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Por que ‘O exorcista’ é o filme mais assustador de todos

Longa de 1973 continua assustando audiências ao redor do mundo, mesmo 45 anos depois de seu lançamento

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    Uma pesquisa de mercado feita pela empresa de consultoria Merkaat Movies em 2018 determinou que “O exorcista” é o filme mais assustador de todos os tempos, segundo os 2.000 britânicos que foram entrevistados. Além disso, a obra apareceu na lista dos 500 melhores filmes já feitos montada pela revista Empire, a partir da opinião de 10 mil leitores, 150 profissionais da indústria e dez críticos.

    O longa, de 1973, é baseado no livro de mesmo nome publicado por William Peter Blatty um ano antes. A história gira em torno de Regan (Linda Blair), uma menina de 12 anos, filha de uma famosa atriz de cinema, que é possuída por um demônio. Para solucionar o problema, a mãe sai em busca de exorcistas.

    Quatro décadas de horror

    “O exorcista” completou 45 anos em dezembro de 2018. Assim que foi lançado, o filme dirigido por William Friedkin causou impacto e polêmica.

    Nos dias subsequentes à estreia, foram relatados casos de espectadores passando mal durante as sessões, protestos de padres em salas de cinema e filas intermináveis por conta de todo o burburinho gerado pelo longa.

    Charles Austin McDonald 2º, doutor em estudos da comunicação pela Universidade da Louisiana, propõe em sua tese sobre filmes de exorcismo que o fascínio e o medo causado pelo espetáculo exibido no filme de Friedkin surge do fato da apresentação de uma personagem comum, em um ambiente comum, para logo depois subverter todas as expectativas a partir dos fenômenos que se desencadeiam ao longo da trama.

    Além dos fenômenos em si, McDonald argumenta que uma outra parte do medo causado pelo longa vem da dúvida: o público questiona se Regan realmente está possuída ou se a situação toda é apenas a manifestação de um transtorno psíquico de uma criança emocionalmente fragilizada por conta do divórcio dos pais - algo também presente no livro de Willam Peter Blatty, no qual o filme se baseia.

    Sergio A. Rueda, doutor em psiquiatria e professor da Universidade de Toronto, argumenta no livro “Diabolical possession and the case behind the exorcist” que parte do medo causado por “O exorcista” vem do fato de que na década de 1970 o conceito de possessão demoníaca não era tão popularmente conhecido, e o fenômeno era visto como uma crença abstrata e distante. O longa, então, teria trazido uma série de ideias que passaram a habitar o imaginário popular.

    Rueda também aponta que o filme se tornou um marco por mostrar, de maneira direta e explícita, uma batalha entre o bem e o mal, com as forças malignas se apresentando violentamente por meio de uma figura que, no começo do longa, representa a pureza e a inocência.

    “Eu acho que ele [o demônio] quer nos deixar desesperados. Para que nos vejamos como algo… animalesco e horrível. Para que rejeitemos a possibilidade de que Deus pode nos amar”

    Padre Lankester Merrin

    Personagem de “O exorcista” ao ser questionado por que Regan foi escolhida pelo demônio para ser possuída

    Marlan Moore, doutor em estudos cinematográficos pela Universidade de Illinois, apontou uma razão sociopolítica como um fator que fez com que “O exorcista” se tornasse um marco do horror. Ele diz, em um artigo acadêmico, que os acontecimentos do filme podem ser lidos como alegorias para “a rebeldia dos jovens, o fim da família, a falta de respeito por tradições religiosas e a destruição do lar”, todas elas questões que perturbavam os conservadores da época.

    O que faz um filme ser assustador?

    A cineasta Sarah Seyler publicou, através da Universidade da Carolina do Norte, um artigo tentando entender os mecanismos por trás dos filmes de terror, e por que o público sente medo de algo que não representa nenhuma ameaça real.

    Seyler aponta que os cineastas de terror causam medo por meio de técnicas audiovisuais, que vão desde apresentar ao espectador algo que o personagem desconhece (como Alfred Hitchcock faz em várias cenas de “Psicose”) a reproduzir sons em uma frequência que, apesar de não ser captada pelos ouvidos humanos, causa desconforto no público (como em “Atividade Paranormal).

    Esses elementos, aliados ao jump-scare, o susto repentino em uma determinada cena, acabam causando medo.

    Por que gostamos de sentir medo?

    O medo surge no cérebro, e pode ser dividido em duas categorias: os medos intrínsecos, que nascem com o ser humano, como o medo de cair e o medo de sons volumosos; e os medos aprendidos, que dependem do meio em que o indivíduo se insere, como a fobia de aranhas ou palhaços.

    Os filmes de terror se inclinam nos medos aprendidos, evocando imagens e sons que passaram a povoar o imaginário popular. Apesar de o medo ser um sentimento considerado negativo, os fãs de filme de terror costumam ter uma experiência positiva ao assistir o gênero.

    A emoção positiva surge do falso perigo apresentado pelos filmes de terror, que são confundidos pelo cérebro como perigo real, liberando substâncias como a adrenalina e dopamina, que causam uma sensação de bem estar.

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