Qual o cenário para Boris Johnson à frente do Brexit

Novo líder conservador deve assumir missão de desligar o país da União Europeia. Tarefa complexa já derrubou dois antecessores no cargo

     

    Boris Johnson foi eleito nesta terça-feira (23), com 66% dos votos, o novo líder do Partido Conservador, no Reino Unido. A vitória colocou o ex-prefeito de Londres e ex-ministro das Relações Exteriores em condição de tornar-se também o novo primeiro-ministro, em ato programado para esta quarta-feira (24).

    A vitória de Johnson ocorre no momento em que os britânicos tentam concluir seu processo de desligamento da União Europeia, o chamado Brexit, junção dos termos em inglês “British” (britânica) e “exit” (saída).

    O Reino Unido uniu-se à comunidade de 28 países europeus em 1973. Porém, em junho de 2016, a população decidiu, por meio de um referendo, deixar o bloco.

    Referendo de 2016

     

    O caminho do Brexit tornou-se custoso em termos políticos e econômicos. Desde o referendo, dois primeiro-ministros deixaram o cargo, alegando não terem a capacidade de levar a cabo esse desligamento: David Cameron, em junho de 2016, e Theresa May, em junho de 2019.

    Cameron, May e Johnson são todos do Partido Conservador. A legenda deles tem maioria no Parlamento, com 311 das 650 vagas, enquanto o maior rival, o Partido Trabalhista, tem 247. Os assentos restantes estão divididos entre oito partidos menores.

    Essa maioria dá a premissa aos conservadores de indicarem o primeiro-ministro. Mas, em monarquias parlamentaristas como a britânica, essa estabilidade é posta à prova a todo tempo. A própria base conservadora pode aprovar um voto de desconfiança contra o chefe de governo de turno. Se ele ou ela não mantiver o apoio dos parlamentares, cai.

    Quando posta à prova, May sobreviveu a esse teste. Ela passou por dois votos de desconfiança. Porém, acabou renunciando após três tentativas frustradas de aprovar o acordo de 585 páginas que estabelece os termos de um desligamento negociado entre o Reino Unido e a União Europeia.

    Agora, essa missão recai sobre Johnson, um militante do “do or die” (fazer ou morrer), o que significa sair da União Europeia a qualquer custo - seja por meio de um acordo, seja com acordo nenhum.

    A força do nacionalismo conservador

    A ascensão de Johnson ao poder é uma demonstração de força dos setores que colocaram o nacionalismo britânico por cima dos ideais de integração defendidos pelas democracias liberais europeias desde o fim da Segunda Guerra, em 1945.

    Essa ascensão está atrelada fundamentalmente a questões domésticas da política britânica, como o rechaço aos imigrantes e o desejo de concentrar as decisões orçamentárias, jurídicas e políticas em Londres e não em Bruxelas, que é a principal sede administrativa da União Europeia.

     

    Porém, essas questões domésticas não bastam para entender a vitória de Johnson. Em um plano internacional mais amplo, o novo líder conservador está em sintonia com o movimento que levou outros ultranacionalistas ao poder, tanto na Europa, com Matteo Salvini na Itália, por exemplo, quanto nos EUA, com Donald Trump.

    Nos dois planos, portanto, a cena britânica espelha a tensão entre os chamados “eurocéticos” (descrentes do projeto de integração regional) e os integracionistas, como o presidente da França, Emmanuel Macron, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, que defendem intransigentemente o projeto de convergência europeia.

    Até mesmo no Brasil esse debate provoca reflexos. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, chama de “globalistas” os que defendem arquiteturas coletivas de governança global. Desde que o presidente Jair Bolsonaro chegou ao poder, em janeiro de 2019, o Brasil preferiu se afastar do “globalismo” e privilegiar as relações bilaterais com países que agem de forma unilateral com  frequência, como os EUA e Israel.

    O movimento, no entanto, não foi radical a ponto de impedir que o Brasil firmasse, como parte do Mercosul, um acordo abrangente de comércio com a União Europeia, no mês de junho.

    No Reino Unido, Johnson também terá a missão de equilibrar o discurso nacionalista com a necessidade de manter acordos comerciais que sejam vantajosos para os britânicos, num mundo cada vez mais interligado. Apesar da militância pelo Brexit, o novo líder conservador não está no extremo mais radical do assunto, que é ocupado pelos membros de uma legenda chamada Partido do Brexit, liderado pelo populista Nigel Farage.

    O perfil espalhafatoso de Boris Johnson

    Johnson venceu o rival conservador Jeremy Hunt na reta final de uma disputa que mobilizou os votos de 160 mil membros filiados ao partido ao longo de sete semanas. A votação não foi universal porque cabe apenas aos conservadores, que detêm a maioria no Parlamento, indicar o sucessor de May.

    O novo líder foi parlamentar em 2015, prefeito de Londres de 2008 a 2016 e ministro das Relações Exteriores de 2016 a 2018. Ele nasceu em Nova York, nos EUA, filho de pais britânicos. Antes de ingressar na política, foi jornalista.

     

    Desde o início no Partido Conservador, fez de seu visual desalinhado e desajeitado uma marca voluntária, assim como fez de suas gafes um assunto constante na imprensa. Em 2016, já na vida pública, Johnson publicou um poema no qual descreve a relação sexual entre o líder turco, Recep Erdogan, e uma cabra. Ele também disse que o ex-presidente dos EUA, Barack Obama, nutria ressentimentos pelos britânicos porque era, em parte, queniano. Obama é filho de pai queniano e o Quênia foi colônia britânica de 1888 a 1962.

    “O humor britânico não tem fronteiras”, ironizou o ex-premiê da Bélgica, Guy Verhofstadt, quando soube da nomeação de Johnson para liderar a política externa do Reino Unido, em julho de 2016. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, disse que o momento era “amargo para o Reino Unido”.

    De lá para cá, Johnson assumiu protagonismo crescente na campanha pelo Brexit, e tornou-se um dos cabeça do movimento linha dura. Quando May patinou para aprovar o acordo de desligamento, Johnson uniu-se ao bloco de outros seis ministros que pediram demissão do gabinete, num gesto de desaprovação ao governo.

    Ambivalências do cenário britânico

    Entretanto, a devoção radical de Jonhson ao Brexit pode encontrar resistências dentro do próprio partido. O debate em torno desse desligamento é cheio de ambivalências. Isso significa que há posições divergentes mesmo dentro do Partido Conservador. Nem todos os correligionários de Johnson apoiam um desligamento sem acordo.

    Desligar-se sem acordo significa um salto no desconhecido para o Reino Unido. Ninguém é capaz de prever, por exemplo, o que aconteceria com as fronteiras entre a República da Irlanda (que é independente, e segue fazendo parte da União Europeia) e a Irlanda do Norte (que é parte do Reino Unido e, como tal, deixa o bloco).

    As duas Irlandas fazem parte da mesma ilha e dividem um extensa fronteira seca, de 500 km. Não há hoje qualquer controle de trânsito de pessoas e de mercadorias entre as duas Irlandas, e os irlandeses dos dois lados gostariam que isso seguisse assim, dado que, no passado, a divisão marcou um longo período de conflitos e atentados na região, entre nacionalistas e unionistas.

    Mapa mostra a localização da Irlanda do Norte e da República da Irlanda em relação ao Reino Unido.
     

    Uma das formas de contornar o problema é a criação de um mecanismo temporário de cooperação aduaneira, chamado “backstop”. A grosso modo, significaria tolerar por um tempo o livre trânsito de produtos na região sem controle alfandegário. Os detalhes da ideia não foram discutidos.

    A solução é complexa e exige negociações delicadas. Um movimento em falso pode reavivar disputas antigas que marcaram a história do Reino Unido. Johnson, que coleciona gafes do passado e faz o tipo rude e prático, pode não ter tato suficiente para a missão.

    O diagnóstico é de alguns de seus próprios correligionários, que ameaçam submetê-lo a um voto de desconfiança logo na chegada. Se isso ocorrer, a crise do Brexit ganharia contornos ainda mais incertos, numa dinâmica que, há três anos, é marcada justamente pela confusão e pela indecisão.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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