Por que a França ainda paga suas elites para estudar

‘Grandes escolas’ criadas para formar altos escalões do funcionalismo público francês escancaram desigualdades sociais e alimentam reivindicações dos ‘coletes amarelos’

 

Existe na França um grupo de “grandes escolas” de nível superior às quais o acesso é quase exclusivo para os filhos das famílias mais ricas do país.

Embora sejam frequentadas pelo topo da pirâmide social francesa, o ensino nessas unidades é não apenas gratuito, como também o Estado paga salários mensais de até R$ 7 mil aos alunos dessas “grandes escolas”. Além disso, em algumas delas, os anos de estudo contam como anos trabalhados para efeito de cálculo da aposentadoria.

A origem desse sistema é antiga. O imperador Napoleão Bonaparte, por exemplo, formou-se numa delas, no século 18. O atual presidente da França, Emmanuel Macron, também.

Se na monarquia francesa a educação era privilégio de poucos, na República, fundada sobre ideais iluministas, tornou-se reivindicação universal. Nesse contexto, as “grandes escolas” se firmaram como centros de formação dos funcionários do que viria a ser a “alta administração pública”. Esses jovens seriam responsáveis pela gestão das questões de Estado e do interesse coletivo.

Foto: Philippe Wojazer/Reuters - 28.11.2018
Estátua_Napoleão
Estátua de Napoleão em Paris
 

Se antes a fidalguia era critério de acesso à educação, normalmente no ambiente privado da corte, após a Revolução Francesa de 1789, a ideia do mérito ganhou espaço. Mais adiante, no século 20, o ideal renovado de reconstrução nacional que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, nos anos 1950, deu novo embalo ao projeto.

Essa ideia de ascensão social por meio de uma educação elitista perdeu sentido, no entanto, com o passar dos anos. As grandes escolas passaram a conformar um sistema paralelo de educação na França, que não funciona como as demais universidades públicas do país e que muitas vezes sequer responde ao Ministério da Educação, mas a outras pastas do governo.

O debate sobre as desigualdades ganharam força renovada desde que, em novembro de 2018, manifestantes autodenominados “coletes amarelos” passaram a protestar por uma ampla pauta de demandas sociais, cujo ponto central é a perda do poder de compra, o alto custo de vida e as disparidades de oportunidade entre os mais ricos e os mais pobres.

Macron, ele mesmo um egresso da prestigiosa grande escola ENA (Escola Nacional de Administração), tornou-se o alvo perfeito dos “coletes amarelos”. Se o diploma de uma “grande escola” deu a ele acesso à direção do banco Rothschild em 2010, ao Ministério da Economia em 2014 e à presidência da República em 2017, deu também a carapuça de expoente de uma pequena elite privilegiada.

No auge da crise dos “coletes amarelos” a popularidade do presidente chegou a ser de apenas 24%, enquanto cresciam as vozes que seguem pedindo mudanças profundas nesse sistema desigual.

Diferenças na entrada e na saída

O acesso às universidades francesas é garantido hoje a todos os estudantes que terminam o correspondente ao ensino secundário e são aprovados no que se chama “baccalauréat” [bacharelado] ao final da vida escolar. Já nas “grandes escolas”, o acesso é condicionado à aprovação em testes específicos, que variam de acordo com cada uma delas, numa espécie de vestibular dirigido.

Essa diferença favorece filhos de famílias que podem investir em cursos preparatórios e na dedicação exclusiva. Na ENA, por onde passou Macron, por exemplo, 83% dos alunos provêm das chamadas “famílias CSP+”, sigla usada na França para as famílias de maior renda, cujos pais e mães são profissionais bem colocados no mercado. Só 4% desses alunos têm pais operário.

 

Sabendo da distorção, o governo criou um mecanismo segundo o qual o egresso das “grandes escolas” que tenha sido remunerado retribui esse privilégio trabalhando para o Estado por dez anos. Quem não o faz, tem de devolver dinheiro.

A questão, disse a jornalista Camille Stromboni, em artigo publicado no jornal francês Le Monde, é que muitos desses alunos saem tão bem colocados no mercado privado que o salário recebido por eles dá e sobra para pagar a “multa”. Esse recurso foi batizado de “pantufa”, em alusão ao calçado macio que não reveste os pés dos filhos das classes trabalhadoras.

Um dos mais famosos “pantufados” é justamente Macron. Como cumpriu apenas seis dos dez anos devidos, ele teve de desembolsar o equivalente a R$ 210 mil ao Estado francês em novembro de 2016. Outros políticos e empresários franceses em situação semelhante vão parar no “Pantoufle Watch”, site fundado por ativistas e jornalistas para informar sobre a situação individual de cada famoso “pantufado”. 

‘Sistema peculiar no mundo todo’

“Esse é um sistema peculiar, que não tem muitos equivalentes mundo afora”, disse ao Nexo Louis Maurin diretor do Observatório das Desigualdades, em Paris - uma instituição privada fundada em 2003 que se dedica a produzir dados e influenciar o debate público sobre desigualdade na sociedade francesa.

Ele diz que os estudantes passam até dois anos estudando para ingressar nessas escolas, cujo exame de entrada é difícil e a própria vida acadêmica é intensa, o que “favorece os filhos de famílias mais favorecidas e afasta os filhos das famílias de origem popular”.

'A função pública deve se abrir ao maior número possível de perfis e de competências para fazer crescer sua eficácia e sua legitimidade'

“A ideia era formar pessoas muito, muito qualificadas, partindo de uma base geral da sociedade, que iria se aperfeiçoando ao longo dos anos. Mas, desde o início isso está reservado aos que têm condição de se dedicar de forma muito intensa, a pessoas que tenham os pais por trás e que não precisem trabalhar para viver enquanto estudam”, disse Maurin.

“Essa ideia original de formar a elite do Estado transformou-se na ideia de formar a elite da nação como um todo”, disse o diretor do Observatório. De acordo com o seu raciocínio, ao financiar estudos muito qualificados para filhos de famílias ricas, o governo não só torna a elite do funcionalismo público homogênea, composta majoritariamente por pessoas dessas origens, como forma profissionais de alto gabarito para o mercado privado.

Um dos efeitos nefastos dessa desigualdade é manter os políticos e empresários que ditam os rumos do país nadando numa espécie de aquário de privilegiados, sem contato com outros setores da sociedade.

Esse vício é precisamente o que os sucessivos governos franceses juram combater. “A função pública deve ser um reflexo da sociedade que a convoca a servir [...], especialmente no que diz respeito ao acesso igualitário aos cargos públicos tendo como base virtudes e talentos. A função pública deve se abrir ao maior número possível de perfis e de competências para fazer crescer sua eficácia e sua legitimidade”, diz um documento da gestão do ex-presidente François Hollande, recuperado esta semana pela jornalista do Le Monde Camille Stromboni em sua conta no Twitter.

João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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