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A psicologia por trás da frase ‘isso vai estragar a minha infância’

Um pesquisador britânico estudou a afirmação, que costuma aparecer nas reações a novas versões de obras populares da cultura pop

    Remakes, revivals e releituras estão por toda parte na cultura pop, com novas versões de obras conhecidas sendo anunciadas e lançadas anualmente. Segundo um levantamento do site Den of Geek, 121 produções do tipo chegarão aos cinemas entre 2019 e 2022.

    Por se tratar de filmes, séries, quadrinhos e videogames populares, é comum que os anúncios de novas versões recebam críticas de diversos tipos. Uma das mais recorrentes parte da afirmação de que “isso vai estragar a minha infância”.

    Em 2016, fãs da franquia “Caça-Fantasmas” teceram duras críticas nesse sentido à nova versão do filme, que substituiu os protagonistas homens do original por quatro mulheres. Além disso, alguns deles enviaram comentários misóginos para as atrizes escaladas nas redes sociais.

    Dois anos depois, quando uma repaginação da animação “Thundercats” foi anunciada pelo canal Cartoon Network, mensagens do tipo apareceram entre as reações do público nas redes sociais.

    Um pesquisador britânico estudou esse fenômeno e tentou entender as bases psicológicas e antropológicas por trás da afirmação.

    A nostalgia totêmica

    No artigo “Nenhuma mulher vai caçar nenhum fantasma: nostalgia totêmica, fandom tóxico e os Caça-Fantasmas”, William Proctor, doutor em cultura e comunicação multimídia pela universidade de Bournemouth, no Reino Unido, estabelece o conceito de nostalgia totêmica, partindo do caso de “Caça-Fantasmas”.

    A nostalgia totêmica é definida por Proctor como “a potente conexão entre refletir nostalgicamente sobre o passado ao mesmo tempo em que ele mantém significado na vida atual do indivíduo”. Analisado pela perspectiva da cultura pop, o fenômeno representaria a presença significativa de uma obra do passado no tempo presente de uma pessoa, como um totem, algo que vira um símbolo adorado por um determinado grupo.

    Usando como exemplo os fãs de “Caça-Fantasmas”, o pesquisador apresenta o caso de Tom Gerdhart, um entregador de pizza dos EUA que participa de eventos fazendo cosplay, o ato de se fantasiar de personagens de obras ficcionais.

    “No meu emprego eu sou um ninguém, um cara normal. Nos fins de semana, nos eventos dos ‘Caça-Fantasmas’ dos quais eu participo com o meu cosplay, eu não me sinto como um ninguém. Quando eu estou lá, sou o meu verdadeiro eu”

    Tom Gerdhart

    entregador de pizza americano, em entrevista ao documentário ‘Ghostheads’, de 2016, citado no artigo de Proctor

    A partir do relato de Gerdhart, o estudo argumenta que a nostalgia totêmica está diretamente relacionada à construção da individualidade e da percepção pessoal de alguém. Assim, a frase “isso vai estragar a minha infância” surge para ilustrar uma suposta ameaça ao próprio indivíduo, que se sente seguro quando está envolto em suas próprias memórias.

    Segundo Proctor, o lançamento da nova versão de uma obra querida do indivíduo, diferente da original, é “uma maculação da santidade do objeto totêmico, e, por extensão, das memórias de uma fase importante do crescimento pessoal”, com o arruinamento da infância sendo uma metáfora consciente por parte do sujeito.

    A pesquisa constrói a ideia de que, por si só, a nostalgia totêmica não é maligna, mas que, em muitos casos, ela pode se manifestar de maneira tóxica, como aconteceu no reboot de “Caça-Fantasmas”.

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