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Este estudo mostra o que mudou na forma como casais se conhecem

Pesquisa feita nos Estados Unidos explica como a internet se tornou palco da paquera contemporânea nas últimas décadas

     

    Se, em 2009, 22% dos casais heterossexuais dos Estados Unidos se formaram por meio da internet, em 2017 essa proporção chegou a 39%. O principal motivo é a ascensão dos sites e aplicativos de paquera. Esse é um dos principais pontos levantados pelo estudo acadêmico “How couples meet and stay together”, ou “como casais se conhecem e permanecem juntos”, em tradução livre.

    Enquanto as redes ganharam espaço, caiu a proporção de pessoas que se conheceram por intermédio de amigos, da família ou de vizinhos. Menos casais também se formaram em lugares como o trabalho, a escola, a igreja e a universidade.  

    A pesquisa indica que os encontros na internet não são necessariamente superficiais, e frequentemente se transformam em relacionamentos duradouros.

    Lançada em 22 de julho de 2019, a segunda edição da pesquisa foi realizada em 2017. Tanto ela quanto a edição anterior, de 2009, foram produzidas por pesquisadores ligados à Universidade de Stanford, com recursos da instituição e da United States Nacional Science Foundation, uma agência governamental para a promoção da ciência. No total, 4.002 americanos responderam ao levantamento de 2017. Destes, 3.009 tinham um parceiro amoroso.

    Entre casais homossexuais, a proporção daqueles que haviam se encontrado online era de 65% em 2017 – patamar que se manteve praticamente o mesmo desde 2009.

    Segundo a pesquisa, isso acontece porque, por serem minorias sociais, inclusive do ponto de vista de proporção na população, homossexuais têm mais dificuldade para encontrar uns aos outros. Eles embarcaram em grande quantidade em serviços de paquera online desde o seu lançamento. Dessa forma, a proporção dos casais formados nesses ambientes teria atingido um platô mais rapidamente.

    Além de disponibilizar todos os dados coletados para a realização de outras análises, os pesquisadores também publicaram uma nota de pesquisa, que analisa informações-chave obtidas sobre casais heterossexuais. O documento está sob análise para publicação na revista acadêmica Proceedings of the National Academy of Sciences.

    “Do final da Segunda Guerra Mundial até 2013, a forma mais popular de americanos heterossexuais encontrarem parceiros românticos foi por intermédio de amigos. Como resultado do declínio nesse tipo de encontro e da ascensão dos encontros online, casais heterossexuais nos Estados Unidos têm hoje uma tendência muito maior de se encontrar online do que de qualquer outra forma”

    Estudo “How couples meet and stay together”

    As inovações na internet e na paquera

    Com base não só na edição de 2009 do “How couples meet and stay together”, mas também em estudos ainda mais antigos, o artigo avalia que a ascensão das redes sociais no mercado de paquera é uma mudança profunda – e mais antiga do que se pode imaginar.

    O trabalho questionou os entrevistados sobre quando eles tinham se conhecido, por isso obteve dados sobre anos anteriores àqueles em que a pesquisa foi executada. A pesquisa observou que a ascensão das redes sociais no mercado de paquera teve como marco inicial o ano de 1995.

    O ano representa o início do advento da “internet gráfica”, ou seja, seu uso para exibir vídeos, imagens, áudio e outros tipos de formatos, em oposição ao que ocorria anteriormente, quando as informações eram normalmente transmitidas apenas em texto.

    Isso ocorreu com o lançamento dos primeiros navegadores gráficos populares, o Netscape e o Internet Explorer.

    Depois da internet gráfica, outro impulsionador dos encontros online foi a crescente adoção de smartphones pela população, a partir de 2007. “Análises distintas mostram que encontros por meio de aplicativos de telefone foram responsáveis por pelo menos metade do crescimento nos encontros online, entre 2010 e 2017”, afirmou o estudo.

    Além de manter as redes de paquera acessíveis de qualquer lugar, os aplicativos para celular facilitam os encontros ao permitir a geolocalização em tempo real do usuário.

    O que mudou nos encontros entre 1995 e 2017

     

    Por que a primazia da internet chama a atenção

    Ao responder como haviam se encontrado, as pessoas questionadas podiam dar mais do que uma resposta positiva. Se haviam começado a conversar pela internet, mas tinham tido um primeiro encontro em um bar, por exemplo, podiam marcar que tinham se encontrado das duas formas.

    Isso ajuda a explicar por que a categoria “encontro em bar/restaurante” também teve aumento entre 1995 e 2017.

    Mas, no geral, a internet parece não ter apenas complementado outros espaços de encontro, e sim substituído-os.

    Esse não é um dado trivial. Muitos estudos anteriores apontam que a maior parte das interações virtuais acontece com pessoas que também têm convivência física, com as redes servindo para ampliar encontros que já tendem a ocorrer por meio de redes tradicionais, como família e amigos.

    As pessoas estão experimentando mais

    O trabalho levanta algumas hipóteses para explicar a primazia dos aplicativos. Entre elas, está o acesso a um volume constantemente atualizado de pretendentes, muito maior do que aquele acessível por família ou amigos, o desenvolvimento de algoritmos mais certeiros e o sigilo propiciado pelas plataformas.

    Além disso, a internet contribui para que indivíduos continuem buscando parceiros, em um contexto em que horizontes foram ampliados. As pessoas se acomodam menos, e continuam experimentando amorosamente após deixarem espaços "definidores" como o bairro da infância, a escola, ou a faculdade. Na pesquisa, esses lugares perderam a centralidade no mercado de paquera.

    Isso também vale para os vizinhos ou colegas de trabalho: a proximidade deixou de ser tão definidora na vida amorosa, à medida que a internet oferece outros tipos de praticidade.

    Essa é a leitura da professora de sociologia da Universidade do Norte da Inglaterra, Julia Carter. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, ela afirmou que “conforme ficamos mais globalizados, aqueles contextos pequenos e estreitos – como a pequeníssima comunidade de amigos do ensino primário e secundário – não têm tanta influência em como imaginamos nossos futuros".

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