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O que é a precariedade menstrual. E como combatê-la

Em várias partes do mundo, a falta de acesso a produtos de higiene e o tabu prejudicam a saúde e o desenvolvimento escolar de mulheres e meninas

 

A 60 quilômetros da capital da Índia, Nova Délhi, mulheres que vivem no distrito rural de Hapur tentam tornar absorventes acessíveis à população feminina local e combater o estigma em torno da menstruação.

É o que mostra “Absorvendo o tabu”, filme dirigido por Rayka Zehtabchi, produzido pela Netflix e vencedor do Oscar de melhor documentário de curta-metragem em 2019.

Chamada de precariedade menstrual, a falta de acesso a produtos de higiene e outros recursos necessários ao período não afeta somente mulheres da Índia. Está presente em muitos países da África, como a Nigéria, e da América Latina, bem como em zonas de conflito ou afetadas por desastres. Existe mesmo em países desenvolvidos, onde atinge mulheres pobres e moradoras de rua.

Na falta de absorventes e outros itens, muitas usam pedaços de tecido e materiais insalubres, como tampões já utilizados ou jornais.

Essa falta de acesso pode trazer riscos para a saúde, provocando infecções urinárias e vaginais. Também é responsável por fazer com que meninas em idade escolar percam dias letivos e até com que abandonem os estudos em determinados países.

Isso acontece devido à falta de água e instalações sanitárias limpas e seguras nas escolas, o que as impede de lidar de maneira adequada e confortável com o fluxo menstrual. Metade das escolas nos países de baixa renda não tem saneamento, segundo a ONU.

O tabu e a desinformação também as afasta da escola quando estão menstruadas. Na porção subsaariana do continente africano, a estimativa da ONU é que uma em cada dez meninas falta à escola durante a menstruação.

Soluções para a precariedade

Uma série de projetos encabeçados por mulheres tem se comprometido a financiar o acesso a produtos de higiene e a falar sobre menstruação para meninas e mulheres atingidas por esse tipo de vulnerabilidade.   

Esta é uma das atribuições da PeachAID Medical Initiative, organização nigeriana que, sob a liderança da médica Nkasi Obim Nebo, vem distribuindo coletores menstruais.

O copinho também tem chegado a outras africanas que sofrem com a precariedade menstrual através de ONGs como a ActionAid, que atua no Malawi, e da Beatrice Project, que os distribui no Zimbábue.

Feito de silicone, o coletor menstrual é inserido no colo do útero e deve ser esvaziado, no máximo, a cada doze horas. Ele deve ser higienizado com água fervente e dura até dez anos, o que o torna um método mais ecológico e com melhor custo benefício a longo prazo do que os absorventes.

Um estudo publicado em julho de 2019 pela revista científica The Lancet atestou que o coletor é um método seguro e eficaz. A conclusão veio de uma revisão de dados de 43 pesquisas anteriores e de uma consulta com 3.319 mulheres sobre seu uso.

A discussão sobre gratuidade

Em países como França, Reino Unido e Índia, mulheres também têm se organizado para questionar a taxação e o custo de produtos como os absorventes.

Criadora da campanha #FreePeriods (menstruação gratuita ou livre) em 2017, a britânica Amika George defende a distribuição gratuita de absorventes em escolas e universidades do país para combater a evasão escolar.

Segundo a ONG Plan International, uma em cada dez britânicas entre 14 e 21 anos não tem condições de comprar absorventes e 49% já deixaram de ir à escola por estarem menstruadas. Em março de 2019, o então ministros das finanças Philip Hammond prometeu destinar fundos para fornecer absorvente gratuitamente nas escolas a partir de setembro.

No Brasil, foi aprovada em junho de 2019 pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro uma lei que institui o fornecimento de absorventes nas escolas públicas do município.

A cobrança de impostos sobre os absorventes responde por uma parcela significativa do custo desses produtos. Em 2018, em resposta a uma campanha da ONG Sachhi Saheli, o governo da Índia eliminou esse imposto.

Ativistas argumentam que a taxa sobre o absorvente é discriminatória – é como ser taxada por ser mulher. Além da supressão do imposto, muitas defendem que produtos de higiene para a menstruação são um direito humano e deveriam ser gratuitos.

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