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Como sites pornôs compartilham informações de usuários

Usar a janela anônima não é suficiente para proteger identidade, que é rastreada por empresas de publicidade digital, segundo estudo de pesquisadores americanos

     

    O hábito de assistir pornografia é um dos mais populares da internet. Nos EUA, calcula-se que 87% dos homens e 28,5% das mulheres assistam a conteúdo erótico pelo menos uma vez por semana. Para manter sua privacidade, é comum que os frequentadores dessas páginas utilizem a navegação anônima, opção oferecida por navegadores que não registra os endereços visitados no histórico de uso.

    Ao utilizar essa alternativa, usuários presumem que estão protegidos de serem identificados ou rastreados. Um levantamento publicado nos Estados Unidos sugere, entretanto, que é um equívoco acreditar no anonimato total.

    De acordo com o estudo, realizado por pesquisadores da Microsoft e das universidades Carnegie Mellon e da Pensilvânia, nos EUA, 93% dos sites analisados não apenas têm acesso a dados de quem os visita “anonimamente” como compartilham esses dados com empresas de publicidade digital. 

    O que a navegação anônima faz, segundo os estudiosos, é apenas deixar de registrar o histórico no navegador que a pessoa utilizou. Isto é, em casa ou no trabalho, as navegações não deixam pegadas. Já pela internet, segundo o levantamento, os rastros são muitos.

    Pornografia online

    30

    Posição do site PornHub, maior site pornô do mundo, no ranking global Alexa, das páginas mais visitadas

    50 mil

    Número de buscas por segundo no PornHub

    Como foi feito o levantamento

    Um total de 22.484 sites de pornografia foram analisados pelos pesquisadores. Segundo eles, a atividade de rastreamento de dados de usuários é conduzida, majoritariamente, por um pequeno grupo de empresas de publicidade digital. Os dados das pessoas servem para orientar o envio de anúncios segmentados para perfis diferentes.

    Por meio de um software específico, os pesquisadores identificaram que cada site retransmite dados de navegação para sete outras empresas. Das companhias envolvidas, a pesquisa revelou que o Google rastreia 74% dos sites pornográficos, a Oracle, 24% e o Facebook, 10%. No total, são 230 empresas, das quais 171 estão presentes em menos de 1% dos endereços. A proporção revela o alto nível de concentração entre as companhias que realizam esse tipo de rastreamento.

    “Revelações sobre esses dados representam ameaças específicas a segurança pessoal e autonomia em qualquer sociedade que policie o gênero e sexualidade”

    Elena Maris, Timothy Libert e Jennifer Henrichsen

    Autores do estudo “Tracking sex: The implications of widespread sexual data leakage and tracking on porn websites” (Rastreando o sexo: As implicações do vazamento amplo de dados sexuais e rastreamento em sites pornôs, em tradução livre)

    Também por meio de software específico, a pesquisa avaliou as políticas de privacidade de 3.856 sites eróticos, o equivalente a 17% do total da pesquisa. Segundo os autores do estudo, esses termos “foram escritos de tal forma que uma pessoa pode precisar de dois anos de educação universitária para conseguir entendê-las”. Além do tempo necessário e do grau de dificuldade da leitura, foi analisado se os nomes das empresas de publicidade digital são citadas no texto da política de privacidade.

    Por fim, a pesquisa buscou determinar até que ponto os nomes de domínio dos sites poderiam, sozinhos, ser reveladores de “preferência sexual ou de gênero, identidade ou tema de interesse sexual tanto do conteúdo do site quanto do usuário do site”. Para essa parte, a navegação de quatro voluntários foi avaliada: três mulheres (uma que identificou sua sexualidade como fluída, as outras como LGBTI) e um homem heterossexual.

    Sexualidade sob vigilância

    Esta parte do levantamento alerta para a possibilidade de pessoas serem rastreadas e marcadas pelas preferências que exibem, ou aparentam exibir, em suas visitas a sites eróticos.

    “Acreditamos que os dados de navegação em sites pornô são interpretados literalmente. Se alguém visitou um site com um tema sexual específico, um terceiro provavelmente assume que o conteúdo é correlato à identidade ou ao interesse sexual daquele usuário”, declarou Elena Maris, pesquisadora da Microsoft, ao jornal O Globo. “Entretanto, argumentamos em nosso estudo que tais suposições são perigosas, particularmente quando a atividade sexual é fortemente regulada.”

    “Revelações sobre esses dados representam ameaças específicas a segurança pessoal e autonomia em qualquer sociedade que policie o gênero e sexualidade”, declaram os autores do estudo.

    De acordo com a Associação Internacional de Gays e Lésbicas, 11 países do mundo (Irã, Arábia Saudita, Iêmen, Nigéria, Sudão, Somália, Mauritânia, Emirados Árabes Unidos, Catar, Paquistão e Afeganistão) prevêem pena de morte para homossexuais. Em outros 59, a orientação sexual é tratada como crime, com sentenças que podem chegar à prisão perpétua. Mesmo em países onde ela não é crime, informações sobre preferências sexuais podem servir como instrumento de chantagem política e invasão de privacidade.

    Os pesquisadores assinalaram o acesso à pornografia online como “importante para políticas LGBTI, feministas e sexualmente progressistas de gênero e sexualidade, além de centrais para a construção comunitária e a expressão sexual livre e segura”.

    Segundo essa visão, a presença de imagens explícitas de sexualidade gay ou lésbica (ou anticonvencional) ajuda a questionar a normatividade imposta pela sociedade em geral e “abre a possibilidade de fazer escolhas que as pessoas talvez jamais teriam considerado”.

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