Como está a economia dos EUA no ano que antecede as eleições

O crescimento americano já dura uma década, mas analistas apontam sinais de recessão. Trump busca reeleição em 2020

     

    No ano que antecede a eleição presidencial de 2020, os Estados Unidos vivem um momento duradouro de estabilidade econômica. Desde a retomada do crescimento em 2009, já são dez anos consecutivos de crescimento, a uma média superior a 2% ao ano.

    Desde que Donald Trump assumiu a presidência, a economia americana cresceu 2,2% em 2017, em seu ano de estreia, e 2,9% no ano seguinte, em 2018. O governo afirma que os bons resultados são fruto dos cortes de impostos e da política comercial “pró-EUA”.

    CRESCIMENTO PROLONGADO

     

    Para 2019, a projeção de crescimento, segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional), é de 2,6%. O primeiro trimestre começou forte, mas o ritmo caiu no segundo trimestre. Há ainda outros sinais de instabilidade. Analistas já falam em uma possível recessão, o que pode atrapalhar os planos de reeleição de Trump.

    O consumo no período de crescimento

    Os dados apontam um crescimento do consumo privado nos EUA a taxas anuais superiores a 2,5% desde 2014. Na administração Trump, mesmo apresentando oscilações, o consumo tem sido sistematicamente responsável por parcelas significativas do crescimento do PIB.

     

    Entre abril e junho de 2019, o consumo apresentou aumento considerável a uma taxa anualizada de 4,3% em relação ao trimestre anterior, o maior número trimestral desde o final de 2017.

    Um dos fatores que podem ter ajudado a manter esse cenário positivo é o fato de o desemprego estar em uma baixa histórica. Desde outubro de 2009, quando atingiu 10%, a taxa de desocupação apresentou uma trajetória de queda praticamente contínua, até chegar na casa de 3,7% registrados em junho deste ano.

     

    A crise financeira de 2008 elevou o desemprego e derrubou os salários. As vagas de trabalho, porém, começaram a surgir três anos depois, no início da década. Os salários permaneceram em baixa, com uma leve melhora apenas a partir de 2015.

    Os juros no período de crescimento

    Em artigo no jornal The New York Times publicado em 28 de julho, o repórter de economia Ben Casselman alertou para a inversão dos rendimentos de juros de longo e curto prazo nos EUA. Os juros de títulos de curto prazo do Tesouro Americano estão mais altos e atrativos que os de longo prazo. Isso significa que os investidores não estão seguros com relação ao futuro, aceitando retornos menores por investimentos mais longos, algo contraintuitivo. Historicamente, isso pode indicar a iminência de uma recessão.

    Quanto à taxa básica de juros, Trump frequentemente critica as taxas mantidas pelo Banco Central dos EUA, o Federal Reserve. Isso porque seriam altas demais e estariam freando o investimento e o consumo no país. A tendência de alta é algo que ocorre desde a virada de 2015 para 2016 — entre outubro de 2008 e junho de 2016, a taxa básica de juros definida pelo Fed esteve sistematicamente abaixo de 1%.

    OS JUROS

     

    Nesta quarta-feira (31), o Banco Central americano decidiu reverter a tendência de alta dos juros, atendendo às demandas do presidente e cortando a taxa em 0,25 ponto percentual. Agora, a meta dos juros fica na faixa entre 2% e 2,25% ao ano. Como consequência, deve ocorrer uma ampliação no crédito e no consumo, dando ainda mais fôlego ao crescimento da economia americana.

    Os investimentos e lucros das empresas

    O governo Trump esperava que sua política de desregulamentação e diminuição de impostos fosse impactar rapidamente o lucro das corporações americanas, mas não foi o que ocorreu.

    Desde que ele assumiu a presidência, em 2017, o lucro das grandes empresas ficou estável, inclusive registrando pequenas quedas nos últimos balanços.

    Os números indicam que a desburocratização e os incentivos fiscais promovidos pelo governo americano não têm dado resultados concretos nos retornos das empresas.

     

    Ao mesmo tempo, o investimento privado, após crescer a taxas sólidas em 2017 e 2018 (com exceção do segundo trimestre de 2018), caiu a uma taxa anual de 5,5% entre abril e junho de 2019. Foi a primeira vez desde que Trump assumiu a Casa Branca que o investimento não ligado ao mercado imobiliário apresentou queda. Já os investimentos do mercado imobiliário seguem na tendência de baixa, que vem desde o início de 2018.

    O papel dos gastos do governo

    No segundo trimestre de 2019, os gastos do governo aumentaram a uma taxa anual de 5%, sendo que os gastos federais não militares aumentaram a 15,9%.

    Esses gastos públicos foram responsáveis por 0,85 ponto percentual do crescimento anualizado de 2,1% do PIB no segundo trimestre de 2019 em relação ao trimestre anterior. É o maior resultado desde o segundo trimestre de 2015.

    Os gastos do governo federal têm crescido quase sistematicamente com Trump. Desde que assumiu, os números só não subiram no primeiro trimestre de 2017. E em apenas dois dos outros nove trimestres a taxa foi inferior à taxa de crescimento do PIB.

    Ou seja, o poder público tem colaborado para o crescimento americano, mantendo uma política fiscal expansionista, ou seja, gastando mais. E a tendência é que as despesas sigam crescendo com a suspensão do limite de gastos e do teto da dívida, acordados pelo congresso americano até 2021.

    A guerra comercial com a China

    Em meio às medidas protecionistas e a tensões constantes com a China, segunda maior economia do mundo, a balança comercial dos EUA, a maior economia, passou a apresentar resultados piores.

    Entre 2010 e 2016, o deficit da balança comercial dos EUA aumentou a uma média mensal de 0,6%. Sob Trump, esse índice foi para 1%. Ou seja, o saldo comercial dos EUA nas transações com o resto do mundo vem piorando desde a mudança de governo, em 2017.

    No segundo trimestre de 2019, a queda das exportações a uma taxa anual de 5,2%, somada ao aumento das importações a 0,1%, ajudou a puxar o PIB americano para baixo, contribuindo com 0,65 ponto percentual negativo para o resultado trimestral.

    A situação da bolsa

    Desde o colapso de 2008, a bolsa de valores americana vem em trajetória de alta. Durante o governo Trump, a tendência se manteve, atingindo níveis historicamente altos. O índice Dow Jones Industrial, que acompanha as 30 maiores corporações americanas, retomou o crescimento após um breve período de queda na virada de 2018 para 2019.

    EM ALTA

     

    Trump e seus defensores afirmam que os bons resultados da bolsa se devem à política de desregulamentação, ao corte de impostos e à “priorização dos EUA”. Essas medidas aumentariam a confiança do mercado, potencializando os investimentos financeiros.

    Duas análises sobre a economia dos EUA

    O Nexo conversou com dois professores de economia sobre as medidas econômicas do governo Trump e as expectativas para o andamento da economia americana:

    • Antonio Carlos Alves dos Santos, professor de economia na PUC-SP
    • Francisco Pires de Souza, professor de economia na UFRJ

    A economia americana cresce há 10 anos. O que o governo Trump fez para manter esse ritmo de crescimento?

    Antonio Carlos Alves dos Santos Na verdade, o crescimento é anterior ao governo Trump, que está há pouco tempo no poder. As medidas que ele tomou não tiveram impacto suficiente ainda para reverter esse crescimento. É uma retomada da economia americana depois do período terrível que foi o que seguiu a crise do sistema financeiro local. Mas é um crescimento que, em termos de mercado de trabalho, não é tão bom assim. É verdade que está aumentando a oferta de emprego, mas é um emprego de qualidade muito ruim. Ou seja, o salário não está tão alto quanto se esperava, as condições de trabalho deixam muito a desejar. É uma economia que gera emprego, mas em termos do "sonho americano", em que o neto estaria melhor que o avô, isso não se realiza mais.

    Francisco Pires de Souza A principal medida tomada pelo governo Trump foi a reforma tributária promovida em 2017, que teve como principal ação a redução de impostos. Isso levou a um aumento do deficit fiscal americano, sendo um impulso fiscal expansionista bastante significativo. Apesar de os juros terem subido nos últimos anos, o patamar ainda é baixíssimo pelos padrões históricos. Assim, a soma de uma política fiscal expansionista com uma política monetária expansionista contribui para esticar o ciclo de crescimento, que já é o mais extenso dos últimos 150 anos.

    O atual ritmo de crescimento da economia americana é sustentável?

    Antonio Carlos Alves dos Santos Os sinais que a economia americana tem dado são extremamente contraditórios. Por um lado, você tem uma boa retomada do mercado do trabalho e investimento razoável. Por outro lado, você tem um setor externo complicado, que, aí sim, é consequência da política desastrosa de Trump. É extremamente difícil saber qual será o impacto das brigas de Trump com a China e também das relações nada amistosas que ele tem com a economia europeia. Até é factível manter esse crescimento, mas não depende tanto de quem é o presidente dos EUA. Isso reflete mais a capacidade de criação da economia americana — não podemos esquecer que os EUA são o país com as melhores inovações tecnológicas, o que é resultado de possuírem as melhores universidades do mundo (Caltech, MIT, etc.). Acredito que a economia americana deve ter uma pequena reversão. Tudo indica que não vai manter a taxa de crescimento, fundamentalmente devido aos atritos com a China, e também porque nenhuma economia consegue manter crescimento por um longo período. Mas a economia dos Estados Unidos tem os fundamentos importantes, que são as capacidades de inovações.

    Francisco Pires de Souza É uma situação insustentável. Ao esticar muito a corda do ciclo econômico, você cria condições para uma reversão mais severa do ciclo expansivo. O endividamento, por exemplo, está crescendo muito nos EUA, tanto público como privado. As empresas americanas hoje têm uma dívida maior do que às vésperas da crise financeira de 2008. Quando os lucros começarem a cair — o que já está acontecendo —, essas dívidas podem se revelar insustentáveis. Esse pode ser um dos gatilhos da reversão deste ciclo de expansão. É normal que a economia tenha fases de expansão e fases de recessão, mas como essa fase [de expansão] está sendo estendida de uma forma excessiva, estão sendo criados desequilíbrios que podem depois tornar a reversão do ciclo mais acentuada do que o normal.

    A situação é totalmente inédita: a economia ainda está crescendo bastante e, provavelmente, o Banco Central (Federal Reserve) reduziu [nesta quarta-feira] a taxa de juros. Em fases em que a economia está se expandindo muito, a taxa de juros tende a subir para evitar sobreaquecimentos. O que está acontecendo agora é o contrário — o Banco Central deve reduzir preventivamente o nível da taxa de juros, que já está muito baixo pelos padrões históricos. Isso pode dar uma sobrevida ao ciclo expansivo, mas, ao fazer isso, você dá corda para que os desequilíbrios aumentem. Acho difícil que a situação atual se estenda por todo o ano que vem, e sabe-se que um dos fatores que podem contribuir para uma eventual reeleição de Trump é o andamento economia. Mas deve-se fazer uma ressalva: os Estados Unidos estão em uma situação excepcional, em que continuam praticando políticas expansionistas apesar de a economia ainda estar crescendo.

    Colaborou Caroline Souza com os gráficos

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