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Os grupos indígenas que se mobilizam para defender seus territórios

Imagens raras de membro do povo awá-guajá, isolado do mundo exterior, trazem à tona a atuação dos ‘guardiões da floresta’ que tentam conter a ação de madeireiros e invasores

 

O registro em vídeo de um membro do povo awá-guajá é algo raro, talvez inédito. Reduzidos a poucas dezenas em uma terra indígena acossada por madeireiros, eles se isolam para sobreviver. São um entre mais de cem povos da Amazônia brasileira que evitam contato com o mundo exterior.

Em imagens divulgadas em 21 de junho de 2019, um jovem de cabelos curtos, colares e cordas no braço examina um facão. Em certo momento, ele parece notar que está sendo observado e se retira para dentro da mata. O registro não chega a um minuto de vídeo.

A gravação foi feita por Flay, "guardião da floresta" do povo guajajara, que habita a mesma Terra Indígena Arariboia, no Maranhão. Os guajajara totalizam cerca de 14 mil e mantêm contato rotineiro com o mundo além do território protegido.

 

“A gente não tinha autorização para gravar, mas a gente sabe da importância de usar essa imagem do awá porque se a gente não divulgar isso para o mundo eles vão acabar sendo assassinados pelos madeireiros”, disse Erisvan Guajajara, integrante da Mídia Índia, projeto de produção de conteúdo indígena. A declaração foi publicada no site da organização britânica Survival, que divulgou o vídeo internacionalmente.

As imagens também fazem parte do curta-metragem “Ka’a Zar Ukyze Wà – Os Donos da Floresta em Perigo”, que foi lançado no dia 24 de julho, em São Paulo, na Mostra ISA 25 Anos de Cinema Socioambiental.

Quem são os guardiões

A Terra Indígena Arariboia fica no sudoeste do Maranhão, em uma área de transição do Cerrado para a Floresta Amazônica. A área totaliza 413 mil hectares.

Há vários anos, diante da inação do estado perante invasões e ataques de madeireiros, os guajajara assumiram o papel de “guardiões” da região. Realizam missões de patrulhamento e expulsão de invasores, segundo relatou seu coordenador-geral, Olímpio Guajajara, ao Nexo. Também levam denúncias sobre a atuação de criminosos a autoridades. Entendem como sua missão não só proteger os guajajara, mas também os vulneráveis awá-guajá.

A ideia começou a tomar forma em 2007, quando o cacique Tomé Guajajara foi assassinado dentro de sua casa. Sua esposa e filho também foram baleados, mas sobreviveram. O crime aconteceu cerca de um mês depois que Tomé tinha expulsado homens que retiravam madeira ilegalmente da reserva. As informações são da ONG Survival, que atua junto a povos indígenas.

Em 2011, o grupo foi oficialmente constituído. Para situações formais, usam o nome Agentes Ambientais Indígenas de Arariboia. No dia a dia, são os guardiões. Atualmente, totalizam 120 homens e cerca de dez mulheres, de acordo com Olímpio.

“A omissão do estado brasileiro é muito grande com relação à terra indígena”, afirmou o líder guajajara ao Nexo. “Com o governo atual, a situação piorou. O fluxo de madeira ilegal aumentou muito”.

Muitas de suas ações são planejadas a partir dos boletins mensais de monitoramento por satélites fornecidos por entidades como o ISA (Instituto Socioambiental). Por meio deles, os guardiões conseguem visualizar elementos como a abertura de estradas usadas para roubo de madeira. No fim de 2018, havia 1.150 quilômetros de ramais abertos por madeireiros, afetando cerca de 20% desse território indígena.

“A omissão do estado brasileiro é muito grande com relação à terra indígena. Com o governo atual, a situação piorou. O fluxo de madeira ilegal aumentou muito”

Olímpio Guajajara

Coordenador-geral dos Guardiões da Floresta de Arariboia

Às vezes, a dissuasão dos cortadores de madeira ocorre na base do diálogo. “Explicamos que a área é proibida, que, assim como eles, temos famílias que temos que cuidar”, afirmou Olympio. Em outras, invasores são colocados em um carro e transportados para fora da Terra Indígena.

"Depois nós queimamos a madeira, para eles aprenderem a não ir mais na área da gente", relatou Valim Guajajara em entrevista ao site do ISA, em setembro de 2018. Em algumas raras ocasiões, destroem caminhões e tratores dos invasores, a exemplo do que faz o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais), respaldado pelo decreto 6.514, de 2008. Segundo o texto, “equipamentos, veículos e embarcações” utilizados em práticas ilícitas podem ser vendidos, doados ou destruídos. O presidente Bolsonaro já declarou que pretende dificultar esse tipo de ação.

Em muitas ocasiões, os guardiões trabalham ao lado das autoridades. Em episódios de incêndios, integrantes dos guardiões auxiliaram os bombeiros em seu trabalho de conter as chamas. Entre 2015 e 2017, foram registrados diversos incêndios na área.

Do governo federal eles esperam o pior. Junto com a administração estadual, liderada pelo governador Flavio Dino (PCdoB), são realizadas às vezes ações com a Polícia Ambiental do estado. Em fevereiro de 2019, Dino determinou o reforço da proteção da terra indígena pelo batalhão.

 

“Os índios estão fazendo o que está ao alcance deles para proteger suas terras. Mas seria necessária uma ação policial robusta do governo, incluindo inteligência, investigação, repressão e prevenção, para desbaratar as organizações que estão por trás dos crimes cometidos na Arariboia”, declarou Márcio Santilli, sócio fundador do ISA, em 2018.

A vigília precisa ser constante. Como fica a cabeça de quem vive assim? “É uma preocupação muito grande. A ameaça de morte é constante, principalmente à minha pessoa. Estamos impedindo gente de ganhar dinheiro, mas nós precisamos desse território”, declarou Olympio. “Estamos defendendo parte do pulmão da Terra. O mundo precisa se sensibilizar”.

Outras iniciativas

Mais ao norte, na Terra Indígena Caru, acontece uma iniciativa semelhante, mas com presença feminina maior. Intituladas Guerreiras da Floresta, elas totalizam 32 integrantes da etnia guajajara, segundo apuração do Repórter Brasil. Em Caru, também convivem guajajaras com awá-guajá.

Além de tarefas de patrulhamento, as mulheres realizaram visitas a escolas nos municípios que circundam a Terra Indígena com o intuito de conscientizar estudantes sobre a importância da mata para os povos indígenas. Em uma ação realizada ao lado dos guardiões, as guerreiras promoveram a queima de uma plantação ilegal de maconha dentro da área protegida.

Também no Maranhão, os ka’apor, habitantes da TI Alto Turiaçu, criaram em 2013 seu grupo de guardiões da floresta. No ano seguinte, flagraram e prenderam um grupo de madeireiros dilapidando a vegetação de dentro da área reservada. Os criminosos foram amarrados e seu maquinário queimado. Depois, os indígenas os entregaram às autoridades. Em três anos, 105 caminhões com madeira foram apreendidos e queimados.

“Nós temos uma guarda florestal fiscalizando direto, o tempo todo. Enquanto tiver pessoas que entram, a gente vai queimar caminhão”, declarou Itahu Ka’apor, liderança local, ao site Repórter Brasil, em 2018.

Em retaliação contra a mobilização indígena, fazendeiros e madeireiros ameaçaram realizar em 2016 uma invasão em larga escala do território ka’apor. O ataque não chegou a acontecer. Mas as agressões são recorrentes. Desde 2011, quatro ka’apor morreram em situações envolvendo madeireiros. Um deles foi uma adolescente de 14 anos, Iraúna Ka’apor, sequestrada durante um ataque de madeireiros a uma aldeia em 2015 e desaparecida desde então.

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