Ir direto ao conteúdo

Quando os cafés da manhã viram um problema para Bolsonaro

Presidente se encontra com jornalistas desde fevereiro, mas suas declarações têm gerado críticas ao governo. Carlos Bolsonaro quer fim dos eventos realizados para melhorar imagem de seu pai

     

    Desde o segundo mês de governo, o presidente da República, Jair Bolsonaro, tem promovido encontros com jornalistas em Brasília. O Palácio do Planalto passou a oferecer desde fevereiro de 2019 um café da manhã para receber os profissionais da imprensa. Até 19 de julho, ao menos sete eventos já haviam ocorrido. Os jornalistas podem fazer perguntas ao presidente, mas não são autorizados a gravar a conversa.

    Organizados pelo porta-voz da Presidência, general da ativa Otávio Rêgo Barros, os cafés têm um objetivo: tentar melhorar a imagem de Bolsonaro. Durante a campanha eleitoral, ele ficou marcado por atacar veículos como o jornal Folha de S.Paulo, que chamou de “a maior fake news do Brasil”. “Vocês não terão mais verba publicitária do governo”, ameaçou, durante discurso transmitido em telão na avenida Paulista. Um dia após ser eleito, repetiu as ameaças em entrevista à TV Globo. 

    As conversas buscam ainda desfazer a pecha de racista e homofóbico, adjetivos usados pela imprensa internacional para retratá-lo por causa das manifestações de intolerância explicitadas ao longo de sua carreira política de três décadas.

    As reações aos encontros

    Muitas das falas de Bolsonaro durante os cafés, porém, têm gerado efeito contrário. No mais recente, em 19 de julho, ao menos três afirmações suas causaram reações de repúdio em diversos setores da sociedade.

    • Bolsonaro disse não existir fome no Brasil. Segundo as Nações Unidas, porém, 5,2 milhões de brasileiros estavam em estado de subnutrição entre 2015 e 2017, o que corresponde a 2,5% da população. O presidente precisou recuar horas depois.
    • Afirmou que a jornalista Miriam Leitão, da TV Globo, mentiu ao dizer que foi torturada na ditadura. Para ele, ela foi presa enquanto se dirigia à guerrilha do Araguaia. A jornalista nunca participou da luta armada e foi presa e torturada grávida, aos 19 anos, segundo nota de repúdio lida no Jornal Nacional.
    • Colocou em xeque os levantamentos do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que apontaram aumento de 88% do desmatamento da Amazônia Legal em junho na comparação com o mesmo mês do ano passado. A manifestação causou repúdio da comunidade científica.
    • Em áudio vazado, referiu-se aos nordestinos como “paraíbas” e afirmou que o governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB, não deveria receber nada do governo. Bolsonaro depois foi a público dizer que a frase não era exatamente aquela e que não tinha ofendido os nordestinos.

    Houve reação inclusive entre os apoiadores do governo, mas pelo fim dos encontros. Carlos Bolsonaro, filho do presidente e vereador do Rio, criticou a imprensa por, em suas palavras, tirar as frases do pai de contexto. “Por que o presidente insiste no tal café da manhã semanal com ‘jornalistas’?”, escreveu, em sua página no Twitter.

     

    O deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), que apoia o governo, chamou o porta-voz da Presidência de “incompetente ou mal-intencionado”. “Porta-voz serve para proteger, não para expor. Nunca na história deste país um presidente foi tão exposto à imprensa como Jair Bolsonaro. Alguém se lembra de presidente toda sexta-feira receber jornalistas para café da manhã?”, questionou.

     

    Carlos Bolsonaro e Marco Feliciano foram ativos críticos do general da reserva Carlos Alberto Santos Cruz, que acabou perdendo o cargo de ministro da Secretaria de Governo, em junho, em meio aos embates a respeito dos rumos da publicidade institucional da administração federal.

    O próprio presidente se manifestou sobre os cafés da manhã organizados pelo porta-voz. “Não adianta a imprensa me pintar como seu inimigo. Nenhum presidente recebeu tanto jornalista no Palácio do Planalto quanto eu, mesmo que só tenham usado dessa boa vontade para distorcer minhas palavras, mudar e agir de má-fé ao invés de reproduzir a realidade dos fatos”, disse.

    No domingo (21), ele disse estar satisfeito com o trabalho do general Rêgo Barros e disse que irá manter a rotina de cafés da manhã. Veja abaixo como foram os encontros anteriores de Bolsonaro com a imprensa, na ordem cronológica.

    Em 28 de fevereiro: as polêmicas do filho

    A influência de Carlos Bolsonaro sobre o pai foi assunto do primeiro encontro com jornalistas, que ocorreu dez dias após a demissão de Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral, em meio às suspeitas do uso de candidatos laranjas pelo PSL. O ministro havia sido chamado publicamente de mentiroso pelo filho do presidente e caiu em seguida. “Nenhum filho meu manda no governo, não existe isso”, afirmou Bolsonaro, sobre o episódio. Disse ainda que a relação com o filho passou, a partir de então, a ter um “filtro”.

    Carlos reagiu no Twitter: “Como vocês [da imprensa] são baixos! Nenhum dos filhos mandam no governo mesmo e qualquer um que converse com o presidente o deve e tem de ser filtrado. Quanto a mira de vocês em mim. Eu e Jair Bolsonaro sabemos as intenções! Abraços de nós dois pra vocês!”.

    Em 13 de março: dos indígenas aos laranjas

    O segundo encontro foi organizado às vésperas da viagem do presidente aos Estados Unidos. Bolsonaro disse que removeria do cargo o então embaixador brasileiro em Washington, Sérgio Amaral, por causa de “ruídos” na atuação do diplomata. O presidente demonstrou descontentamento com a maneira como era apresentado pela mídia internacional, que o descreve como um ditador racista e homofóbico, o que ele negou ser. A embaixada ainda não tem um titular, e Bolsonaro anunciou que pretende indicar seu filho Eduardo. No café, ele também criticou a demarcação de terras indígenas no Brasil.

    Declarou que a dos ianomâmis, em Roraima, “é do tamanho do Estado do Rio de Janeiro” e que, em alguns lugares, “até 80% dos índios querem viver como a gente”, mas não citou suas fontes. Também afirmou que o governo incentivará a aproximação com os índios. “O índio é o nosso vietcongue na Amazônia”, disse, em referência aos guerrilheiros do Vietnã que lutaram contra os EUA entre 1955 e 1975.

    Na época do encontro, a polícia do Rio de Janeiro havia prendido o policial militar reformado Ronnie Lessa, suspeito de participação na morte da vereadora do PSOL Marielle Franco, em 2018. Lessa tem casa no mesmo condomínio do presidente, na Barra da Tijuca. A imprensa chegou a noticiar que o filho de Bolsonaro Jair Renan havia namorado uma filha do policial. “Eu liguei pro Jair Renan. Ele disse: ‘Já namorei todo mundo no condomínio'”, disse, sobre o caso.

    Bolsonaro também falou sobre as suspeitas de desvio de recursos partidários por candidaturas laranjas num esquema comandado pelo ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio. Ele disse ter pedido ao ministro da Justiça, Sergio Moro, para investigar o caso, e que Álvaro Antônio poderia ser demitido caso comprovadas as irregularidades.

    Também afirmou que Fabrício Queiroz, ex-assessor de seu filho Flavio na Assembleia Legislativa do Rio suspeito de desviar verba de gabinete, era “um cara de fazer rolos”. E declarou que sempre dormiu com uma arma na cabeceira da cama, hábito que ainda mantinha enquanto presidente.

    Em 5 de abril: a crise na educação e o xixi na cama

    O encontro ocorreu em meio à crise no Ministério da Educação, então comandado por Ricardo Vélez Rodríguez. Bolsonaro reconheceu que “faltava gestão” na pasta. “É uma pessoa bacana e honesta. Na segunda-feira [8 de abril] a gente tira a aliança da mão direita. Ou vai para a esquerda, ou para a gaveta”, afirmou. Ele foi substituído por Abraham Weintraub no dia 8 de abril, como havia anunciado.

    Em outro momento, ao ser questionado sobre declarações polêmicas feitas no passado, o presidente reconheceu que “já deu caneladas”, mas que não se arrependia. “Não posso me arrepender de ter feito xixi na cama.”

    Também declarou que estudava o cancelamento do horário de verão  em 2019. A justificativa do governo é que a alteração não trouxe economia significativa de energia nos últimos anos. Ele assinou um decreto em 25 de abril formalizando a ideia, mas em 18 de julho sinalizou que poderá voltar atrás na suspensão.

    Em 25 de abril: sexo com mulher ‘à vontade’ e Mourão

    Questionado sobre as acusações de ser homofóbico, Bolsonaro afirmou que “o Brasil não pode ser um país do mundo gay, de turismo gay”, porque “temos famílias”. Ao concluir o raciocínio, afirmou: “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”. Ele foi acusado de estimular o turismo sexual no país com a declaração.

    Enalteceu, no mesmo encontro, o papel da imprensa e disse que, apesar de percalços com alguns veículos de comunicação, era importante manter “a chama da democracia”. Criticou a censura imposta, à época, pelo ministro do Supremo Alexandre de Moraes ao site da revista Crusoé, obrigada a tirar do ar reportagens que tratavam do presidente da Corte, Dias Toffoli, que aparecia numa citação feita por Marcelo Odebrecht, condenado na operação Lava Jato. Moraes acabaria voltando atrás na decisão.

    Carlos também voltou à pauta do encontro. Ele havia feito críticas ao vice-presidente Hamilton Mourão, que tinha se posicionado contra seu pai em diversas declarações à imprensa. Ao lado do vice, Bolsonaro afirmou que havia conversado com o filho, que tinha opiniões próprias, e que “as críticas fazem parte da liberdade de expressão”.

    Sobre Mourão, disse que o vice também tinha sua liberdade, e o classificou como uma “sombra que não segue às vezes o Sol”.

    Em 23 de maio: falando ‘o que pensa’ e a CNH

    Na véspera, Bolsonaro havia criticado a classe política como sendo o problema do país. Por isso, no café com os jornalistas, reafirmou também ser político. Fez acenos ao Congresso, dizendo que os deputados tinham independência para fazer mudanças nos projetos enviados ao Legislativo. Ao comentar a derrota na Câmara que determinou a transferência do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) do ministério da Justiça de Sergio Moro para o da Economia de Paulo Guedes, minimizou a situação dizendo que a estrutura ficaria de qualquer jeito “dentro do governo”.

    Sobre a permanência de Major Vitor Hugo (PSL-GO) como líder do governo na Câmara, afirmou que o deputado seria mantido na função. Vitor Hugo havia desagradado o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ao espalhar memes contra os políticos.

    Bolsonaro se justificou: “Eu mesmo passei um meme aqui para o pessoal. Mostrava a foto da Michelle [Bolsonaro, sua esposa] e o Hélio [Lopes, deputado conhecido como Hélio Negão, que acompanha sempre o presidente em eventos] e perguntava: ‘Quem é a primeira dama?’. Liguei para o Hélio e perguntei: ‘Negão, você saiu do armário?’”, afirmou. Na mesma fala, o presidente ressaltou seu gosto pelas redes sociais por poder “falar o que pensa”.

    Também anunciou que iria mandar ao Congresso uma medida para aumentar de 20 para 40 o limite de pontos para a suspensão da Carteira Nacional de Habilitação. “Para o caminhoneiro, isso é muito importante [a suspensão]. A gente, se fica sem a carteira, pode ir trabalhar de Uber. Ele fica sem trabalhar”. Disse ainda que pretendia ampliar de cinco para dez anos o prazo de validade da habilitação.

    Em 14 de junho: soco na mesa de Heleno

    Quem roubou a cena no encontro foi o general Augusto Heleno, ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), que deu um soco na mesa ao comentar uma declaração do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que duvidava da veracidade da facada em Bolsonaro durante a campanha. Heleno defendeu que “um presidente da República desonesto tinha que tomar uma prisão perpétua”.

    O café foi realizado um dia depois da demissão do ministro Carlos Alberto Santos Cruz da Secretaria de Governo, por também ter sido criticado por Carlos Bolsonaro, além de ter se desentendido com o escritor Olavo de Carvalho, considerado o guru do presidente. “Foi uma separação amigável. Ele continua no meu coração”, disse Bolsonaro, sobre a demissão.

    Ele voltou a afirmar que o filho tinha sido “contido em seu ímpeto” de usar as redes sociais para fazer críticas a integrantes do próprio governo e reconheceu que Carlos “às vezes exagera”.

    Também criticou o que chama de politicamente correto. “Perdemos o direito de fazer piadas, não pode chamar cearense de cabeçudo, gaúcho de super macho, goiano de dupla sertaneja”, afirmou. “Tudo vira um super escândalo.”

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!