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Por que estas cidades atraem turistas de extrema direita

Locais ligados a figuras como Adolf Hitler e Benito Mussolini atraem visitantes que se identificam com suas ideologias

“A gente vem para cá todo ano, no final de julho, para comprar algumas lembrancinhas, visitar seu túmulo e deixar flores”, disse a turista Mameli Gamberini ao jornal britânico The Guardian. “Nós somos fascistas”, ela acrescenta, enquanto visita a Predappio Tricolore, uma loja de souvenirs na cidade em que o líder fascista Benito Mussolini nasceu.

Na mesma reportagem, publicada no sábado (27), Roberto Canalli, prefeito da cidade de Predappio, diz que recebe cerca de 100 mil turistas ao ano.

Desde 2017, o túmulo de Mussolini está fechado para visitações, mas é aberto ao público três vezes ao ano: em 28 de abril, aniversário de morte do líder fascista; em  29 de julho, data em que ele nasceu; e 22 de outubro, data que marca a marcha para Roma, evento que fez com que Mussolini chegasse ao poder. Nessas três ocasiões, Canalli nota um pico de visitantes em Predappio.

“Quando o túmulo fechou, muitos comerciantes locais reclamaram por causa da diminuição no número de clientes”, disse o político, do partido conservador Fratelli d'Italia, ao The Guardian.

O governo italiano é conduzido por uma coalizão populista formada em 2018, integrada pelo Movimento 5 Estrelas, que se diz apolítico, e a Liga, de extrema direita. A principal liderança da Liga é Matteo Salvini, vice-primeiro ministro e ministro do Interior, cuja maior bandeira é o combate à imigração. Em 25 de abril de 2019, Salvini se recusou a comemorar o Dia da Libertação da Itália pela ocupação nazista, tradicional cerimônia criada para celebrar o fim do regime fascista de Mussolini.

Locais relacionados a Hitler

Outros pontos históricos relacionados ao nazismo passaram a chamar a atenção da extrema direita.

Em 2016, o governo austríaco anunciou que iria demolir a casa em que Adolf Hitler nasceu, mas recuou ao ouvir críticos que apontaram a necessidade da preservação histórica do local. No mesmo ano, as autoridades anunciaram uma mudança radical na casa, para torná-la “pouco atrativa para o turismo neonazista”.

Além da casa em que Hitler nasceu, outra residência ocupada por ele despertou o interesse da extrema direita: a Berghof, casa de campo do ditador, na cidade de Obersalzberg, nos Alpes alemães.

O local, que atualmente é um museu, é visitado por cerca de 170 mil turistas anualmente. Alguns deles são neonazistas, e os funcionários foram treinados para identificá-los, de acordo com Mathias Irlinger, um dos curadores.

“Quando são skinheads é fácil”, Irlinger disse ao The Guardian. “Mas eles estão ficando mais espertos, dizem coisas que estão em uma zona cinzenta. Eles sabem como provocar, como fazer perguntas e argumentar. É algo bem difícil para nós”, acrescentou, explicando que a missão de todos os funcionários do museu é educar os visitantes acerca dos horrores do nazismo.

Nos Estados Unidos

Nos EUA, locais históricos relacionados ao exército confederado, que lutou pelo sul do país na Guerra de Secessão, também atraem visitantes de extrema direita. O conflito, que ocorreu entre 1861 e 1865, opôs o norte e o sul do país em torno, principalmente, da questão escravagista.

A cidade de Richmond, capital do estado da Virgínia, tem como um de seus pontos turísticos uma estátua de Robert E. Lee, general líder do exército confederado durante a guerra civil. Ele é considerado um herói pelo movimento supremacista branco.

Nos estados confederados, há um debate acerca de estátuas de líderes como Lee e Stonewall Jackson.

“Esses monumentos continuarão sendo locais de peregrinação enquanto estiverem de pé. Veremos mais casos como o de Charlottesville”, disse o ativista político Austin Gonzalez, do movimento dos socialistas democráticos da América, ao canal ABC.

Em 2017, diversas cidades de estados confederados anunciaram que removeriam estátuas e monumentos de líderes da guerra civil. O caso de maior repercussão aconteceu em Charlottesville, também na Virgínia, em que manifestantes da extrema direita protestaram contra a remoção de um busto de Lee.

Na ocasião, o neonazista James Alex Fields Jr. atropelou manifestantes que se posicionavam contra os protestos dos supremacistas brancos. Uma pessoa morreu e 28 ficaram feridas.

O que motiva o turismo de extrema direita

Para Mike Lofgren, mestre em história pela universidade de Akron e ex-congressista do Partido Republicano americano, o turismo ideológico de direita surge a partir de uma nostalgia por um passado idealizado, a construção de uma utopia deslocada do tempo presente.

Em artigo publicado pelo site Washington Monthly, Lofgren argumenta que turistas que visitam os estados confederados veem o sul da Guerra Civil Americana como um paraíso distante, e criam narrativas que ignoram que a causa primária defendida pelos confederados era a manutenção da escravidão no país.

“A inabilidade de alguns ideólogos em aceitar a história do país como ela realmente foi, as falhas do tempo presente e o futuro como uma evolução do passado motivam essas pessoas a buscarem utopias em um passado imaginário ou em paraísos embranquecidos em terras estrangeiras”, escreveu Lofgren.

Mameli Gamberini, a turista que conversou com o The Guardian em Predappio, acredita que Mussolini foi um bom governante. “É graças a ele que hoje temos aposentadorias”, disse. “O único erro que ele cometeu foi se aliar a Hitler”, complementou.

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