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Quem é a alemã que vai liderar a União Europeia até 2024

Nova comandante do bloco foi aprovada pela maioria do Parlamento Europeu e será a primeira mulher no cargo

Ao longo de 2019, a União Europeia passa por várias etapas de mudança em seu comando, num momento em que seus poderes e mesmo a sua existência são questionados por ultranacionalistas em diferentes países europeus.

No mês de maio de 2019, houve eleições diretas em todo o bloco para escolher os novos representantes do Parlamento Europeu. Em julho, os eleitos assumiram o cargo e foram definidos os dois responsáveis por liderar o bloco politicamente. Por fim, em novembro, esses dois selecionados tomarão posse, junto com suas equipes.

A principal figura política que emerge como nova liderança europeia é a alemã Ursula von der Leyen, eleita na terça-feira (16) pelos eurodeputados para suceder o luxemburguês Jean-Claude Juncker como a próxima presidente da Comissão Europeia, órgão crucial do bloco. Ela será a primeira mulher a ocupar o posto. De centro-direita conservadora, von der Leyen integrou por 14 anos o governo da primeira-ministra Angela Merkel, liderando diferentes ministérios.

O outro cargo-chave ficará com o belga Charles Michel, próximo presidente do Conselho Europeu. Liberal e de orientação mais ao centro, ele é hoje primeiro-ministro da Bélgica, mas irá sair do cargo antes de novembro de 2019 — no momento, o país está num período de transição entre governos. Ele, porém, terá menos poder interno e internacional do que von der Leyen.

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países constituem a União Europeia, incluindo o Reino Unido, que está em processo de saída

A tríade do bloco

Comissão Europeia

É o órgão executivo do bloco. A Comissão Europeia, que será presidida por von der Leyen a partir de novembro de 2019, é responsável por gerir o bloco no dia a dia, representar a União Europeia diplomaticamente no exterior e fiscalizar se os países-membros estão cumprindo os acordos do grupo. É a única instituição capaz de propor leis. Cada um dos 28 comissários cuida de uma área específica, como saúde e agricultura, papel análogo ao de um ministro no governo de um país.

Conselho Europeu

É o órgão que representa o comando político do bloco. O Conselho Europeu é formado por chefes de Estado ou de governo de todos os 28 países-membros (os presidentes ou primeiros-ministros). É responsável por definir as diretrizes políticas e fazer recomendações a outras instituições da União Europeia. Como presidente da Comissão, von der Leyen também terá direito a um assento no Conselho, embora não num papel de liderança.

Parlamento Europeu

É o órgão que representa os cidadãos dos países que fazem parte do bloco. O Parlamento Europeu debate, vota e adota as leis da União Europeia, assim como participa da decisão sobre o orçamento do bloco. Ele não pode propor uma lei, função que cabe exclusivamente à Comissão Europeia. Os 751 eurodeputados são eleitos por voto direto em seus países de origem a cada cinco anos, numa eleição unificada.

As prioridades de Ursula von der Leyen

Ursula von der Leyen irá assumir um mandato de cinco anos, até novembro de 2024, e poderá se reeleger para o posto. Também poderá ser removida por decisão do Parlamento Europeu, algo que nunca aconteceu na história do cargo.

Em seus discursos, enquanto fazia uma campanha interna pelo cargo e nas primeiras entrevistas após ser eleita, von der Leyen tem indicado quais devem ser suas diretrizes quando assumir a Comissão Europeia:

  • impulsionar uma agenda ambiental já no início do mandato, propondo leis para estabelecer a União Europeia como uma região com saldo zero de emissão de carbono até 2050
  • alterar as regras sobre migração, dividindo mais responsabilidades entre os Estados-membros sobre refugiados e imigrantes irregulares, reforçando a segurança nas fronteiras e dando auxílio aos países que concentram a entrada de pessoas
  • manter a base do atual acordo sobre o Brexit, repetidamente rejeitado pelo Parlamento britânico, e, se necessário, estender o prazo final para a saída do Reino Unido, hoje estipulado em 31 de outubro de 2019
  • investir na área de defesa do bloco e realizar um esforço conjunto entre as forças militares dos países-membros, mantendo aliança com os Estados Unidos nesse setor, porém com mais autonomia
  • defender a igualdade de gênero, prometendo formar sua equipe de 28 comissários com metade de mulheres e metade de homens

Ela foi eleita com 51% dos votos do Parlamento Europeu, uma margem mais apertada do que seus antecessores mais recentes.

A eleição para a presidência da Comissão Europeia obedece ao seguinte trâmite: primeiro, o Conselho Europeu faz uma consulta ao Parlamento sobre possíveis indicações, depois escolhe um nome e por fim submete a sua nomeação à votação dos eurodeputados, que podem referendá-lo ou não.

A trajetória de Ursula von der Leyen

Ursula von der Leyen tem 60 anos e é filha de um político que chegou a ser governador de um estado da Alemanha. Fluente também em inglês e francês, ela se formou em economia e mais tarde em medicina.

Trabalhou como médica e mais tarde como professora universitária da área. A sua tese de doutorado foi investigada por plágio, mas depois a comissão responsável a isentou dessa acusação.

Nos anos 1990 ela entrou para a política ao filiar-se à CDU, de centro-direita, mesmo partido de Angela Merkel. Na década seguinte, von der Leyen se elegeu pela primeira vez para um cargo público, como deputada estadual no estado da Baixa Saxônia. Em seguida fez parte do governo local como secretária das Mulheres, Família e Saúde.

Em 2005, von der Leyen virou ministra de Merkel, de quem é uma grande aliada e recebeu mais tarde apoio para a carreira no bloco europeu. Passou por três ministérios: comandou a pasta da Família, depois a do Trabalho e, a partir de 2013, se tornou a primeira mulher ministra da Defesa.

Foto: Tobias Schwarz/Reuters - 07.03.2007
von der Leyen conversa com a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, em Berlim. von der Leyen foi ministra de Merkel de 2005, início do governo, até 2019
von der Leyen conversa com a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, em Berlim. von der Leyen foi ministra de Merkel de 2005, início do governo, até 2019

À frente das Forças Armadas alemãs, ela conseguiu aumentar os repasses federais para a área da defesa e viabilizou o crescimento das tropas, o que lhe rendeu prestígio entre os militares. Depois, porém, começou a se distanciar deles, diante de escândalos internos e de uma investigação ainda em curso por suspeitas de gastos indevidos em contratos do ministério com empresas privadas. Ela nega qualquer irregularidade. Ursula von der Leyen renunciou ao cargo de ministra da Defesa na quarta-feira (17), ao ser eleita para comandar a Comissão Europeia.

O momento da União Europeia

A extrema direita nacionalista atravessa seu melhor momento na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Partidos dessa orientação política chegaram ao poder em 2010 na Hungria, em 2015 na Polônia, em 2017 na Áustria e em 2018 na Itália.

Em outros países, a extrema direita cresceu recentemente, mas não chegou a fazer parte do governo — casos da França, Alemanha e Espanha, por exemplo.

Muitos dos políticos dessa vertente no continente também questionam o poder e a própria existência da União Europeia. Para eles, o bloco se intromete indevidamente em assuntos nacionais e dificulta o desenvolvimento e autodeterminação de cada país.

Líderes dos dois países mais populosos do bloco, Merkel e o presidente francês, Emmanuel Macron, são atualmente os principais defensores do modelo da União Europeia e da integração regional. Caberá a von der Leyen conduzir o bloco em meio a essa turbulência enquanto defende uma integração ainda mais profunda entre os países-membros.

As eleições para o Parlamento Europeu em maio de 2019 indicaram mais uma vez um crescimento da extrema direita no bloco, embora continue minoritário, com quase 10% dos assentos entre os eurodeputados.

Os principais grupos políticos na Europa continuam sendo os de centro-direita conservadora e da centro-esquerda social-democrata. Líderes e partidos ultranacionalistas, porém, estão usufruindo de mais popularidade e conseguindo por vezes guiar o debate público de acordo com suas pautas e projetos, como a linha-dura no combate à imigração e a recuperação daquilo que veem como valores nacionais.

Atualmente, por exemplo, instituições da União Europeia avaliam aplicar sanções à Hungria e à Polônia, uma reprimenda dura e rara na história do bloco. O motivo são reformas no Judiciário impulsionadas pelos dois governos que, segundo parte dos analistas, representariam uma tentativa de exercer controle político sobre a Justiça e minar a democracia.

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