autoritários e críticas cruéis e constantes ao que a pessoa fala, seu corpo, postura, amigos e família devem acender um sinal de alerta. São práticas que destroem a autoestima e procuram controlar com quem ela se relaciona, levando à insegurança e ao isolamento. É preciso impor limites e saber que “quem gosta de verdade aceita, apoia e incentiva, não anula a outra pessoa. Se o namoro te fizer mal, procure apoio dos amigos, da família e caia fora!”.

Ter um espaço próprio

Significa manter as atividades e pessoas das quais se gosta, reservar tempo para si mesmo e um território próprio, físico e mental, sem deixar de ser quem é pelo outro. A cartilha sugere preencher uma lista que estipula seu espaço a ser preservado.

Não aceitar o ‘Código da Boa Namorada’

Não existe uma lista de comportamentos permitidos ou proibidos para garotas, muito menos impostos pelo namorado. É importante aprender a dizer não e a respeitar seus limites. Em tópicos, há alguns parâmetros como não aceitar gritos e interrupções e não trocar de roupa por causa do outro.

Manter a ‘chave da sua vida’

Não abrir mão daquilo que dá à mulher poder de decisão, como trabalho, estudo e independência, é muito importante. Cair na armadilha de entregar “a chave da sua vida”, metáfora usada pela cartilha, na mão do outro faz com que o relacionamento deixe de ser uma escolha e se torne uma prisão.

Ter vida fora do relacionamento

Equilibrar a vida pessoal com o namoro e não se afastar das outras pessoas de quem se gosta é essencial para a autoestima e a independência. Se a relação não estiver legal, estar amparada emocionalmente por outras pessoas ajuda a sair dela.

Atentar para a ‘montanha-russa de emoções’

Explosões seguidas de desculpas, ser alvo de xingamentos num dia e receber agrados no outro é um ciclo típico do relacionamento abusivo. O material do Ministério Público propõe um teste: “as pessoas dizem, em tom de preocupação, que você está diferente depois que começou a namorar? Você já teve medo do seu namorado alguma vez?”, são algumas das questões que servem para reconhecer um relacionamento abusivo.

Amor não é tudo

Não há amor capaz de mudar um padrão que está naturalizado dentro da outra pessoa. “Ele é o que é e a única pessoa que tem o poder de mudá-lo é ele mesmo”, diz a cartilha. Não existe justificativa ou perdão para violência. Se sentir medo ou não tiver gostado de algum comportamento, “levante a cabeça, não sinta vergonha, peça ajuda”.

A dificuldade em reconhecer

A cartilha é voltada para a conscientização de adolescentes e mulheres jovens, de 15 a 20 anos. Segundo a edição de 2019 da pesquisa “Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil”, encomendada ao Datafolha pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 42% das mulheres entre 16 e 24 anos no Brasil sofreram violência em 2018.

“Mesmo mulheres adultas muitas vezes só percebem que estão em uma relação abusiva quando já estão sofrendo muito, isoladas da família e amigos, afastadas do estudo, do trabalho e sem amor próprio. Para as garotas, pode ser ainda mais difícil identificar quando estão sofrendo abuso”, diz a apresentação do guia.

A dificuldade de se identificar a situação, segundo Prates, se deve a fatores como a naturalização de comportamentos abusivos, o grau de subjetividade envolvido, o investimento emocional da vítima, os papéis de gênero e a socialização.

A coordenadora da área de saúde mental do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde diz que a questão nem sempre é objetiva e de fácil identificação. “[Pode ser] sutil a diferença entre o que é um problema de relacionamento normal, onde com o diálogo se constrói acordo, e o que é um abuso de direito. Às vezes o ciúme é confundido com amor – ‘é porque gosta’, ‘quem ama, cuida’ – mas é um comportamento controlador, restritivo”, disse.

Para barrar comportamentos abusivos e sair da relação, de acordo com Prates, “as mulheres precisam se autorizar, primeiro, a dizer não”. Para ela, antes a educação da mulher não a permitia agir dessa forma. “Isso está mudando. É preciso questionar o desconforto. Não tem que aguentar, a responsabilidade com relação ao relacionamento não é só da mulher”.

Consequências ficam com a vítima

Humilhação, vergonha e medo são sentimentos constantes para quem passa por uma relação abusiva, declarou o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral no programa Encontro com Fátima Bernardes, exibido pela Rede Globo na quarta-feira (31).

Muitas também desenvolvem doenças como depressão e ansiedade. Para o especialista, a relação fragiliza, prejudica a autoestima e a crença sobre ser possível se relacionar novamente.

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