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As reações a mudanças no jeito de trabalhar, segundo esta pesquisa

Grupo acompanhou funcionários após alterações no modelo de produção em uma gráfica no Reino Unido. Um dos autores do estudo conversou com o ‘Nexo’ sobre os resultados

Crises econômicas, inovações tecnológicas ou movimentos da concorrência estão entre os motivos que levam empregadores a mudar o jeito de funcionar de suas empresas. Tais mudanças geram, em alguns casos, reações dos empregados.

Um grupo de pesquisadores se propôs a analisar essas reações ao acompanhar, durante dois anos, alterações de rotinas e atribuições impostas a funcionários de uma gráfica de jornais no Reino Unido.

O resultado foi exposto em um artigo publicado em julho de 2018 e intitulado “‘I shot the sheriff’:  ironia, sarcasmo e as mudanças na natureza da resistência no local de trabalho”.

A pesquisa foi feita entre 2007 e 2008, de um ponto de vista etnográfico. A empresa contava, à época, com cerca de 300 funcionários, dos quais 100 trabalhavam no chão de fábrica.

A mudança de modelo

Os empregadores buscaram realizar uma transição do modelo tradicional ao modelo enxuto. Entre outros pontos, o novo modelo pressupõe a redução de estoques e a busca constante de otimização do trabalho.

Funcionários de várias etapas do processo de produção são instados a aprimorá-lo, em tese gerando mais eficiência ao mesmo tempo em que obtêm mais autonomia.

A pesquisa cita críticas ao modelo enxuto, considerado um exemplo de experiência do trabalho contemporâneo que pode ser, ao mesmo tempo, “empoderadora e exploratória”, “descentralizante e controladora”.

Na gráfica do Reino Unido, as alterações feitas pelos empregadores incluíram a configuração espacial e exigência para que os trabalhadores realizassem multitasking, ou seja, várias tarefas ao mesmo tempo, sem aumento de salário.

Os autores observam que o sarcasmo, ironia e escárnio passaram a ser usados pelos funcionários como resistência à  implementação das mudanças. A ponto de charges representando um dos chefes fantasiado de xerife serem anonimamente distribuídas pela empresa.

3 reações na fábrica

Resistência prática

Os esforços práticos da chefia para alterar o comportamento dos trabalhadores eram combatidos com ações práticas. Em um caso, os trabalhadores se recusaram a realizar novas tarefas, argumentando que não havia ocorrido uma análise de risco. Nisso, tiveram apoio do sindicato.

Ironia contra ideologia

A implementação do sistema enxuto também incluiu sua defesa do ponto de vista ideológico, como se partisse de uma base de conhecimento superior. A ironia servia para desqualificar essa defesa. Após ler o programa de treinamento, um líder de equipe ironizou: “a gestão diz que o sistema enxuto melhora a performance – vamos aplicá-lo e ver como nos saímos!”.

Escárnio contra fantasia

A chefia usou preceitos da gestão enxuta para criar aquilo que os pesquisadores chamaram de "fantasia" de “dominância sobre o chão de fábrica”. Com fantasia, a pesquisa quer dizer que o conceito de gestão enxuta não era sempre evocado para convencer racionalmente funcionários, mas apenas para exigir submissão à autoridade dos chefes no período de mudança. Um jovem gestor chamado para implementar o novo modelo chegou a repreender um empregado, dizendo ser o “novo xerife no pedaço”. Na manhã seguinte, pôsteres com uma charge do “novo xerife” apareceram pela fábrica.

A avaliação das reações

Reações como essas servem como termômetro para avaliar a maneira que mudanças são percebidas, dizem os pesquisadores, cujo trabalho está concorrendo entre os melhores artigos de 2018 da revista acadêmica Journal of Management Studies, onde foi publicada.

Um dos autores é o pesquisador brasileiro Rafael Alcadipani, que leciona estudos organizacionais em São Paulo, na FGV (Fundação Getulio Vargas). Alcadipani também tem a segurança pública entre seus temas de pesquisa, e é membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Nesta entrevista ao Nexo, ele avalia o estado atual das relações entre empregados e empregadores e fala sobre o papel do sarcasmo nessa relação.

O que seu estudo considera como resistência no local de trabalho?

Rafael Alcadipani São todas as ações que os empregados fazem para conseguir algum grau de autonomia frente aquilo que a gestão quer que façam. É um tema clássico na área de estudos organizacionais, desde o começo da Revolução Industrial.

Tem a forma como o trabalhador acha que é adequada, e a que o chefe acha adequada para uma função. E o trabalhador sempre tenta garantir autonomia frente àquilo que é imposto no trabalho.

Isso pode ser buscar trabalhar menos, do jeito que quer, ou estar bravo com o chefe e não fazer uma tarefa para puni-lo. Pode ser quebrar a máquina, ou fazer piada para se contrapor ao chefe de forma sutil. Por exemplo: a empresa quer entregar produto até 15h para agradar o cliente, e você faz de tudo para não cumprir o prazo.

O trabalhador vai tentar fazer a coisa do jeito dele, não como o chefe quer. Há estudos sobre esse tema que focam em encontrar formas de contornar a resistência. E os de pessoas como eu que querem entender isso para ensinar os administradores a levarem em conta que trabalhadores são pessoas, elas têm desejos, querem se realizar e fazer o meio de trabalho mais humano, decente para trabalhar.

A resistência surge da imposição que é agressiva, que não leva em consideração o que as pessoas pensam.

Por que vocês avaliam que a experiência de trabalho contemporânea é ao mesmo tempo empoderadora e exploratória, descentralizante e controladora?

Rafael Alcadipani  Isso é uma característica dos locais de trabalho do mundo contemporâneo. Você precisa tentar oferecer algum grau de autonomia, porque as pessoas estão enlouquecendo nas empresas, literalmente. A gestão tenta dar autonomia, mas ao mesmo tempo constrange – é uma autonomia claramente limitada.

Cada vez mais pessoas querem abrir seu negócio porque a gestão está matando as pessoas no mundo de hoje. Isso se aplica à produção enxuta, mas ocorre de forma geral. Não é novo, mas tem se aprofundado. Com novas tecnologias, com computadores, é cada vez mais possível controlar e extrair o máximo da pessoa em uma empresa. O trabalho assume espaço total na vida das pessoas.

Como há muitos desempregados, com a tecnologia assumindo muitas funções, parece que é quase um favor a empresa deixar uma pessoa trabalhar. Agora a questão não é só controlar. A questão é: “ou faz como quero ou te mando embora”.

Isso está ficando mais intenso. Se você olha a organização de sindicatos na década de 1960, 1970, ela era mais forte. Hoje, o trabalho é muito mais individualista do que há 20 anos.

No Brasil, tirando categorias específicas como metalúrgicos e petroleiros, os sindicatos nunca foram muito fortes. Mas, hoje, sindicato virou quase sinônimo de pecado. Sindicato é demônio, qualquer ação coletiva é o demônio.

Como a ironia e o escárnio interagem com outras formas de resistência no local de trabalho?

Rafael Alcadipani  A ironia e o escárnio são centrais, servem para desconstruir a legitimidade da organização e do gestor. O humor é muito forte para desacreditar. Vemos os memes circulando, sobre [o ministro da Justiça] Sergio Moro, sobre [o ex-presidente] Lula, como forma de destruir a moral da pessoa, sua respeitabilidade. Ironia e escárnio tentam corroer a estratégia de gestão e destruir a moral do gestor como gestor.

Elas são empregadas contra a autoridade, quer seja da ferramenta de gestão sendo implementada, quer seja do gestor implementando a ferramenta. É algo clássico, que a literatura constata há muito tempo, desde a década de 1980.

O que trouxemos de novo é mostrar que há formas de resistência intercaladas. Elas passam pela ironia, pela recusa física, e pelo desacreditar total, por mostrar que tudo aquilo é um teatro sem substância, por dizer que ninguém acredita no que está sendo feito, por deixar de fazer e dane-se.

As conclusões para a fábrica analisada se encaixam em outras situações?

Rafael Alcadipani  Sim. Isso, é emblemático do trabalho contemporâneo, não estatisticamente, mas analiticamente. As novas formas de trabalho contemporâneo colocam desafios para todos nós, para o trabalhador, porque desafiam a forma de sermos quem somos. Pedem que você seja moldado ao que a empresa quer que você seja.

No cotidiano, tudo é flexível, não há demarcação do que é trabalho, o trabalhador tem que fazer de tudo, ser Super-Homem. Faz tudo o que é feito na empresa, e não está bom. Tem o desempenho avaliado diariamente, se fez ou não fez algo, se está rendendo mais do que na semana passada, 2% a menos do que ontem.

A tecnologia permite isso de forma muito mais forte que antes, com a possibilidade de coletar evidências sobre tudo o que é feito e criar padrões de comportamento por algoritmo. Você é levado ao extremo.

Tem uma imposição de uma disciplina em tudo aquilo que se faz. Isso é bastante diferente do que acontecia. Pega o exemplo do telemarketing. Há 10 anos, você ligava na Vivo e não avaliava ninguém. Hoje, está sempre avaliando.

Em lojas de departamento, você avalia com uma cara feliz ou triste o funcionário. Isso impacta em desempenho diário. São novas formas de dominação, e as pessoas não resistem a isso.

As conclusões valem tanto para operários de fábricas tradicionais quanto funcionários de startups, por exemplo, independentemente do nível do cargo do empregado?

Rafael Alcadipani   Essa é uma lógica de como funcionam as relações de trabalho no mundo de hoje. Você tenta controlar o trabalhador cada vez mais, nos mínimos detalhes, e vão surgindo formas novas de resistência que tentam combater isso. Isso acontece em todos os níveis, do operário aos gerentes, até os níveis altos, como os CEOs. Todos usam da ironia, do sarcasmo, como forma de resistência.

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